Enzima boladona detona plásticos, trucida, aniquila, devora e se empanturra. Ok, não é nada disso

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Você sabe que, hoje, a enorme quantidade de plásticos joganos no ambiente é algo absurdo, principalmente as garrafas PET. Há muito tempo busca-se meios para conter esta poluição toda.

Você também deve ter lido, ouvido ou visto sobre uma enzima com poderes mágicos de comer plástico. Bem, esqueça. Não é nada disso. a começar que enzimas não comem nada, pois, sequer são seres vivos. O máximo que a respectiva enzima faz é catalisar (e enzimas são muito boas nisso) a degradação do plástico em substâncias mais simples. Só que pessoal confundiu com o termo “digestão química”, que é quando uma substância atua sobre a outra, degradando esta segunda substância. Aí, os jornaleiros que traduziram com o Google translator, meteram essa de enzimas comedoras de plástico. Mas como é isso?

Primeiro de tudo, vamos entender o plástico em questão: é só o PET. PET é abreviação (em inglês, lógico) de politereftalato de etileno. Já se sabia que a bactéria Ideonella sakaiensis tinha capacidade de degradar por meio de hidrólise, acabando com sua estrutura primária intermediária.

Calma, vou explicar.

Estrutura primária é a estrutura básica de um polímero. Um polímero são diversas partes iguais que se conecta entre si como elos numa corrente. Dessa forma, você tem várias unidades de tereftalato de etileno que se junta a outras moléculas de tereftalato de etileno, e assim vai até que você tenha uma corrente imensa de tereftalatos de etileno. Cada molécula de tereftalato de etileno é um monômero (uma só parte) e juntos formam um polímero (muitas partes). No caso do PVC, o monômero é o cloreto de vinila, que se combinando forma o policloreto de vinila.

Uma substância adequada pode atuar sobre um polímero, acabando com as ligações entre os monômeros, destruindo a corrente, apesar dos elos estarem intactos. No caso da “bactéria que come plástico” (não repitam este termo isso a sério, salvo por citação!), a Ideonella sakaiensis secreta enzimas (plural) que atacam as forças que juntam os monômeros que irão formar o PET. Como toda enzima recebe o sufixo “ase” (como desidrogenase), este grupo de substâncias que degradam o PET ficou conhecido como PETase, mas não se trata de uma única substância e ela NÃO COME PLÁSTICO!

O dr. John McGeehan é professor de Biologia Estrutural e co-diretor do Instituto de Ciências Biomédicas e Biomoleculares da Universidade de Portsmouth. Ele recebeu a colaboração do dr. Gregg Beckham, do Laboratório Nacional de Energia Renovável, e ambos pesquisam como otimizar a degradação de garrafas PET, já que elas são diariamente jogadas fora às toneladas.

Mas calma que melhora.

Ao pesquisar melhor as enzimas que compõem a PETasae, os dois pesquisadores descobriram que a bactéria tinha uma mutação e passou a codificar outro tipo de proteína que produzia outras enzimas derivadas da PETase. Estas enzimas mutantes (na verdade, enzima não sofre mutação. Quem sofre é o gene que produz OUTRAS substâncias) acabaram por teres poderes X-Enzimas de degradar não só o PET como o polifuranocarboxilato de etileno (PEF), um polímero da classe dos poliésteres (sim, tem mais de um), que muitos idealizam ser o substituto do PET para a confecção de garrafas e vasilhames.

AQUI, uma monografia sobre isso. Em PDF.

Para desenvolver enzimas e entender como as atuais atuam nos compostos, McGeehan usou a técnica de difração de raios X para que ele pudesse ver como é o arranjo espacial das moléculas de PETase, de forma com que ele possa criar uma estrutura semelhante, mas um tanto mais eficiente. Para que? Para poder ser sintetizado em laboratório e produzido em escala industrial. Eles pensam até em usar a técnica de CRISPR para fazer isso. CRISPR é aquela coisa tão fabulosa quanto o grafeno, e assim como o grafeno faz de tudo, menos sair do laboratório.

Assim, o que os dois pesquisadores tencionam é tentar mostrar que o PEF é muito melhor e mais vantajoso (e menos poluente) que o PET, e produzir as enzimas que irão degradar estes dois, mas com preferência pelo PEF.

Não tem nenhuma enzima comedora de nada. Tem algo pronto? Não, estão nas pesquisas ainda. Pode sair no mercado logo? Duvido muito. Algum dia irão substituir o PET pelo PEF? Não sei, mas eu gostava mesmo quando era vidro, embora seja mais custoso de fazer e causar mais acidentes por motivos óbvios.

Enquanto aguardamos, que tal você ler a pesquisa que foi publicada no periódico PNAS. Tá abertinho esperando para você entrar lá.

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Sobre André Carvalho

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