Analisando séries e filmes de super-heróis XXI

Matrix Resurrections: Um filme feito com a força do ódio

O que é pior que fazer um trabalho merda? É você ser obrigado a fazer um trabalho merda. Sabe quando você se empenha e dá tudo de si e pensa, “agora, sim, está terminado, posso descansar”? Então, vem o seu chefe e diz “olha só, e se fizermos mais, e mais e MAIS?” Então, você se dá conta, claro, que vai fazer porque tem boletos; mas se antes você deu tudo de si, agora vai dar tudo do seu ódio, em que você fará o trabalho obrigado, mas com os dentes cerrados, com sangue nos olhos e um fio de baba escorrendo pelo canto da boca.

Esta é a melhor definição de Matrix Resurrections.

Vamos começar com o Primeiro Matrix.

De início, eu irei falar algo polêmico (Uhhhh, ele é polêmico. Ohhhh). Matrix é um filme ruim. Pronto, falei! Você não vai aceitar e eu estou pouco me fodendo. Sim, pois é. E um filme muito merda. Se o filme do Tom Miranha teve roteiro escrito atrás de um selo. O roteiro de Matrix (o primeiro) foi feito escrevendo uma palavra numa pedra de dominó, depois todas elas foram embaralhadas, e em seguida jogaram dominó. No final, a ordem do dominó mostra a ordem das palavras. Transcreveram para uma folha de papel e o roteiro foi montado.

Disclaimer: eu sei. Dominó é jogo de velho. Eu sou velho e se você não entendeu é um jovem maldito. Jovem só serve para acabar.

Vamos ser sinceros. Aquela que o corpo humano gera cacetões de watts em bioeletricidade para alimentar as máquinas não faz o menor sentido. Mais fácil os cérebros estarem em cluster e serem usados como um imenso hipercomputador. As máquinas poderiam ter satélites para captar luz do sol ou se livrar daqueles nanites que escureceram o planeta. E se for usar para produzir energia, bem, era mais fácil fazer corpos sem cérebros já que estes consomem 20% de toda energia do corpo. No segundo filme descobrimos que O Arquiteto fala que sempre aparece uma anomalia (O Escolhido) e isso leva a uma guerra e sempre destroem a cidade dos humanos. As máquinas poderiam usar uma bomba de nêutrons e eliminar de vez os humanos. Bem, nada faz sentido. Não vou nem perder meu tempo com Matrix 3.

Mas o que fez Matrix ser um ícone entre os filmes de ficção? Por que se fala dele até hoje?

O primeiro diferencial de Matrix foi todo o marketing envolvido. Em nenhum canto você sabia sobre o que era o filme. Eu já falei como era esta época. Não tinha spoilers, não tinha entrevista com atores, não tinha vídeo “vazado”, trailers, teasers etc. Era só um cartaz “Você sabe o que é Matrix?”. Os trailers que você encontra no YouTube são os trailers das edições comemorativas.

O segundo diferencial foi o espetáculo visual com efeitos inovadores. Coisas como o bullet time e a câmera de 360º fizeram de Matrix algo único. Ainda coroaram chamando gente especializada em Wire-fu, aquelas lutas coreografadas que o cinema chinês adora, com gente “voando” enquanto luta, como em O Tigre e o Dragão (filme excelente, por sinal). Depois disso, ele só foi copiado. Matrix é bom por causa disso. É um excelente filme merda, já que o VFX complementa lindamente. Diferente de filme brasileiro, que só é merda mesmo, não tendo nem iluminação eu presta, em que preferem colocar o sujeito do lado da janela para aproveitar a iluminação natural, som gravado de algum celular da década de 50 e vídeo feito em película vagabunda que faria o Georges Méliès ficar puto da vida.

O resumo de Matrix seria, como nas palavras do José Wilker, um filme em que o cara aprende a lutar mais rápido. Sim, mas com trocentos efeitos especiais. Matrix foi um marco no cinema, algo realmente inovador. Agora, “inovação” e “visionário” virou pule de dez em qualquer trailer de filme, mesmo sendo mais do mesmo. Matrix Resurrections não é diferente. Não é inovador, não é visionário e seu único ponto positivo é ter sido escrito na base do ódio.

A bem da verdade, Matrix Resurrections não iria ser feito. Lana mesmo tinha dito que não havia nenhuma previsão de fazer uma nova sequência. Mas aí veio a Warner Bros. e colocou o Pernalonga na mesa. O próprio produtor James McTeigue admitiu que a Warner considerou a atribuição de um diretor diferente para o novo filme. Lana Wachowski correu atrás do prejuízo e pediu penico pra Warner, que disse que estava ansiosa para fazer o filme com o/a diretor(a) original. Acreditou quem quis acreditar. https://screenrant.com/matrix-4-sequel-plans-without-director-lana-wachowski/

