Prêmio Educador do Ano premia tudo, menos professores

Todo ano a revista Nova Escola (uma espécie de Superinteressante Pedagógico, com todos os aspectos negativos que isso possa significar) premia o que ela considera como os 10 melhores educadores do país. Afinal, todo mundo adora professor, certo? SQN! Dando uma olhada na grande vencedora de 2017 eu fiquei impressionado em saber que a distinta professora dá aula de língua morta para o equivalente a um time de futebol.

Elisângela Dell-Armelina Suruí é pedagoga, mas ninguém é perfeito. Ela se formou numa faculdade à distância e dá aulas na Escola Indígena Estadual de Ensino Fundamental e Médio Sertanista Francisco Meireles em Cacoal, Rondônia, a 3 km de Nárnia, virando à esquerda no Condado, pouco depois de onde Judas perdeu as meias (as botas foram perdidas no Amapá). Elisângela trabalha na difícil e importantíssima tarefa de ensinar a língua indígena Paiter Suruí, uma língua que nem é mais morta. Virou zumbi e saiu em busca de cérebros. Tem mais gente falando Grego Koiné do que Paiter Suruí. Mas calma, que isso AINDA não é o mais ridículo. O mais ridículo é que ela está alfabetizando as crianças a ler e escrever em Paiter Suruí, idioma de um povo que não inventou a escrita. Daí ela faz uma miscelânea com alfabeto latino e chuta pra frente.

Sim, exatamente isso. Ela pegou uma língua que quase ninguém fala mais, não sabe se o que está ensinando está certo, translitera foneticamente, transforma com alfabeto latino e ensina a crianças, para… nada. Çaporra não serve para merda nenhuma. Mas ela está lá, ensinando para suas 15 crianças, do Ensino Fundamental 1. Sim, QUINZE crianças ou um time de futebol e 4 reservas.

Se você tenta lecionar para 70 alunos num colégio estadual, tendo umas 16 turmas e faz de tudo para ensinar, e mais ainda para não entrar na porrada, você não ganha prêmio nem notoriedade. Estar nos cafundós de Rondônia ensinando algo que não fará nenhuma diferença na ida de ninguém, inventando uma escrita de um povo que ainda vive na Idade da Pedra, sim. Minha filha, assim qualquer um é professor. Você não é professora. Eu sou!

Os outros premiados não são muito diferentes.

Uma diretora ganhou por fazer reunião pedagógica (mais uma além das normais). Outra ganhou prêmio deixando as crianças jogarem bolinhas de gude (sim, só jogar bolinha de gude. O que eu estou fazendo da minha vida?). Uma “professora” de creche removeu os berços e deixou as criancinhas dormirem em colchonetes na hora que quiserem. Um outro usou a Bíblia para discutir se o que tem lá é historicamente certo junto a adolescentes presos em regime fechado. Um professor deu textos de Clarice Lispector pros alunos lerem. Isso não só não deveria ganhar prêmio como esse professor deveria ser mandado para Haia para ser julgado por crimes contra a Humanidade. Outra professora trabalhou uma pesquisa etnográfica de indígenas. Não, sério. Quer ganhar prêmio, fale sobre índio!

Tá, mas e quais são os prêmios?

Os 50 finalistas receberam uma assinatura de um ano do site Nova Escola Clube (nem para papel higiênico serve). Além disso, os dez vencedores, que tiveram seus nomes divulgados em agosto, receberam a mesma assinatura e um vale-presente de R$ 15 mil (não é em espécie. Provavelmente para comprar coisas da Abril). A escola deles também recebeu um vale-presente no valor de R$ 1 mil (meh!).

Já o prêmio Educador do Ano, que ganhou inclui ainda outro vale-presente no valor de R$ 15 mil. A escola onde o projeto foi implementado leva como prêmio R$ 5 mil em vale-presente (sim, no interiorzão da PQP de Rondônia. Será muito útil!). E a cereja do bolo é o espetáculo de troféu!

Resumindo. O troféu é um lixo, os prêmios são ridículos e os premiados apenas estão lá para lacrar. Não é algo sério para premiar boas atuações. É tudo uma questão de “fale de índio, leve seu prêmio”. Nenhum aluno aprendeu nada, nenhum aluno se destacou em nada, os índices educacionais continuarão a merda de sempre e mais uma vez passaremos vergonha junto ao PISA.

Mas o negócio é só vender mais daquele lixo de revista Nova Escola. Não premiar nenhum professor. Professor que se preza não lê aquele lixo, mas é ótimo para sair na mídia e cimentar de vez o tipo de educação que querem. Não a de resultados que formem mentes que resolverão os principais problemas da Humanidade ou que levem o Homem a Marte, e sim gente retardada brincando de bolinha de gude e falando um idioma mais morto que grego koiné, latim clássico e egípcio antigo.


Fonte: G1

5 comentários em “Prêmio Educador do Ano premia tudo, menos professores

  1. As papeladas do MEC deixam claro que querem é formar o serumaninho para o convívio social e que o conteúdos são um meio pra isso, aprender mesmo eles é secundário, só esqueceram que se o sujeito não bota nada dentro da cabeça não tem base nenhuma para fazer uma análise de situação e capacidade de fazer uma escolha inteligente, como por exemplo não brincar com pozinho brilhante de maquina de raios X.

  2. Sou professor em escolas públicas há vinte anos. O que li neste artigo é tudo que eu queria desabafar e não posso.

  3. Daqui a pouco vão querer fazer igual àqueles palhaços na Europa em querer colocar em par de igualdade Ciência com feitiçaria africana, porque né?!, tudo não passa de cronstrução social, de acordo com esses imbecis.

    1. “Feitiçaria africana” ou Ciência, nenhum dos dois tem tido vida fácil por aqui nos últimos anos. Estamos seguros.

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