A ópera-bufa do roubo ao Louvre

O homem audacioso passou muito tempo planejando. Aquele era o momento e ele está de pé, ali, de frente para o local de seu crime. A fachada do palácio se estende imponente sob o céu cinzento, suas alas simétricas de calcário já manchadas por séculos de chuva parisiense. Colunas coríntias subiam em fileiras solenes, frontões barrocos coroavam pavilhões como coroas esquecidas de reis mortos, e estátuas de deuses greco-romanos observavam o pátio vazio de paralelepípedos irregulares com olhos de mármore indiferente. Eram deuses, por que iriam se importar com as paixões humanas? Os telhados de ardósia negra desenham silhuetas dramáticas contra as nuvens, enquanto janelas altíssimas refletiam o céu como espelhos cegos. Nada quebrava a geometria clássica, nenhuma multidão de turistas profanava o silêncio; apenas o palácio e sua arrogância secular, guardião de tesouros que acreditava invulneráveis, enquanto a cidade acordava lenta e desatenta do outro lado dos portões.

O Louvre aguarda o homem cujas mãos pecaminosas irão despojar o magnífico museu de seus tesouros. O homem é audacioso, já falei, e ele irá colocar sua audácia e sua ousadia sob teste e ele conseguiu, de fato, seu intento ao realizar o roubo mais espetacular de sua época.

Ele roubou a Mona Lisa.

A história do roubo da Mona Lisa é daquelas histórias esquisitas que ninguém acredita na primeira vez que sabe a respeito, mas aconteceu de verdade. E o mais fascinante? Na época do furto, a pintura nem era tão famosa assim, mas o assaltante inadvertidamente iria mudar isso. Claro, era conhecida nos círculos de arte, mas não era “a” pintura que todo mundo conhece hoje. Não tinha sala própria, não tinha multidões se acotovelando para tirar selfie. Foi justamente o roubo que a transformou na celebridade global que é hoje. É como se alguém tivesse sequestrado um ator coadjuvante e, de repente, ele virasse o protagonista da franquia.

Estamos em pleno verão parisiense em 21 de agosto de 1911, e uma onda de calor infernal está cozinhando a cidade. As ruas estão vazias, o Louvre mais silencioso que o whatsapp do meu chefe quando mandei mensagem pedindo um aumento. É nesse cenário apocalíptico que um sujeito decide que chegou a hora de cometer o crime do século. E olha, ele não estava completamente errado; só meio errado, como você vai descobrir.

Naquele domingo à noite, enquanto os últimos turistas saíam do museu, um homem vestido com o uniforme branco oficial do Louvre entrou tranquilamente, pouco antes do fechamento. Ninguém desconfiou, mesmo porque, ele parecia um funcionário como qualquer outro. Encontrou um pequeno armário de limpeza, se enfiou lá dentro e ficou. A noite inteira! Este, sim, é um sujeito de grande paciência, passando horas no escuro, espremido entre baldes e rodos fedorentos, ouvindo o silêncio sepulcral do museu vazio, planejando seu momento de glória.

No dia seguinte, segunda-feira, o museu estava fechado ao público. Estratégia perfeita: pouquíssimos funcionários circulando, vigilância mínima. Às 7h15 da manhã em ponto – porque até ladrão tem horário (e curiosamente, ele não era britânico) –, o homem finalmente emerge de seu esconderijo como uma fênix ressurgindo das cinzas. Só que essa fênix cheirava a detergente e provavelmente tinha cãibra nas duas pernas.

Com o Louvre praticamente vazio, ele se move rápido. Caminha direto até o Salão Carré, onde a Mona Lisa estava pendurada. Nada de sistema de segurança moderno, nada de alarmes sensíveis ou guardas estrategicamente posicionados. Só alguns pinos de metal prendendo a pintura na parede e uma moldura protetora de vidro. É quase ofensivo de tão simples. O ladrão simplesmente puxa a pintura dos pinos, arranca-a da parede como quem tira um quadro da sala para trocar de lugar, e carrega até uma escadaria próxima.

Ali, sem pressa, ele saca uma chave de fenda e começa a desmontar metodicamente a moldura protetora que ele próprio havia construído quando trabalhava no museu. Cada parafuso sai com facilidade porque ele sabe exatamente onde estão. Remove a tela, envolve tudo num lençol branco como quem embrulha roupa de cama e parte rumo à saída mais próxima. O plano está funcionando perfeitamente.

