As falhas que dizem de onde vem o metano natural

Geologia é uma coisa meio complicada. Não é uma questão apenas de ficar observando pedrinhas (nesse momento, geólogos querem me matar), mas um estudo que deve analisar todo tipo de formação rochosa e datá-las. É um processo longo e complicado. Longo até mesmo para padrões de uma ciência que trabalha com um histórico de milhões e milhões de anos.

Entender as rochas é entender até como viemos parar aqui, bem como isso influenciou nosso mundo, nossa civilização. Emissões de metano afetam nosso planeta, por ser um poderoso gás de efeito estufa, já que ele chega lá em cima e se transforma em dióxido de carbono e aí a caca está feita. Muito dessa informação é obtida apenas datando rochas.

O dr. Jochen Knies é pesquisador do Geological Survey of Norway, na Noruega (mas você sabia disso porque o nome entregou, né?). Além disso ele é trabalha no Centro de Gás de Hidrato do Ártico, Ambiente e Clima, fazendo parte do grupo que estuda a história do paleo-metano.

Há metano aprisionado por muitos milhões de anos, desde que as primeiras moléculas orgânicas começaram a se decompor. Há toneladas de lá embaixo, nas profundezas do solo rochoso, só esperando para emergirem um dia e fazerem o favor de piorar mais ainda o nosso clima.

De tempos em tempos, parte desse metano se liberta, como acontece com o permafrost (embora aí seja outra história, outro lugar e outra pesquisa). O que o grupo de pesquisa que Knies faz parte analisa a periodicidade dessas emanações para saber se elas obedecem a uma certa frequência, ou simplesmente vem à tona. Para isso, o grupo utiliza várias ferramentas de modelagem computacionais, o tipo de coisa um pouquinho melhor que o Positivão que você tem em casa, de forma a analisar a quantas andam as emanações de metano no solo do Ártico.

Sendo assim, Knies e seu pessoal estudam falhas geológicas entre as placas tectônicas. De acordo com a sua pesquisa, o vazamento de metano a partir do fundo do mar acontece de forma episódica e frequente. Alguns escoamentos acontecem todos os anos, outros são meio raros e acontecem a cada alguns milhares de anos, um longo tempo na escala humana, mas praticamente um intervalo reduzidíssimo em escala geológica.

A pesquisa então se foca em datar os locais e plotar dados de forma que eles possam identificar e caracterizar melhor o tempo e a duração desses vazamentos. A importância é que enquanto dão muita atenção nas liberações de poluição na atmosfera por causa da atividade humana, deixaram de lado essas emanações naturais.

Claro, que negacionistas irão alegar, e não, que emanações de metano são naturais e a ação humana não tem nada a ver com mudança climática. Até teria sentido, se não fosse o caso que a matemática não bate, e a temperatura global vem subindo ultimamente nos últimos séculos, e não ao longo de milhões de anos. Sim, a ação humana tem muito a ver com isso.

Claro, isso não descarta que precisamos entender também os fenômenos naturais. Precisamos, temos e devemos entender, de forma que as informações sejam sempre mais acertadas. Nenhuma informação é informação demais!

A pesquisa, então, concentrou-se em falhas geológicas mais frágeis e fraturas na costa na região oeste da Noruega. Até o momento, não existiam aplicações para a identificação direta da idade de quebra e reativação frágeis, e, portanto, potencialmente o momento da emissão de gás através da crosta. Knies e seus colaboradores conseguiram desvendar e datar a evolução complexa da deformação frágil local, que se estende por um período de 200 milhões de anos.

A pesquisa foi publicada no periódico Nature Communications. E se mais não falo é porque a publicação está aberta e qualquer um pode lê-la. Divirtam-se.

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