Rios muy amigos botando gás carbônico pra fora e ferrando nossa vida


à meia-noite eu vou aquecer o seu planeta!

Durante muito tempo, os cientistas acreditaram que havia uma espécie de cofre subterrâneo onde o carbono antigo dormia em paz, intocado há milênios. Um descanso digno, protegido por camadas de solo, rochas e otimismo geológico. Mas acontece que esse carbono resolveu acordar, bocejar e, de forma nada discreta, dar um pulinho nos rios — e, de lá, voltar direto para a atmosfera em forma de CO₂. Sim, senhoras e senhores, o passado voltou. E está no ar.

Um estudo mostrou que mais da metade do carbono que os rios liberam na atmosfera não é material orgânico fresquinho, recém-chegado da decomposição de folhinhas caídas, como se imaginava. Não. É carbono velho. Muito velho. Tipo aposentado há milênios, do tipo que veio de camadas profundas do solo ou de rochas que vêm sendo intemperizadas desde quando mamutes ainda estavam de pé.

O dr. Josh Dean é professor associado de Biogeoquímica na Universidade de Bristol. Sua pesquisa situa-se na intersecção entre Hidrologia e Biogeoquímica elementar, meu caro Watson. Ele trabalha para quantificar a fonte, a transformação e o fluxo de carbono através do contínuo aquático da terra ao oceano, com foco no metano. Em seu estudo, o dr. Dean percebeu que o carbono que a gente achava que estava bem trancado e sossegado resolveu entrar de novo na brincadeira do efeito estufa. E isso muda tudo. Se mais da metade do carbono emitido pelos rios vem de fontes profundas e ancestrais, significa que as plantas e os solos superficiais estão tendo que trabalhar dobrado para compensar esse vazamento inesperado do baú fóssil.

A equipe do dr. Dean (vocês sabem como é: os estagiários ralam e ele assina o paper) analisou mais de 700 trechos de rios em 26 países diferentes. Usando medições detalhadas de radiocarbono, eles conseguiram datar a idade do carbono emitido. Resultado? Cerca de 60% do carbono liberado pelos rios tem origem em estoques antigos, que estavam ali armazenados, quietinhos, há séculos ou milênios. Ou seja, não é só a compostagem do outono passado que está fazendo bolhas nos riachos; é a herança fóssil de um planeta que insiste em reciclar até o que a gente nem sabia que estava na fila.

Essas emissões vêm tanto de camadas profundas do solo quanto do intemperismo de rochas, que estão lentamente se decompondo e liberando carbono como quem assopra poeira de um livro esquecido. O problema é que esse sopro vem em forma de CO₂, e a atmosfera não está muito no clima de receber convidados extras.

Calma que tem mais: as emissões de carbono dos rios somam cerca de duas gigatoneladas por ano. Parece pouco? Comparado às 10 a 15 gigatoneladas das atividades humanas, pode até parecer modesto. Mas se metade disso for carbono antigo escapando dos bastidores geológicos, temos um problema subestimado. Esses estoques eram considerados relativamente estáveis. O problema é o “relativamente”, ou seja, não são estáveis no final das contas.

A implicação disso tudo é dupla: primeiro, temos que recalcular o ciclo global do carbono, levando em conta essa fonte silenciosa que estava fora da conta; segundo, e talvez mais importante, as plantas e os solos estão absorvendo mais carbono do que imaginávamos, o que dá ainda mais peso à preservação dos ecossistemas terrestres. Porque se o passado está escapando, o presente vai ter que correr atrás.

A próxima etapa da pesquisa será investigar como essas emissões variam entre diferentes tipos de rios e se a idade desse carbono está mudando ao longo do tempo. Em outras palavras, a arqueologia atmosférica está só começando.

A pesquisa foi publicada na Nature. Aproveita que tá aberto!

5 comentários em “Rios muy amigos botando gás carbônico pra fora e ferrando nossa vida

  1. Eu lembro de ter lido uma vez sobre uma “reserva” de gás carbônico que estava embaixo de um lago, que vazou e deu merda. É tipo a mesma coisa?

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