Mas quando prestamos atenção nas falas, vemos o quanto Lana estava puta com a situação. Ela realmente escreveu o roteiro com raiva, já que por ela não ia ter sequência nenhuma, mas Warner não estava nem aí. Este foi um filme escrito com a força do ódio e eu tenho pena do teclado no qual ele foi escrito, porque claramente Lana digitou dando soco nas teclas. Aí saiu diálogos como na reunião do Neo com seu chefe:

– As coisas mudaram. O mercado está difícil. Tenho certeza que entende. Porque nossa amada empresa-mãe, Warner Bros., decidiu fazer uma sequência para a trilogia.
– O quê?
– Fiquei sabendo que farão isso com ou sem nós.
– Achei que não poderiam fazer isso.
– Eles podem. E deixaram claro que matarão nosso contrato se não ajudarmos.
– Sério?
– Sei que você disse que a história acabou para você, mas esse é o problema das histórias. Elas nunca acabam de verdade, não é? Continuamos contando as mesmas histórias de sempre, apenas com nomes e rostos diferentes.

Lana meteu textualmente o nome da Warner Brothers mostrando o quanto esta puta da vida com a situação, mas seria isso ou contratarem outros, como o McTeigue disse. Então, ela cedeu para manter a sua criação a mais próxima do que criara, mas não seria de graça; e não estou falando só em termos monetários.

Na conversa com seu analista (que é um programa, e chamaremos de O Analista, já que é assim que ele é referenciado no filme mais tarde), Neo o escuta dizer:

Ontem, [você, Neo] entrou em uma reunião com seu parceiro de negócios e ele emboscou você, exigindo que fizesse um jogo que você disse que nunca faria. Este ataque tirou a sua voz. A violência dele te disparou e sua mente revidou. Você fez com ele o que ele fazia com você. Já falamos sobre o valor da raiva adaptativa na cura de traumas.

Lana se coloca no lugar do Neo mais uma vez. Nesta cena, Neo parece ver que seu chefe (O Analista diz que é seu parceiro, mas convenhamos, é o chefe) estava com a boca se deformando, como acontecera com ele no primeiro filme, em que a boca fica colada e ele fica incapaz de falar. Lana queria que acontecesse isso de novo, não com ela, mas com a Warner. Ela queria que a Warner parasse com isso e calasse a boca, e sua vingança foi mostrar a boca sendo colada. Lana se sentiu vítima de violência, mas não podia fazer nada. Pelo menos, não no mundo real, mas no Matrix dela, o roteiro do filme, ela poderia fazer qualquer coisa e se vingar de qualquer um, mesmo que acabasse dando dinheiro pra Warner e para si mesma. É bem quando recebemos alguma ordem idiota, a gente faz puto da vida mas na base do “calado eu não fico”.

Corta pra reunião de criação e os designers do jogo/filme discutem as filosofias do que é Matrix, como sempre fizeram com o filme, a ponto de inventarem significados que não existiam, mas se ajudava a vender jogos/filmes, que mal faria?

Durante as conversas para a produção do filme, Lana escolheu quais os atores iriam participar. Falou com o Keanu Reeves, mas ele disse que só se ela fosse a diretora. Carrie-Ann Moss deve ter dito algo como “só se for agora” (assim como eu, ela tem boletos pra pagar), mas tem a parte incômoda dos atores que fizeram o Agente Smith e Morpheus terem sido trocados.

Hugo Weaving, o antigo agente Smith, pensou que ia voltar ao papel. Ele e a Lana leram juntos o roteiro, negociaram valores e… Lana deu o cano dizendo que não ia rolar, por causa da agenda dele com o teatro. Se isso lhe convenceu, não convenceu a mim. Não convenceu nem ao Hugo.

Já Morpheus não voltou por causa de um jogo. O MMO Matrix Online era um jogo surgido em 2003. Nela, o Morpheuzão resolve dar uma banana pra trégua estabelecida entre as máquinas e os seres humanos; trégua essa que é onde termina o Matrix Revolutions. Ainda no jogo, Morpheus tenta recriar Neo e é morto por um Assassin, um matador que as máquinas criaram. Como e por que realmente Morpheus morreu, não fez o menor sentido, pois não deu para solucionar isso, já que o jogo foi encerrado em 2009. Ficou na base do “por que sim”. Isso é desculpa? Claro que não. De qualquer forma, Lana apelou para a ressurreição de todo mundo. Neo volta, mas no seu antigo corpo. Trinity volta no seu antigo corpo. Morpheu volta sob a forma de…

Não, péra. Isto é um cafetão da década de 70. My bad.

Sim, este é o novo Morpheus. Ele é um programa, não uma pessoa, mas mesmo assim o espírito do Morpheus reencarna nele. Sim, eu sei que não faz sentido. Mas muita coisa não fazia sentido já no primeiro filme.

Já o novo Smith é este yupie. Por quê? “Fuck you, that’s why”, praticamente ouvimos a Lana nos dar um esporro e falar isso, porque, de qualquer forma, o novo Smith é o vilão na pele do chefe do Neo/Lana. Smith 2.0 e o Neo se estranham na busca pela Trinity. Smith 2.0 diz como o Arquiteto o libertou, mas ele não queria ficar preso na Matrix. Além disso, ainda traz o velho conhecido: o Merovíngio, sendo o Merovíngio de antes. Ele começa a falar como um louco, mas há coisas neste diálogo. Já vou retornar a ele.

