Eu gosto de tatus-bola (que pertencem a duas espécies: Tolypeutes tricinctus e Tolypeutes matacus), apesar de preferir as cabritas, já que estas alimentam os seus descendentes. Há muito tempo, cientistas vinham buscando quando começou este lance, mermão, de catar bicho que se enrola, tá ligado? Agora, pelo visto, descobriram qual o mais antigo animal a ter esta capacidade. É um trilobita!
Trilobitas são uma pérola evolutiva. Eles nos trouxeram muitas informações do longínquo período Cambriano. Não que de fato tenha havido alguma explosão de vida, pelo contrário. O problema estava que, tendo corpo mole, sem carapaças, larga maioria dos animais não deixou vestígio de sua passagem. Com os trilobitas, foi diferente, e não pense que eram pequenos seres cascudos. Já teve até trilobita graúdo, como os que foram encontrados em terras d’além mar.
Javier Ortega-Hernández tem nome de personagem de novela mexicana, mas é paleobiólogo da Universidade de Cambridge. Ele estava dando uma vista d’olhos em alguns trilobitas canadenses daqueles baixinhos, enfezados e garras afiadas quando notou um pequena trilobita de um grupo chamado Olenellida com uns 510 milhões de anos de idade. Nada demais até aí.
Aquele pequeno filhote de Satã, criado exclusivamente para desmentir a verdade da Terra Jovem, tinha algo como espinhos saindo da testa, oque me faz pensar que o conjuge andou pulando a cerca, mas isso não veio na publicação. Examinando mais detidamente, Hernandez viu que os espinhos não saíam da cabeça dele, a honra de sua amada ainda estava ilibada. Os espinhos vinham da parte traseira do bicho. O que isso poderia significar?
1) O Bane confundiu o trilobita com o Batman e resolveu quebrar a espinha dele.
Até poderia ser, se o trilobita fosse um animal com esqueleto interno, o que não é o caso.
2) O trilobita tinha realmente enrolado. Mas, como? Por si só ou esmagado por um monte de detritos caindo em cima dele?
Se um monte de entulho tivesse caído nos espécimes, obrigando-os a se enrolarem, este "enrolamento" seria algo disforme, feito de qualquer jeito. Mas o fóssil encontrado por Hernandez estava placidamente enroladinho, perfeitinho, com as dobras totalmente simétricas. Logo, a hipótese de ter sido soterrado e obrigado a se contorcer todo não resistiu.

Mas, afinal, por que ele se enrolaria?
No período Cambriano, tal como é hoje, não é o tipo de lugar que você adorasse criar seus filhos (estou falando sério. Só alguém bem retardado foge das cidades e vai morar na savana africana sem nenhuma ferramenta mais complicada que um pedaço de pau). Havia muitos predadores, entre eles o anomalocaris, o camarão Chuck Norris. Fugir deles não era algo a se questionar, mas nem sempre resultava em vitória; assim, quando você acabava com alguma vantagem defensiva, era um dia a mais de vida, pronto para espalhar seus genes por aí. Se enrolar todo é uma boa atitude defensiva, já que nem todo predador tinha condição de mastigar a carapaça do trilobita e muito menos conseguia engolir (no caso do anomalocaris, não havia muitos problemas quanto a isso, mas ainda era mais difícil).
A pesquisa de Hernandez foi publicada no periódico Biology Letters, e nos conta um pouco sobre nossa própria história. Nos enrolar para nos defendermos é uma atitude normal no reino animal e nas plantas, desde um gongolo até o já mencionado tatu-bola.

Informação científica com humor, referências a cultura pop e alfinetadas nas idiotices das religiões…. Só o Ceticismo.net faz isso por você.
Acho incrível o trabalho deste pessoal ligado a Paleontologia, são como detetives da História remota do planeta
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