
Está lá você, meu caro senhor, à porta de sua morada, quando seu inquilino vindo pagar o aluguel; não, ele não usa chapeuzinho azul nem deve 14 meses. É um jovem cioso dos seus deveres. Ele não traz moedas, não traz ouro em barra nem um saco de prata tilintando como nos filmes. Ele chega com mil enguias secas amarradas em feixes, e você aceita, claro! Não só aceita, como tem certeza de que fez um ótimo negócio.
A cena nem é caricatura: é registro histórico. Bem-vindo à Inglaterra medieval, época em que enguias não eram só refeição. Eram moeda, eram contrato jurídico, eram commodity com variação de mercado e, ironicamente, também foram responsáveis por uma crise política que transformou o reino num caos digno de reality show com barões saqueando tudo. Um dia alguém ainda vai escrever “A História do Ocidente contada por peixes escorregadios”, e nós saberemos que será um livro honesto.
As enguias eram o arroz com feijão, o pão francês, o miojo de universitário da Idade Média. Se você pensa que sardinha ou bacalhau eram relevantes, pense menor. Os registros indicam que ingleses consumiam mais enguias do que todos os outros peixes juntos. Era onipresente, democrático, barato. A diferença é que ninguém paga aluguel com feijão. Ainda. Embora, com o preço do tomate, talvez a economia esteja reconsiderando suas prioridades.
O sucesso não era um milagre gastronômico, era pura logística biológica. Enguias migravam com pontualidade automática, como se tivessem lido o calendário litúrgico. Subiam rio acima para desovar em águas rasas e lodosas, depois voltavam ao mar para a vida adulta. Bastava um camponês ligeiramente competente e uma cesta de vime com um funil na boca para capturar centenas. Era o fast-food perfeito. Zero esforço, alta recompensa. O McDonald’s da natureza. Sem drive-thru, porém com lodo.
E como tudo que o ser humano ama demais, o Estado precisou interferir. Quando o problema é grande, ele vai parar em documento importante. Tanto que a Magna Carta, essa mesma de 1215, marco do direito ocidental, dedicou a Seção 33 à proibição das armadilhas de enguias nos rios interiores da Inglaterra. Não é piada. No mesmo pergaminho que limita o poder real e estabelece princípios jurídicos básicos, há um parágrafo inteiro discutindo pesca. A Idade Média não lidava com ONG ambiental. Lidava com legislação constitucional anti-genocídio de enguias. Civilização é isso!
E se enguias eram comida, também eram dinheiro. No século XI, mais de meio milhão delas foram usadas apenas para pagar aluguéis. Não estamos exagerando. Em 1194, monges da Abadia de Ramsey negociaram o direito de usar uma estrada elevada em terras pantanosas. O pagamento anual seria duas libras de especiarias e gengibre, um par de calças vermelhas e mil enguias. A viúva do proprietário depois renegociou. Aceitou trocar metade por meia marca de prata e sessenta carroças de lenha porque mais vale um inquilino vivo que uma estrada deserta. Mas manteve as enguias. As calças vermelhas perderam relevância, mas as enguias eram questão de Estado. Prioridades.
O vocabulário enguio-financeiro também era sólido. Um bind significava dez enguias. Um stick equivalia a vinte e cinco. Pedia-se enguias como quem pede uma dúzia de ovos. Nada parecia estranho para eles, e tudo nela soa delicioso para nós. Absurdo total: um proprietário de moinhos recebia mil sticks em um, dois mil no outro. Setenta e cinco mil enguias ao ano. Mesmo com festa open-enguia e hidromel, ninguém consome isso. Ele revendia. Era o Elon Musk das enguias. Só que com menos Twitter e mais cheiro de peixe seco…
Pensando bem, é o próprio Twitter.
Quase todas as enguias eram secas. Mais leves, compactas, perfeitas para sobreviver ao inverno. Algumas salgadas, outras defumadas, mas o básico era feixe de enguias secas amarradas na cintura da economia. Um stick valia cerca de dois pence. Em moeda moderna, algo como dez dólares por stick, ou um Ônix 2019Citation Needed. Meio dólar por enguia. O dono dos moinhos lucrava uns dez mil em um, vinte mil no outro. A NASDAQ medieval era um rio cheio. E, claro, se tem dinheiro rolando, ÓBVIO, vai ter religião se metendo, e tudo ganha aura de grandeza mística.
Eu ouvi um amém?
Na Quaresma, a carne era proibida porque estimulava paixões mundanas e a Igreja preferia rebanho calmo. Peixes eram liberados e as enguias tinham bônus espiritual: como ninguém entendia como se reproduziam, acreditava-se que surgiam espontaneamente da lama. Praticamente um alimento imaculado. Você podia devorá-las com fervor e ainda parecer santo. Era marketing religioso antes da invenção da publicidade. “Enguias: pureza que derrete na boca” teria sido um ótimo slogan.
A Quaresma coincidindo com o fim dos estoques de inverno também era providencial. Chamar fome de penitência torna a experiência mais suportável. Hoje chamamos dieta de detox. Nada muda; apenas o vocabulário se atualiza.
Mas a farra acabou. A população de enguias nos rios caiu e nasceu o comércio de importação. Em 1392, Ricardo II baixou impostos para estimular o abastecimento e evitar que Londres virasse uma cidade sem peixe nem fé. Surgiram os eel ships. Navios com porões inundados levavam enguias vivas do continente. Elas toleravam água doce e salgada, e atravessavam o mar confortáveis, como turistas que não pagam upgrade de cabine. Ancoravam no meio do Tâmisa e a população ia comprar baldes delas. O iFood medieval exigia remar, mas funcionava. Esse hábito durou até o século XIX. Depois disso, o glamour escorregadio perdeu o charme.
Hoje restou pouco além de jellied eels no East End de Londres. Quem experimenta descreve como mastigável com ossinhos infinitos. Não é exatamente sushi de salmão. É mais uma prova de caráter. Gosto adquirido, como jazz ou vinho tinto barato, com gente usando monóculo e segurando xícara com dedinho espetado.
Agora, o final que faria Shakespeare levantar da tumba para anotar ideias: Henrique I morreu por excesso de enguias. Surfeit of eels, como registraram. Talvez lampreias, mas a imagem irresistível permanece. Um rei abarrotado de peixe gelatinóide. E pior: seu único herdeiro havia morrido no desastre do White Ship. Resultado: sem sucessão, sua filha Matilda e o sobrinho Stephen de Blois (se pronuncia “Bloááá”, colocando o linguão pra fora) disputaram o trono. O país mergulhou num período com o sugestivo nome “A Anarquia”. Saque, assassinatos, nobres virando bandido por esporte (alguns deles já sendo por nascimento e determinação).
Dizia-se que, neste tempo, Jesus e seus anjos dormiam. Tudo porque um rei comeu demais. Não é sátira. É História! Mas bem que daria um bom filme com os irmãos Zucker… talvez exagerando um pouco.
Enguias pagaram aluguel, financiaram moinhos, ganharam cláusula na Magna Carta, foram moeda, tiveram status teológico e derrubaram um governo. O animal mais importante da história humana? Não é cavalo, nem cachorro, nem gato. São elas: enguias viscosas, discretas, políticas. Tem gente que vê história em reis. Eu vejo em peixes elásticos comprados em baldes no Tâmisa.
E, francamente, acho que a humanidade só continua existindo porque, em algum momento, as enguias cansaram de mandar na Economia.
Damn brits!

2 comentários em “Quando as enguias pagavam o aluguel e causaram uma guerra civil”