Entrevistadores, empregos e jornalistas. Essa mistura não dá boa coisa

Li no G1 ontem uma pseudo-reportagem sobre entrevistas de emprego. Eu não sei bem porque eles publicaram aquilo, mas achei tão idiota que deixei para entretê-los neste domingão, já que não tenho um caminhão para levá-los para comer feijão. Tudo começa com uma consultoria de recursos humanos norte-americana relatando péssimas participações de candidatos a vagas de empregos.

Mas a realidade é sempre mais obscura e nunca está facilmente perceptível.

A matéria de nome Empresa lista as ‘piores’ perguntas feitas por candidatos a um emprego (notem as aspas no modo TCR: Tirar o Cu da Reta), onde a empresa Office Team, especializada em Recursos Humanos, com sede na Califórnia, teria ouvido 650 gerentes de RH de empresas dos Estados Unidos e Canadá. De onde veio essa pesquisa? Já vou te dizer já, já.

Durante a pesquisa, ficou relatado "bobagens" (mais uma vez, aspas no modo TCR do G1) que candidatos a empregos teriam dito numa entrevista. Entre os exemplo, temos:

  • "O que é esse trabalho?"
  • "Eu tenho mesmo que vir trabalhar todos os dias?"
  • "Qual é a cor da tinta das paredes deste escritório?"
  • "Você teria um emprego para o meu namorado?"
  • "Posso colocar minha mesa perto do cafezinho?"
  • "Posso ter um adiantamento de salário?"
  • "Você pode me ajudar a procurar um apartamento?"
  • "Posso vir trabalhar de shorts?"
  • "O meu marido pode terminar este teste para mim?"
  • "Você pode me ajudar com o teste de emprego?"
  • "Como eu me saí nesta entrevista?"

Como sempre, as perguntas idiotas são consideradas assim apenas por parte do entrevistador, mas, convenhamos, tem tanto cargo com nome obscuro como Analista Médio Nível 3, uma função não está bem descrita. Ele vai analisar o quê? Ou, vamos em coisas mais simples: auxiliar de laboratório. Eu não sei porque um laboratório precisa de um auxiliar. Químicos podem precisar, farmacêuticos etc. Mas um laboratório? Bem, normalmente, auxiliar de laboratório é um faxineiro de luxo, com um salário não tão luxuoso assim.

Eu dificilmente acredito que alguém nem tem um emprego e já pede um adiantamento. Uma semana depois de conseguir eu já vi, mas ANTES de conseguir, acho meio difícil. Perguntar como se saiu na entrevista é algo que todos querem saber, não acho tão bobagem assim, e é o tipo de coisa que o entrevistador deve amar de paixão, já que eles normalmente se sentem como deuses.

Vamos ser sinceros, o cara que faz as entrevistas dificilmente faz ideia do cargo que você pretende ocupar. E quanto mais especializado for este cargo, menos o entrevistador saberá sobre ele. Esse negócio de "pesquise a empresa, conheça o cargo etc e tal" é lindo, mas é um conselho que parece que todo mundo irá trabalhar numa OCP da vida, pretendendo um cargo de Diretor Analítico de Informações Retoricas para Contratações Perfunctórias. E nem todas as empresas têm uma mesa de café. Se der sorte, trabalhará num cubículo próximo ao banheiro, oque não fará diferença se você for operador de telemarketing, que tem horário para ir no banheiro, previamente estipulado. Tá com dor de barriga? Coloca uma rolha e espera a sua hora de ir.

Como o G1 teve acesso a essa pesquisa? Simples, está no próprio site da Office Team. E não é mencionado quantos gerentes de RH foram consultados. Bem, deve ser porque a matéria do G1 é uma tradução desta aqui (aliás, a Office Team não é lá muito bem vista). E, curiosamente, não é mencionado o monte de merda que entrevistadores falam pra você. Nós tínhamos publicado um artigo sobre a Entrevista de Emprego 2.0, que avalia pessoas através de perguntas estúpidas, sem o menor senso de ridículo.