Começa o tiroteio e Neo sai na porrada com Smith 2.0, que quase vence a porradaria, mas sem querer ativa os poderes fodásticos do Neo tocando no ponto crucial: O momô de Neo, Trinity. Neo dá um porradão no Smith 2.o e vai encontrar seus amigos. Daí, volta o Merovíngio com sua fala de louco. Aliás, uma pausa para falar rapidamente do Merovíngio. Ele está em frangalhos. É um exilado. Juntando as falas dele, temos:

Tínhamos graça. Tínhamos estilo. Tínhamos conversas. Nada disso de… PEW PEW PEW. Arte, filmes, os livros eram melhores! Originalmente importantes! Você nos deu açúcar para chupar e me fez chefe de um lugar só de mijo e merda. (…) Isso ainda não acabou! Nossa continuação dessa franquia…

Talvez eu esteja exagerando e vendo coisas onde não tem, mas a fala dos loucos sempre foram um recurso literário para o autor conversar com o público/plateia. Sim, Merv. O mundo está muito diferente de 1999. As pessoas estão ligadonas nos seus celulares e redes sociais, fissuradas na telinha ou em jogos. Os filmes eram melhores? Mais ou menos, mas convenhamos que hoje qualquer coisa leva toneladas de VFX quando os efeitos práticos serviriam. Quando Vingadores Ultimato estava sendo filmado, o uniforme branco não ficou pronto a tempo e Disvel teve que apelar para CGI. O cabelo da Capitã Marvel é CGI. A capa do Super-Homem é CGI. Por fim, Merv diz que teremos outros filmes da franquia, e que ele estará nela. Será? Vai saber!

Bem, Neo não pode deixar de ir atrás de Trinity, e quando chega nela, fica no chove-não-molha até que descobre que seu analista não é bem o seu analista. Ele é O Analista. Assim como teve O Arquiteto, O Oráculo e O Merovíngio. Nesse papo com O Analista, Lana dá uma trégua e volta à essência do Matrix Original e fica de mambo jambo filosófico (aprendi isso vendo o vídeo feito pro Unreal Engine 5, em que também fazem piadas com a Warner e o Marketing) até chega no ponto: Neo e Trinity.

Quando Neo fez o trato com O Arquiteto para libertar os humanos que queriam, houve uma queda na produção de energia. Isso acarretou numa guerra civil e agora vira a parte sem mais nenhum sentido. O Analista estava presente quando Neo morreu. Efetivamente, uma das facções das máquinas ganhou a guerra (como? Fuck you, não vou dizer), então, O Analista teve a ideia de reconstruir o corpo do Neo e teve sérios problemas e, segundo ele, demorou muito tempo e custou uma fortuna (isso parece a fala do Batman com o Super-Homem em Dark Knight Returns do Frank Miller), mas eu fico pensando… dinheiro? Como assim? Ou será que ele está falando do custo de fazer o filme? Ainda segundo O Analista, quando Neo está perto da Trinity dá ruim e geram muita energia. O Analista percebeu que a Matemática d’O Arquiteto era imprecisa, que o que era bão mesmo eram sentimentos e isso que fazia gerar muita energia.

Tem mais lutas, Neo fica mais forte e se na primeira trilogia ele parava balas com um gesto de mão agora ele gera alguma espécie de campo de energia fodástico usando as duas mãos. E praticamente a Sue Storm sem ser gostosa ou ficar invisível. Ele desvia até de míssil disparado por helicóptero, que curiosamente, apesar de estar cercado por vários helicópteros, eles disparam um de cada vez.

No final, só o amor constrói e gera muita energia que sai detonando geral. Solo de violinos. Eles visitam O Analista e Neo o quebra de porrada. Curioso porque O analista é um programa não uma máquina física, mas ele fala como se fosse… sei lá, um robô. Fim, the end, vai ter continuação, apesar de dizerem que não.

Ah, sim. Na cena pós-crédito, tem uma conversa dos desenvolvedores do jogo Matrix. Eles falam que cinema já era, filme já era, jogos já era. O futuro mesmo é… VÍDEOS DE GATINHOS (uma piada com este vídeo). Sim, este foi o insulto final: Lana prefere fazer vídeo de gatinhos.


PS. Atendendo pedidos do Bruno, com vocês Gangrena Gasosa cantando Eu Não Entendi Matrix

3 comentários em “Analisando séries e filmes de super-heróis XXI

  1. Eu assisti Matrix uma primeira vez e fiquei por anos com uma sensação de estranhamento. Muito colegas afirmam até hoje o quão espetacular e profundo era o filme para época, então eu resolvi dá uma chance e recentemente assisti novamente o filme (a trilogia), por fim tive essa mesma conclusão do seu texto, é um filme de roteiro ruim com efeitos especiais inovadores para época. Impressionante como a memória sempre floreia ou demoniza o passado.

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