Mas aí vem ele: o plot twist. A porta está trancada! Nesse exato momento, um encanador que trabalha no Louvre aparece do nada. E o que faz esse cidadão prestativo? Acha que o homem é um colega de trabalho e o ajuda a abrir a porta. Pronto. O ladrão sai pela porta da frente, Mona Lisa debaixo do braço, como quem carrega a marmita para o almoço. Todo o assalto durou minutos. A segurança do Louvre era, aparentemente, menos rigorosa que a de um banheiro público.

Calma, as partes hilárias só estão começando!

Demorou 28 horas para alguém perceber que a pintura tinha sumido. Ninguém notou os quatro pinos vazios na parede porque fotógrafos oficiais estavam documentando o acervo naquela semana, então, espaços vazios nas paredes eram perfeitamente normais. Foi só quando um artista apareceu querendo fazer um esboço da Mona Lisa e reclamou que ela não estava lá que os guardas começaram a desconfiar. Primeiro acharam que tinha sido levada para manutenção ou inventário, seguindo alguma burocracia. Entretanto, depois de algumas horas checando e rechecando, ficou claro: a Mona Lisa tinha realmente desaparecido! O caos se instalou. A polícia foi chamada, detetives invadiram o museu e o mundo inteiro ficou boquiaberto. A única pista? Uma moldura de madeira abandonada e uma impressão digital.

Os jornais locais ofereceram uma recompensa de US$ 250 mil, o que se formos traduzir em dinheiro de hoje, só levando em conta a Inflação, daria cerca de US$ 8,5 milhões, mas em termos de poder de compra seria muito mais. Fiquemos só com esses 8,5 milhões, mesmo. A resposta, claro, foi avassaladora. Milhares de pessoas mandaram cartas e apareceram nas delegacias com teorias malucas. Testemunhas viram um homem saindo do Louvre com um objeto volumoso, mas as descrições eram completamente diferentes. Alguém jurou que a pintura estava num trem de carga atravessando a Bélgica. Outro garantiu que ela estava num navio rumo à América. Era um festival de gente inventando histórias para meter a mão nessa grana.

E então surgiu o suspeito dos sonhos: um certo sujeito chamado Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso. Sim, este era o nome do Pablo Picasso, porque quando você é espanhol, por que usar um ou dois nomes quando pode usar 23? Uma secretária denunciou que o poeta Guillaume Apollinaire e Picasso haviam comprado estátuas ibéricas roubadas do Louvre no passado. Picasso até usou essas estátuas como inspiração para suas pinturas. A polícia conferiu os números de série e – SURPRISE, MOTHERFUCKER! – as estátuas eram mesmo do museu.

Picasso foi em cana e viu Guernica nascer quadrado antes mesmo de pintá-lo. E aqui vem a parte constrangedora: durante o interrogatório, Picasso imediatamente jogou o amigo Apollinaire debaixo do ônibus, alegando que nunca tinha visto aquele homem na vida. Um ato de traição pelo qual Picasso supostamente carregou vergonha pelo resto da vida (conhecendo Picasso, duvido muito). Imagine a cena: um dos maiores gênios da arte moderna sendo acusado de roubar a Mona Lisa e, no desespero, traindo o próprio amigo. No fim, concluíram que nenhum dos dois tinha nada a ver com o sumiço da pintura. Mas o momento deve ter sido eternamente embaraçoso. Curiosamente, Picasso nunca pintou alguma natureza morta sob a forma de Torta de Climão.

Outro suspeito foi J.P. Morgan, o banqueiro e colecionador americano. Na época, falsificação de arte era um negócio lucrativo. A teoria era que Morgan tinha encomendado o roubo para adicionar a obra à sua coleção particular. A polícia americana interceptou um navio chegando a Nova York, revistou tudo, mas nada de Mona Lisa. As teorias continuaram pipocando por dois anos inteiros, enquanto a pintura permanecia desaparecida.

Quer saber onde ela estava? A dois quilômetros do Louvre, num apartamento xexelento de um cômodo só pertencente a Vincenzo Peruggia, um marceneiro italiano nascido em 1881 que havia trabalhado no museu como faz-tudo. Efetivamente, Peruggia não era um ladrão de carreira internacional nem um gênio do crime. Era um operário comum que em algum momento da vida se mudou da Itália para a França em busca de trabalho e acabou empregado no Louvre. Ali, conheceu cada corredor, cada porta, cada fraqueza daquele museu gigantesco. Sabia que o Louvre fechava às segundas-feiras. Conhecia a rotina dos fotógrafos que andavam tirando pinturas das paredes. E, detalhe crucial, ele próprio havia construído a caixa protetora de vidro da Mona Lisa quando trabalhava lá. Por isso desmontou tudo com tanta facilidade.

