Ragebait: o ódio como fonte de receita

Eu ainda poderia ter dado o título: Como Descobrimos que Ser Detestável Rende Mais que Ser Adorável que ainda assim estaria bem de acordo. Eu ainda poderia fazer um resumo do resumo e dizer: quem mais te odeia é quem mais te divulga.

Semana passada um idiota postou no Twitter que sentia falta das minhas postagens, junto com o de outros. Em essência, o idiota que postou isso nunca apareceu no meu blog, nunca interagiu, nunca divulgou um link sequer. Quem até hoje me divulga é quem mais me odeia, e essa é a verdade. Várias vezes já me disseram “eu adoro o seu conteúdo, mas não divulgo para não criar problemas para mim”. Em contrapartida, meus crentes toscos de estimação vivem me xingando e interagindo comigo. Postagens de mais de 15 anos ainda são visitados e comentados e é absurdamente raro quando alguém comenta em algum artigo que eu poste hoje.

Então, veio aquilo que acabou com a Internet de uma forma geral: a monetização.

No YouTube dos tempos d’Antanho, que era praticamente uma rede social, você colocava seus vídeos lá, outros colocavam, você seguia gente, tinha postagem, tinha timeline. Google comprou o YouTube e fez o melhor que sabe fazer: merda, porque Google tem coisas boas e originais; o que é bom não é original, o que é original não é bom.

Como Google vive de propaganda, ele achou que tinha que intensificar os vídeos, e com isso criou a monetização. Pronto, um monte de gente começou a postar qualquer merda. O Facebook segue por outro caminho: “quer ser visto, pague!”

O problema é que isso elevou e muito a quantidade de gente postando vídeos, porque todo mundo queria a sua independência financeira, e o melhor era postar qualquer tipo de merda. O que divulga mais? Olhe lá em cima: quem mais te odeia é quem mais te divulga. Então, os vídeos de muitos toscos era ser agressivo e gerar ódio. Isso serviu como isca e hoje tem até nome próprio: Ragebait.

Ragebait (ou a Isca do Ódio) são conteúdos, se é que podemos chamar assim, que geram raiva e indignação. Nada – NADA MESMO! – vicia mais que a indignação. Enquanto você assiste a um gatinho fofo e segue em frente com um sorriso discreto, diante de algo que te irrita, você para, digita, compartilha, xinga e pronto! Caiu na armadilha.

Diferente do clickbait – aqueles títulos irresistíveis que nos fazem clicar –, o ragebait não quer apenas sua atenção. Quer seu sangue fervendo. É você ver uma cena tipo uma influenceira falar que vai tirar a filha do quartozinho fofo dela e colocar na varanda, devidamente fechada, com um ar-condicionado portátil enquanto fala cinicamente que assim ela tem um estúdio melhor.

NUOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOSSA!

Os perfis de rede social caíram de porrada. Arco-reflexo? Os números dela saltaram. Daí, com tanto acesso e compartilhamento, ela pode chegar para as marcas e dizer o quão fodástica em termos de divulgação ela é e que seria uma excelente ideia pagá-la para divulgar seus produtos.

Ah, mas aí as marcas ficam com um viés negativo

Não, não ficam. Lembre-se: não existe má propaganda, existe propaganda. A bola da vez (e eu não sei se foi proposital ou não) é a propaganda com a Sydney Sweeney vestindo jeans com o slogan “Sydney Sweeney has good jeans”. A genialidade é que a frase soa “Sydney Sweeney has good genes”. Bem, bons genes ela realmente tem, mas o pessoal surtou apelando que ela era feia, era menor de idade, isso remetia à eugenia, provocava a extrema-direita, era apito de cachorro, promovia genocídio etc. Quem mais divulgou é quem mais odiou, e por que odiaram? Porque Sydney Sweeney é gostosa e… bem, realmente tem bons genes. Pelo menos e mais bonita que eu, mas ninguém quer me ver de cueca vestindo uma calça jeans, né?

Se quiserem, eu mando vídeo, obrigado, de nada.

Todo conteúdo ragebait é projetado para ser manipulativo. É como você ser convidado com todas as honras para ir para uma festa, mas quer mesmo ir nos locais onde batem com a porta na sua fuça. É tipo gays querendo se casar na igreja, cujo livro religioso é taxativo em dizer que eles não irão pro céu por serem uma abominação perante Deus. Eu não entendo por que gays querem seguir uma religião que claramente os odeia.