Como eu falei, entrevistadores se sentem como deuses. Eles partem do princípio "Eu tenho um emprego, você não e farei o possível para que continue não tendo". Normalmente, são sádicos e/ou extremamente idiotas, como quando eu fiquei desempregado certa vez (isso que vou relatar faz um bom tempo, mas aposto que ainda ocorre). Chego na empresa (que não direi qual é, obviamente) que estava procurando "jovens dinâmicos prontos para aceitar novos desafios querendo atuar em um novo segmento de mercado sei-lá-mais-o-que, pois não me lembro" (lembram  da primeira pergunta acima?). A bem da verdade, era uma corretora de seguros. Ok, mas o anúncio não tinha dito que era para e vender seguros (apesar de eu ter aventado isso). O entrevistador,m um cara que mal tinha a minha idade também, numa pose  suprema do Olimpo, me perguntou por que eu queria trabalhar lá. Eu respondi que estava experimento novas oportunidades de mercado etc (conforme "dicas" à solta por aí). Ele me diz então "sei, o senhor está querendo um emprego por estar… hummm… desempregado" (neste momento, tive vontade de dar-lhe uma porrada, mas não respondi).. Então, ele meio que dá um suspiro e diz: "Ah, mas você tem faculdade. Hummm, lamento, mas não é o perfil que procuramos. Nós queremos gente até o Ensino Médio, sabe? Você tem cultura demais, não é isso que queremos" (sic)

Sério, eu estava em conflito interno. Não sabia se me sentia humilhado ou superior perante aquele bando de idiotas. O interessante é que quem passava na segunda fase sa entrevista tinha que fazer um "teste de venda", ligando para, pelo menos, 2 ou 3 pessoas e fechar uma venda de um plano de seguros. Depois, deveria aguardar ser chamado em casa. Sim, é isso mesmo que você está pensando. Decidi que seria ótimo NÃO TRABALHAR para uma corretora vinculada a um banco que rima com "fresco".

De outra vez, tenho duas entrevistas em colégios diferentes no mesmo dia. No primeiro, depois do blábláblá inicial, vem a pergunta: O senhor se considera um professor construtivista ou sócio-interacionista?" Resposta: "Eu sou um professor. Minha meta é ensinar e me certificar com que o aluno entenda e aprenda o ponto que estou ensinando, servindo de base para entender o ponto a seguir. Ao ponto que eu ensinei e o aluno aprendeu, meu trabalho foi feito". A burocrata do ensino fica maravilhada com a resposta. "Eu sabia que o senhor era construtivista!

No segundo colégio, é feita a mesma pergunta (saco!) e recebeu a mesma resposta. A coordenadora: "Hu-hummm, que legal! O senhor é sócio-interacionista!". Eu fico pensando se na forma construtivista Átomos são diferentes do sócio-interacionista, ou que 2 + 2 terá respostas diferentes. Ah, sim, ainda fui perguntado como era a minha visão de carreira para dali a 5 anos. Eu já sabia que como não sairia grande coisa dessa entrevista falei logo: "Ser Coordenador do Ensino Médio, para daí a 5 anos ser Diretor Pedagógico". A cara de terror dela foi a coisa mais engraçada do mundo. Seu trono foi destroçado e ela ficou tão desequilibrada ao ver seu pedestal ruir que a única saída dela foi "ah… sim… ok, nós entraremos em contato" (estou esperando até hoje).

Entender as empresas não é difícil. Difícil é aturá-las depois que as compreende. Quem melhor pode explicar como funciona o mercado corporativo é o Scott Adams, criador das tirinhas do Dilbert. Seu livro, O Princípio Dilbert, continua atual, mesmo depois de 18 anos (!), onde chefes são incompetentes e totalmente alheios ao seu trabalho, chefes de RH são monstros sádicos, como o Catbert, o Departamento de Contabilidade é chefiado por um bruxo contendo trolls trabalhando e funcionários massacrados e nunca reconhecidos.

Scott Adams fala de modo jocoso, mas aloi só tem verdades, principalmente quando ele critica as Declarações de Missão, Declarações de Visão e a inutilidade das reuniões. Recomendo fortemente a leitura do livro, que poderá ser encontrado no Estante Virtual, ou pode ler as tirinhas direto do site oficial. Dá até pra comprar os livros e outras tranqueiras.

De resto, sobra o cinismo que pouco importa como você aja, o entrevistador já decidiu assim que você entrou na sala. ´pE como um amigo que está pleiteando uma vaga numa empresa e já passou por 6 (SEIS) entrevistadores. Uma empresa que perde tempo assim não está interessada em gente trabalhando, ela está e servindo de cabide de emprego para entrevistadores para, no final, a gostosa que foi sua estagiária (daquelas burras e incompetentes) acaba ganhando um cargo que criaram exclusivamente para ela e aca sendo a SUA chefe; e sim, aconteceu comigo, mas parece que isso nenhum chefe de RH admite que existe, não é, mesmo?

11 comentários em “Entrevistadores, empregos e jornalistas. Essa mistura não dá boa coisa

  1. E você nem mencionou aquelas atividades em grupo entre os candidatos (que graças a Thor, esqueci o nome agora), que não tem nenhum objetivo além de gastar o tempo de todos.
    Parece até que colocam um monte de ratos numa caixa e jogam o queijo la dentro, só para ver quem come antes.

