Segredos maçônicos

Sobre o chão encerado um reflexo espelha a realidade. O ruído de sapatos e ouvido no chão de parquet Klok Klok Klok Klok. O dono dos passos para, olha de um lado, olha pro outro, ergue uma sobrancelha. Os olhos claros, se por serem azuis ou catarata mesmo, perscrutam o vazio silencioso do salão. Os passos recomeçam Klok Klok Klok Klok. As pernas cambaleantes e a barriga protuberante se destacavam na aparência majestosa como a de um camelô na Central, com garbo e elegância de um limpador de para-brisa de sinal.

O homem chega a uma porta fechada. Se empertiga, respira fundo, pois, este é seu momento. O lugar para onde fora convidado… quer dizer, não é que ele tenha sido bem convidado, mas isso são detalhes de somenos importância. Aquela era a hora, o momento é já! O lugar em que ele mostrará quem realmente é. Ele segura a maçaneta da porta, gira e entra. Era o banheiro. Droga! Entrei no lugar errado. Não é aqui que eu deveria estar e… esse banheiro é de homem ou mulher? Não tem indicação? Mau sinal, mau sinal!

Gira nos calcanhares, a bolsa que carrega junto ao corpo quase escapa, mas não chega a cair, porque segurou a tempo. Seria uma catástrofe ecológica.

Vira à esq… não, melhor virar à direita. Nem que torne a virar de novo. Foi seguindo até chegar num grande salão.

Colocou o avental que estava numa mesa e ficou falando para o secto.

– Então, que aqui estamos e precisamos temer o Grande Inimigo. Ele que está à volta de nós, Tao Key.

A audiência olhava muda, sem nada dizer, talvez sentir. Nem uma palavra foi dada.

– Eu sei que fui considerado inculto, desumano, burro e até larápio e ladrão me chamaram.

A audiência concorda.

– Este é nosso símbolo! – e pegando em cima da mesa uma colher de pedreiro, continua – Somos trabalhadores querendo construir algo, para nossa vida e fé em Deus, em nossa moral de família e em Cristo.

Alguns se entreolharam. A guia de preto velho de um deles estava por debaixo da camisa e o outro que estava com um cordão com a Estrela de Davi presa olhava fixamente, como alguém que encontra alguma revelação divina, ou mesmo tenta compreender o que veio à sua frente, sendo inescrutável. E não, ele não é judeu. Comprou a bijuteria num camelô da Uruguaiana porque achou maneiro.

– Juntos somos mais fortes e com seu apoio, galharei, digo, galf… galga.. ah, eu subirei de novo no Planalto e lá com missa esposa governarei para todos de família honesta.

Um que tinha uma esposa e 3 amantes e precisava de 2 empregos ia saindo de fininho. Um no canto com um celular filmava. Queria guardar para a posteridade aquele evento e mostrar ao grupo de família no Whatsapp.

– Quem de vocês estão aqui comigo para juntos acabarmos com os poderes nefastos do Comunismo.

Um dos homens – já entrado em idade e com expressão triste por ter que se consultar com o proctologista mais vezes do que gostaria – Ergue a mão como quem pedia pra falar.

– Er… senhor. O senhor está no lugar certo?

– Claro que estou. Afinal fui convidado pela loj…

– Senhor, nóis num tá vendendo nada aqui, num sabe? A gente estamos fazendo uma reforma. Essa colher aí é do Ariovaldo que não veio hoje.

– Mas… a Maçonaria me convidou, tão hóquei?

– Olha, meu senhor. Num leva nóis a mal, não, sabe. Mais aqui a gente não amassa nada não porque nóis semos hômi. O senhor tá é querendo ir na sauna gay aqui do lado, né?

– Mas isso e um absurdo, tamo quê?

– A gente também achamos, mas o senhor fica aí com esses papo estronho. Sei não, seu moço.

– Mas o que é isso aqui?

– Sei lá, senhor. Um tio rico contratou nóis para fazer umas obra aqui, senhor. Até pensamos que o senhor vinha trabalhar na cozinha por ter pego o avental do Luléio.

– Err… quem?

– Luléio, senhor. Aquele ali de camisa vermelha.

Luléio acena risonho.

– ESTOU CERCADO DE COMUNISTAAAAAAAAAAAAAAAAS, MALTEI!

– Ninguém tem esse time não. Luléio torce pro América, mas eu sou Vascão. Luléio é nosso cozinheiro. Faiz umas comida boa. Fruto do mar. O que a gente tem hoje, Luléio?

– Minha especialidade. Vai querê fica, seu moço?

– EU VOU ME IMBÓRA, CALCEI?? VOU-ME JÁ!

– O banheiro é ali de onde o senhor veio. Levanta a tábua para não molhar tudo.

O homem sai batendo os pés aos olhos atentos dos que na sala estavam. Ao sair e ir embora, o homem antes apresentado como Luléio chega pro primeiro homem e interpela.

– Venerável Grão-mestre. Quase que ele descobre. Pelas graças do Grande Arquiteto do Universo ele não descobriu. Como o senhor consegue?

O homem entrado em idade sorri, – Meu caro Secretário, há anos eu sei como lidar com esse pessoal.

O da guia de preto velho chega e pergunta – Venerável Grão-Mestre, o que fazemos agora? Causamos o Caos? Implantamos a Nova Ordem Mundial? Fomentamos a Guerra na Ucrânia para que a Europa se desestabilize e possamos trocar os governos?

– Estou pensando em pedir uns kibes apimentados. Tenho fome.

A dor no fundo do seu ser gritou de seu âmago e o Grão-Mestre suspira, mudando de ideia.

– Secretário, ligue pro Mestre do Nono Arco Geraldo e peça para ele vir me examinar.

3 comentários em “Segredos maçônicos

  1. Hahahaha me lembrei de quando era criança que, depois de uma aula de história, eu fiquei desconfiado que a maçonaria seria um tipo de grupo homossexual secreto, por conta que o professor falou que eles tinham encontros a noite e de madrugada onde era proibido mulheres, tinham um ritual de iniciação e coisa e tal. Depois que eu descobri que meu bisavô era maçom eu fiquei um tempo achando que ele poderia ser gay hahahaha, até hj eu não consigo lembrar disso sem rir

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