Depois do roubo, Peruggia voltou para seu modesto apartamento de um cômodo e escondeu a pintura num baú – um local consideravelmente menos prestigioso do que ela estava acostumada. A Mona Lisa ficou ali, a poucos quarteirões do museu que a procurava desesperadamente, escondida no esconderijo mais óbvio e ao mesmo tempo mais invisível possível: a casa do próprio ladrão.

Peruggia tinha a intenção de fazer fortuna com a pintura, o que era um plano meio idiota quando você para pra pensar. A Mona Lisa é uma obra sem preço. Literalmente sem preço! Para quem você vai vender? Um milionário vai querer que um especialista autentique a obra antes de desembolsar uma fortuna, e aí você precisa torcer para que nem o especialista nem o comprador vão direto para a polícia (lembrem-se que tinha a oferta de dinheiro dos jornais!). Encontrar um comprador para a pintura roubada mais famosa do mundo ia ser muito, muito difícil.

Mas como ele não foi pego antes? Aqui entra uma falha policial que é quase uma piada pronta. Peruggia tinha ficha criminal, ou seja, ele já era conhecido da polícia. Suas digitais estavam no sistema. Deveriam ter encontrado uma correspondência imediata quando acharam a impressão digital na moldura abandonada. Mas não. Sabe por quê? No banco de dados policial constavam apenas as impressões da mão direita de Peruggia, e a digital encontrada na cena do crime era da mão esquerda. Falha técnica épica que transformou um criminoso fichado em fantasma invisível. Parabéns, inspetor Clouseau!

Calma, a pantomima não acabou! Durante a investigação, a polícia visitou o apartamento de Peruggia não uma, mas duas vezes! Bateram na porta, entraram, olharam ao redor. E não encontraram absolutamente nada. A Mona Lisa estava literalmente ali, a um metro de distância dos investigadores, sorrindo ironicamente de dentro do baú com fundo falso. Peruggia deve ter suado frio, mas manteve a calma. Os policiais foram embora de mãos vazias nas duas ocasiões.

Depois de dois anos, Peruggia perdeu a paciência. Escreveu uma carta anônima a um negociante de arte em Florença – ironicamente, a cidade onde Da Vinci pintou a obra-prima –, dizendo que tinha a Mona Lisa e queria devolvê-la à “pátria”. Assinou como “Leonardo Vincenzo”. Criatividade não era exatamente o forte do rapaz. Pegou o trem para a Itália e os negociantes concordaram em se encontrar com ele no hotel para autenticar a pintura. Com as portas trancadas, Peruggia abriu o baú e, para surpresa geral, lá estava ela: La Gioconda praticamente pulando e gritando “TCHARAAAN”.

Os especialistas levaram a obra para o estúdio deles sob o pretexto de fazer mais verificações, garantindo a Peruggia que ele seria recompensado por trazer a pintura de volta para a Itália. Uma hora depois, a polícia bateu na porta do hotel. Fim de jogo. Peruggia foi preso, pegou apenas sete meses de cadeia e morreu dez anos depois.

O desfecho parecia simples, mas em 1932 surgiu uma história muito mais saborosa.

Um jornalista chamado Karl Decker publicou um relato explosivo: o verdadeiro mentor do crime teria sido Eduardo de Valfierno, especialista em falsificação de arte. Segundo Decker, Valfierno bolou um plano magistral: vender seis cópias perfeitas da Mona Lisa a seis milionários americanos ingênuos. Encomendou as réplicas, enviou-as aos Estados Unidos e as guardou. Para que os compradores acreditassem estar adquirindo a original, o quadro verdadeiro precisava desaparecer. Foi aí que Peruggia entrou em cena. Com o sumiço estampado nos jornais, as seis cópias foram vendidas como autênticas. O trio embolsou o equivalente a US$ 90 milhões e sumiu no mapa.

Será verdade? Ninguém sabe ao certo. Mas numa história em que um encanador ajuda um ladrão, Picasso é preso injustamente e a polícia ignora digitais esquerdas, acreditar em seis Mona Lisas falsas circulando por aí não parece tão absurdo assim.

POr causa disso, a Mona Lisa se tornou a pintura mais famosa do mundo, atrás de um grande aparato de segurança., e se você pretende ir lá ver a Mona Lisa, bem, vai ter que esperar e se tiver sorte, não vai ter 300 mãos na frente tentando fazer a mesma foto. Só umas 120.

Ah, e sobre o roubo das oito peças da coleção de joias e pedras preciosas da Galeria de Apolo no Louvre em 19/10? Meu amigo, você acha mesmo que eu vou dar atenção a isso? Procurem no muquifo de algum marceneiro a pouquíssimos quilômetros do Museu. Vai que encontram. Só não mandem a polícia francesa, que só é eficiente em filme.


Fontes:

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