  2. HAHAHAHA, realmente essa do conhecimento superior ao necessário seria hilária, se não fosse triste.
    Já passei por isso.
    Em 99, recém formado, prestei concurso em uma grande faculdade do estado de SP. Aprovado nas provas de multipal escolha e dissertativa, vamo ao engodo: a entrevista. e exatemente esse ponto me foi questionado. Eu, recém-formado, estav concorrendo em nível técnico eo entrevistador ficou com receio que eu estaria em um cargo abaixo da minha formação e me sentiria deprimido com o tempo…. O que responder para um imbecil desses? Oras, eu não estava sendo enganado. Eu sabia examente o cargo a que estava concorrendo. Mas…
    Anos depois, a necessidade de entrevista foi judicialmente questionada e não entra mais nas fases de concurso dessa mesma Universidade, mas em seu lugar entrou a “prova oral” para cargos mais elevados, que como muitos sabem, já possuem o candidato aprovado quando o concurso é aberto!

      1. @JCFerranti; tem um programa gratuito chamado Type Faster, que ajuda você a treinar a digitação, como em um curso de datilografia.

        Eu, particularmente, acho útil você aprender a escrever sem olhar para o teclado (independente da sua taxa de acertos, velocidade ou técnica) e olhar mais para o que você está escrevendo.

        O programa é bom para você desenvolver tudo isso e recomendo até, quando estiver mais avançado, o texto da vida de Pedro Paulo (Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais…), pois o P é uma das letras mais díficeis de digitar corretamente, o P.

  3. É complicado, já passei por maus bocados na mão desses fdp…(sorte que hoje não preciso mais disso!)
    normalmente é quem sabe mentir melhor que se dá bem numa entrevista dessas; existem tutoriais na Internet que ensinam truques do tipo, quando o entrevistador perguntar sobre “defeitos”, deve-se responder algo como “sou muito perfeccionista”, “me concentro demais no trabalho e por isso não consigo relaxar”, e outras merdas do tipo…quanta hipocrisia…
    Se alguem disser a verdade, ou seja, a uma pergunta tipo “por que você quer trabalhar na nossa empresa?”, “porque eu preciso do emprego para poder pagar minhas contas”, certamente será um a menos…
    Isso é só um exemplo, mas há muitas outras coisas da vida em que se dá melhor quem sabe mentir bem…eu não consigo fazer isso, e não sei puxar o saco de ninguém também…
    No setor privado também há aquela coisa do famigerado QI (Quem Indicou); às vezes já está decidido quem vai ocupar a vaga antes mesmo da entrevista (por incrível que pareça) já vi uma coisa dessas!

    1. @Pluto, alguns entrevistadores já estão gabaritados nesses truques do tipo “sou perfeccionista”.

      Em determinadas tarefas é horrível um funcionário perfeccionista, pois ele leva 3 vezes mais tempo para fazer uma tarefa. Workaholic também é ruim se ele voluntariamente ficar depois do expediente: o sindicato pode requerer que você pague horas extras que você não precisava que ele fizesse e ele fica extremamente irritadiço quando acha que você tá passando pouco serviço pra ele.

    2. @Pluto,

      Acontece o mesmo comigo, não consigo mentir, também não puxo o saco de ninguém. E esse tipo de profissional não tem valor algum, é visto como “anti-social” (antissocial?).
      E o que responder para a pergunta “como você se imagina daqui a 5 anos?”, para mim, esta é um enigma….

      1. Não é um enigma, é uma armadilha.
        Se você citar qualquer avanço profissional que não envolva diretamente a empresa será visto como alguém sem compromisso com ela, que pode abandoná-la diante de melhores ofertas dos concorrentes. Se exagerar e disser algo como gerente da empresa, poderá ser visto como ameaça a seu superior, consequentemente alguém que não trabalha em equipe. Por fim, se disser algo genérico demais, vão achar novamente que não se importa com a empresa, e se disser que pretende estar no mesmo lugar, alguém sem ambições.
        Resumindo: Você tá ferrado de qualquer forma com essa questão.
        Melhor resposta: “Fazendo a sua função, recrutando!” O cara vai rasgar seu curriculo na hora, mas pelo menos você se diverte! :mrgreen:

    3. @Pluto, Parece que as pessoas preferem mentiras bonitas que verdades duras. Onde será que isso ocorre também? Felizmente passei em concursos públicos e “fugi” dessas entrevistas ridículas, mas para conseguir promoção ainda passo por entrevistas e não posso dizer que almejo aquela função para ter um salário melhor. Mundo hipócrita!

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