Os caixões de ferro de Almond Fisk

O século XIX foi um boom tecnológico, mas não apenas uma explosão de novas tecnologias. Isso sempre existiu. O grande impacto foi sentido direto na vida das pessoas, a começar pelo transporte de longas distâncias. As pessoas iam morar mais e mais distante, muitas vezes seguindo o conselho de Horace Greeley, a quem é atribuída a frase “Vá para o Oeste, jovem”. Entretanto, o problema de ir para longe é a volta, e muitos não voltavam. Ou voltavam, mas mortos. Isso causou sérios problemas a muitas pessoas.

As viagens longas afastavam as pessoas, ainda mais que muitos iam tentar a vida em outro lugar, com alguma promessa de voltar endinheirado, o tipo de pensamento que existe até hoje, mas hoje temos tecnologias de comunicação que nos aproxima. No século XIX, no máximo, eram cartas e telégrafos.

A sensação de viver em sociedade é aproximada com ritos litúrgicos, com a religião servindo como amálgama de grupos sociais. Ela começa quando o indivíduo nasce, vive por certo tempo, e quando morre. Talvez hoje não seja tanto assim, mas no século XIX o sentimento religioso era extremamente forte, e a religião cimentava as interações sociais e familiares; o tipo de coisa ficou muito prejudicado quando longas viagens estavam se tornando mais e mais corriqueiras.

Percebam, muitas pessoas saíam de casa, iam para seus longínquos destinos e não raro morriam bem longe de casa, acabando por serem enterradas por estranhos. Isso doía no coração das famílias que não podiam ter seu ente querido já falecido de volta. Não podiam honrar a memória do morto ali, com ele junto, nem garantir que ele tivesse todas as homenagens que merecia. A pessoa simplesmente sumia da existência dos seus familiares e amigos, e era o fim, o que acabava sendo muito doloroso para muitos.

Isso abalou severamente as pessoas nessa época, e, que uma morte acontecida em um lugar bem distante negava às famílias e entes queridos a participação nos rituais fúnebres e o privilégio de prestar seus respeitos. A ausência de um funeral interrompia um padrão comportamental comum na sociedade e isso começou a criar problemas. Os laços das comunidades locais eram cortados como por um machado.

Claro, você vai perguntar por que não embalsamavam o corpo ou metiam numa geladeira. As pessoas até fariam isso, se geladeiras existissem e métodos de embalsamamento estivessem há muito perdidos, desde os egípcios. Tecnicamente, os corpos começavam a se decompor logo, e se estivessem longe, não estariam muito cheirosos quando chegassem em casa.

Quem sofreu isso na própria família foi um certo vendedor de fogões chamado Almond Dunbar Fisk. Seu irmão William faleceu na primavera de 1844, em Oxford, Mississippi, sendo que a família tinha um jazigo no norte do estado de Nova York. Não havia maneira prática de trazer o corpo para um enterro adequado. O pai de Almond Fisk era um ministro religioso e ficou extremamente triste por não poder dar a última morada ao seu filho no jazigo de sua família. Isso deixou Almond consternado. Era uma época que corpos eram muito valiosos e rendiam um bom dinheiro ao vendê-los para médicos, cientistas e faculdades de Medicina. Na grande maioria das vezes, as sepulturas eram violadas e os corpos eram roubados para serem, então, vendidos e o dinheiro virar muito whisky e irem parar nas mãos de senhoras que trocam favores por dinheiro.

Almond, então, usou sua expertise em fogões e caldeiras herméticos, usando seus conhecimentos em ferro fundido para criar um caixão hermético capaz de preservar naturalmente um corpo que pudesse ser segura e higienicamente transportados por longas distâncias ou armazenados por longos períodos, mesmo nos climas mais quentes. E funcionou!

O segredo era o design hermético e sob medida, fazendo com que os caixões fossem o mais ajustados possível ao corpo, minimizando a quantidade de ar no interior, privando os micróbios do maravilhoso oxigênio para sobreviver e decompor o corpo. Almond Fisk registrou a patente código US Nº 5920, em 14 de novembro de 1848. Em 1849, o caixão de ferro fundido foi revelado publicamente na Feira da Sociedade Agrícola do Estado de Nova York em Siracusa, Nova York e a Exposição do Instituto Americano na cidade de Nova York.

Foi uma sensação! Isso despertou interesse de todos os ricaços que queriam um. E sim, eram caros. Um caixão normal custava uns 2 dólares (na época, lógico), enquanto os de Almond Fisk custavam 100 dólares. A elite política do país se atirou em cima dos caixões de Fisk como gatos aos bofes, e isso por causa de um motivo simples: começara a Corrida do Ouro na Califórnia. Muitos novos ricos estavam surgindo, enquanto morriam rapidamente por causa de inúmeras doenças. O transporte do morto era, então, necessário, e o ouro californiano ajudava a pagar pelo caixãozão de ferro.

Os caixões de ferro de Fisk fundido chamaram a atenção do público em 1849, quando a ex-primeira-dama Dolley Madison foi colocada em um em uma grande cerimônia fúnebre pública. Logo, muitos outros políticos e presidentes seguiram o exemplo, tornando os caixões um item de status e prestígio aos olhos da crescente classe média.

A demanda saltara e Fisk não estava dando conta das encomendas. Com isso, Almond estabeleceu a Fisk and Raymond Company junto com seu cunhado, William Mead Raymond (sim, é daí o “Raymond” do nome da empresa) e iniciou a produção em Providence, Rhode Island, mas a demanda exigia muito ferro fundido; então, no primeiro ano após receber a patente, Fisk montou uma pequena fundição em Winfield Junction em Long Island, Nova York, licenciando adicionalmente o direito de fabricar o caixão para duas empresas maiores: WC Davis & Co., de Cincinnati, e AC Barstow & Co. de Providence.

Entretanto, Almond Fisk não viveu muito para curtir a sua fortuna. Ele faleceu aos 32 anos, em 1850, em sua casa no Queens, Nova York. Seu corpo foi enviado de volta ao norte do estado para ser enterrado no jazigo da família, e seu cunhado e sócio William Raymond assumiu os negócios da família e supervisionou a criação de vários novos modelos de caixões até sua aposentadoria na década de 1870.

A moda veio, a moda passou. Aos fins do século XIX e início século XX, os caixões de ferro fundido de Almond Fisk saíram de moda, mas abriram um nicho: os de urnas feitas de metal, com tecnologia de vedação, e ainda que hoje tenhamos técnicas para embalsamar corpos, estas urnas ainda são usadas. Afinal, é algo bom demais para deixar de ser usado assim. No máximo, só evolui.

2 comentários em “Os caixões de ferro de Almond Fisk

  1. Rapaz, uma coisa “deveras” simples e mudou muito a realidade da época, hein? muito legal o artigo André!

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