Ingênuos acham uma boa ideia dar uma compensação a quem doar rins. O que poderia dar errado?

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Transplantes de órgãos são processos complicados em todas as partes do mundo. Por “processo” não estou falando da intervenção cirúrgica em si, que é complicada, mas de todo o processo de encontrar um doador, leva-lo até o hospital, fazer os exames necessários e carrega-lo em meio a louvores até o centro cirúrgico. Se não fazem louvores e recitam cânticos de agradecimentos a alguém que decide dar um dos seus órgãos a uma outra pessoa, não é comigo, ainda acho que eles merecem.

Conseguir doadores é, talvez, a parte mais difícil. Não basta querer doar, tem que ser compatível. Além disso, normalmente os mais pobres têm acesso, mesmo sem levar em conta que assim como nos EUA, no Brasil a venda de órgãos é proibida por lei (sim, eu sei). Aí, duas almas cândidas e idiotas acham que poderia haver algum tipo de “pagamento” aos doadores, desde que não seja por meio de dinheiro. O que poderia dar errado?

Tem horas que eu penso se a pessoa está realmente num mundo fora da realidade ou é zoeira e resolve pregar peças em todos. Dois perfeitos exemplos são os doutores Philip Held, professor-adjunto de Nefrologia da Faculdade de Medicina de Stanford e Frank McCormick ex-vice-presidente e diretor de pesquisa econômica dos EUA do Bank of America. Esses dois fofuxos descobriram a pólvora quando foram ver as estatísticas e descobriram que pobres não têm acesso a transplantes com os mais endinheirados. Não que se possa comprar órgãos nos EUA, mas sabemos bem que se você tiver grana, as portas se abrem muito mais fácil, e se você é CEO de uma empresa que trabalha com maçãs, você compra casas em todos os estados norte-americanos para entrar em todas as listas de transplantes de fígado. Obviamente, o governo diz que não se pode comprar órgãos, mas isso é detalhe.

Segundo os dois pesquisadores, o valor de mercado de um rim doado, com base nos valores que o Medicare paga às organizações de órgãos, fica em torno de US$ 75.000. Claro, há outros custos, como exames, pré-operatório, cirurgia (que só pra colocar o rim dentro da pessoa demora umas 3 horas, fora o tempo de prepara-la e retirar o rim do outro doador). O valor total do transplante renal para um único receptor foi estimado em US$ 1,3 milhão.

Fiquei curioso e foi ver a quantas andam o custo dos transplantes aqui. Em 1997, o custo total de um transplante de fígado no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (envolvendo retirada + implante) variou de cerca de US$ 6,4 mil dólares a cerca de US$ 75,4 mil, com média orçando em torno de US$ 21,5 mil dólares.

Em 2016, uma pesquisa apontou os custos do transplante renal de doador vivo. Levou-se em conta como custos do primeiro ano aqueles referentes a procedimentos pré-cirúrgicos, procedimentos cirúrgicos, medicamentos imunossupressores, acompanhamentos clínicos, exames e readmissões. Os custos referentes à captação do órgão não foram considerados por se tratar de uma cirurgia de doador vivo.

A pesquisa em si comparou os custos de um transplante de rins com os da hemodiálise. Não foram levados em conta o conforto dos pacientes. Se for analisar isso, teremos problemas de deslocamento, o que remete à notícia que um menino precisou sair de São José dos Campos e ser levado para São Paulo, capital, com as vias interditadas. O pai foi até o BPM mais próximo e pediu ajuda do helicóptero Águia. O pedido foi atendido, a missão foi dada e o menino foi levado. Missão dada, missão cumprida!

Voltando aos custos, um transplante começa custando aproximadamente R$ 36,8 mil, sendo o custo mais alto no início, mas vai caindo com o passar do tempo. A conclusão da pesquisa foi que, mediante dados coletados entre 2012 e 2016, a opção pelo transplante renal geraria uma economia de recursos públicos variando de R$ 5,9 bilhões a R$ 13,2 bilhões nos quatro anos analisados. Tudo isso saindo do seu dinheiro de impostos. Fico contente com isso. Poderia gastar-se mais, se o SUS recebesse mais dinheiro, de preferência se acabassem com isenções toscas de igrejas biliardárias, mas deixemos isso de lado.

O que o SUS tem a ver com a pesquisa dos caras dos Isteites?

A rigor, nada. Mas como envolve menção a custos nos sistemas de transplantes dos EUA, eu quis saber quanto se gasta aqui e – olha que maneiro! – pelo SUS custa bem menos. O problema é se você estiver no Rio de Janeiro, que pagou cerca de R$ 275,8 mil reais pelos transplantes de rins. Não, não pergunte. Eu mesmo não entendo.

Voltando ao tema central do artigo, os dois imbecis acham que se os pobres tivessem algum tipo de compensação, desde que não seja em dinheiro, haveria maior oferta de órgãos no mercado e, por conseguinte, pobres teriam maior acesso a órgãos para transplante, tendo melhor qualidade de vida. Como seria

Na mentalidade asinina desses pesquisadores, o número de transplantes por ano aumentaria de 17.500 para 31.000, mas não estão pensando nas implicações disso. A verdade é que se isso for aplicado e o governo der pra trás na questão das isenções ou “compensações”, vai dar muito ruim. Esse é o preço a ser pago por quem acha que basta ver números e nada mais, sem entender pessoas.

A pesquisa foi publicada na Plos One

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Sobre André Carvalho

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