Outro caso é a pessoa que não quer o conteúdo, mas precisa seguir o conteúdo para se sentirem bem consigo mesmos. É tipo esses vídeos de americanos “cozinhando” misturando todo tipo de nojeira para fazer uma gororoba. Todo mundo fica indignado porque não se cozinha daquele jeito, que é horrível e nojento. Eu diria “é só não fazer aquilo e muito menos comer”. Mas querem aquele conteúdo para se sentirem Master Chefs só porque cozinharam um miojão na faixa

E é nas redes sociais que isso se alastra. O segredo sujo é que um comentário raivoso vale mais que dez curtidas carinhosas. Se as pessoas veem alguém fazendo algo reprovável, como essas pegadinhas humilhantes, a ânsia da Moral Superior é apontar e dizer “olha lá”, e isso pouco importa pro algoritmo: deu mais visualização, esse é o caminho das pedras. No caso do Twitter, a interação é que paga a monetização. A saída é buscar essa interação. Antes era muito mais fácil. Agora, os perfis verificados precisam de outros perfis verificados interagindo, então, o ódio gerado tem que ser astronômico.

As plataformas, é claro, negam qualquer responsabilidade. Preferem ficarem em silêncio, afinal, por que morderiam a mão que as alimenta?

O cardápio do ragebait é vasto e democrático. Receitas culinárias absurdas? Check. Ataques ao seu artista favorito? Check. Teorias conspiratórias sobre o fim do mundo? Check duplo. Não há assunto sagrado demais ou trivial demais para não ser transformado em combustível para a máquina da indignação.

Num mundo que você apenas posta que seu pai comprou sorvete pra você já gera ódio irracional, basta pensar um pouco e chegar à conclusão: farei isso cada vez mais intensificado até ganhar com isso.

E ganham, ó, como ganham!

Mas foi na política que o ragebait encontrou seu habitat natural. Houve um pico durante as eleições, porque é uma forma eficaz de mobilizar seu grupo político para potencialmente votar e agir, e isso já é de pleno conhecimento de políticos desde que Cícero ensinou ao seu irmão como concorrer a um cargo público e ganhar.

Mantenedoras da redes sociais como a Meta (dona do Facebook) e o X (dono do Twitter. Sim, chamo de Twitter) sabem como trabalhar com o ragebait, mas mantendo sob controle, mesmo porque, as empresas querem ganhar dinheiro, não ficar sustentando esperto, que lucra graças a um bando de surtados.

Em todas há ferramentas de denúncia. No caso de informações erradas ou toscas ou claramente para ganhar engajamento (o que é proibido pelos termos de uso), cabe a denúncia. O Twitter tem as notas de comunidade, e postagens com notas de comunidade aprovadas não monetizam. O vagabundo terá 5 trilhões de views, 9 bilhões de comentários de 5 quaquilhões de perfis verificados e não ganhará um centavo. O que as pessoas preferem? Divulgar a merda ao invés de meter nota de comunidade ou mesmo denunciar a postagem.

Vivemos tempos fascinantes. Numa era onde a informação deveria nos conectar e esclarecer, descobrimos que nossa natureza mais primitiva – a tendência tribal de nos unirmos contra um inimigo comum, nem que seja inventado – pode ser facilmente explorada por algoritmos e monetizada por adolescentes espertos com smartphones.

O ragebait não é apenas um fenômeno da internet; é um espelho da condição humana na era digital. Revela nossa fome insaciável por drama, nossa dificuldade em resistir à provocação e nossa disposição em transformar qualquer emoção – mesmo o ódio – em entretenimento.

Influenceiros continuam ganhando seus milhares de dólares, um comentário odioso por vez. E os usuários? Continuam alimentando a máquina, clicando, comentando, compartilhando a indignação como se fosse ouro digital. Porque no fim das contas, descobriu-se que o ódio não apenas vende, ele vicia.

Eu gostaria que vocês me odiassem mais para me divulgarem mais. Vou dar uma ajuda: vocês são imbecis retardados.

Prontos para me xingarem em suas redes?

6 comentários em “Ragebait: o ódio como fonte de receita

  1. Eu às vezes nem abro o Twitter durante o dia por causa dessa merda. Não dá vontade de interagir, ler, postar nada. Mesmo que eu tenha menos de 1k de seguidores eu fico esperando de onde vai vir a porrada se eu, sei lá, comemorar que parei de fumar sem remédio porque não tou pensando em quem não consegue. É um saco. E os Pink Octopus do Bagunçadamente são afetados por isso tb.

    Espero que aquele patife da semana passada tenha ido fazer o que você mandou. :P

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    1. O que mais vale a pena atualmente é ficar longe das redes sociais. Ou como eu carinhosamente gosto de chamá-las. Redes antissociais.
      Já não bastasse a completa e total ausência de privacidade quando se usa uma delas (qualquer uma delas), agora tem essa questão do ragebait. Eu que não vou bater palma pra macaco dançar (opa. Olha o racismo. Será que também serei odiado?).

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