Os segredos da visão estereoscópica

Uma das maravilhas em nossos olhos é perceber o que chamamos de "3 dimensões". O mundo é muito diferente ao se olhar pela janela do que o que vemos na tela de um computador. Até mesmo o cinema em 3D não se compara ao nosso dia-a-dia.

Cientistas procuram entender como acontece (e onde) a chamada "visão em 3D", mais corretamente chamada de visão estereoscópica. Estudando regiões do cérebro de macacos rhesus, os pesquisadores tentam desvendar o que se passa dentro do cérebro de forma que ele consiga perceber o mundo que nós vemos.

Existe uma ideia errônea que nós, humanos, temos visão estereoscópica por sermos predadores. Nada mais longe da verdade. Nossos ancestrais tinham visão monodimensional, onde cada olho era responsável por uma área de varredura, como é o caso dos pombos Camaleões não só possuem visão monocular, como seus olhos se movem independentemente, e eu fico com dor de cabeça só de pensar em como ele percebe o mundo ao seu redor. No caso do pombo, a adaptação lhe deu a capacidade de perceber quando uma águia, por exemplo, estiver em seu encalço. Por outro lado, a águia precisa de uma visão binocular para poder caçar o pombo e estudar o ângulo de decida, ataque etc. Para os primatas, a visão binocular (ou estereoscópica ou a chamada "visão 3D") é mais do que necessária. Precisamos dela para poder nos locomover; nossos ancestrais tinham que se movimentar entre as árvores, e para pular de galho em galho, é preciso ter uma perfeita noção das 3 dimensões (altura, largura e espaçamento entre esses galhos e demais obstáculos), de forma a não dar com o focinho na primeira árvore que magicamente aparecer na frente.

Os olhos, uma máquina estupidamente "projetada", funcionam mal e porcamente. A saber, eles não fazem nada além de captar a luz num único ponto, tendo outros pontos a incumbência de identificar mais ou menos o que aparece na frente. Só isso, nada mais. Só conseguimos ver imagens completas porque o olho não para quieto no lugar e fica "varrendo" o ambiente. As imagens obtidas são enviadas para outra gambiarra evolutiva, o cérebro, com uma mensagem implícita: se ferra aí, cara! O cérebro processa as informações à medida que elas chegam (normalmente, atrasadas) e ele tenta dar significado à algaravia de informações visuais que chegam, muitas vezes sem fazer a menor ideia do que aquilo significa e, literalmente, inventando informações que não estão lá, pois o cérebro tem uma necessidade patológica que as coisas façam sentido, mesmo que não haja sentido nenhum. Daí acontece os fenômenos de ilusão de óptica.

Entretanto, não para por aí (como eu odeio este maldito acordo ortográfico!). Nos animais que desenvolveram visão estereoscópica, o cérebro acaba com outra função: montar a imagem dos dois olhos de forma que possam ter noção de profundidade, mesmo no mais tosco cérebro do pessoal sem-noção. No caso das plantas, há um pequeno impeditivo neurológico de fazer isso.

O dr. Peter Janssen é professor da Faculdade de Medicina e pesquisador do Departamento de Neurofisiologia da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, e seus colegas treinaram dois macacos rhesus para reconhecer formas  em 3 dimensões. Eles usaram um arranjo de pontos na tela de um computador, semelhante àqueles horríveis livros de estereogramas, alguns dos quais me fizeram ter dor de cabeça ao tentar ver alguma coisa (acho que tenho visão bidimensional ou aquela porcaria não funciona, mesmo).

A escolha de usar macaquinhos rhesus (oh, meo Deos! Os pobres macaquinhos lindinhos!) não foi aleatória. Rhesus possuem deficiências em sua visão estereoscópica, fazendo com que eles sejam excelentes para estudar como este tipo de visão se forma no cérebro. Levando em conta que eles possuem dois olhos, a resposta para esta deficiência só pode estar em como (e em que parte) o cérebro processa (ou deveria processar) as informações.

Os macacos tinham que ficar olhando para um determinado ponto na tela, com eletrodos ligados ao cérebro (sim, somos malditos especistas e não damos bola pros problemas da humanidade, preferindo espetar eletrodos na cabeça de macacos só por diversão). Os macacos não olhavam para a tela diretamente, eles usavam óculos especiais, de forma que os cientistas pudessem acompanhar o que o macaquinho estava vendo.  Janssen treinou os macacos a mover os olhos para a esquerda quando viam uma imagem côncava e para a direita quando viram uma imagem convexa. Naturalmente, toda a imagem vista por estes macacos seria plana, chapada que nem a tela do seu monitor. Mas quando você olha pro seu monitor, você tem a visão completa, isto é, você não vê o monitor, mas tudo em volta (estou levando em conta que você tem a visão normal). Em outras palavras, a visão em 3D tem profundidade e faz com que você enxergue como se o mundo fosse uma esfera ao seu redor. Se você fechar um dos olhos, verá que a sua percepção muda completamente. O que Janssen fez foi meio que "abrir" outro par de olhos nos macacos-cobaia, apesar disso soar meio estranho e parecendo alguma referência obscura a certas partes anatômicas abaixo do umbigo.

O dr. Peter Pan, digo, Peter Janssen sondou os cérebros dos priminhos através dos microeletrodos, enquanto eles concluíram suas tarefas visuais, de forma a identificar qual grupo de neurônios estavam responsáveis por identificar estruturas côncavas e convexas, na área chamada córtex inferior temporal[1] [2] [3]. Janssen encontrou grupos de neurônios que meio que acendiam que nem farol de neblina quando as cobaias viam uma imagem côncava, e outros grupos que responderam a uma forma convexa. A pesquisa foi publicada no periódico Neuron.

Tá, mas ainda não entendi o que foi feito. Você não disse que macacos rhesus tinham dificuldade de enxergar imagens em 3 dimensões?

Exato e é aí que está a beleza da coisa. Quando Jansen estimulou um determinado grupo de neurônios, ele percebeu que o macaquinho olhou pra esquerda. Isso disse a Janssen que aquele grupo de neurônios que estava sendo estimulado tratava das imagens côncavas. Ao estimular outro grupo, o macaquinho olhou pra direita, e a resposta era óbvia. Em resumo, Janssen alterava a percepção visual do macaquinho apenas fazendo passar corrente elétrica em alguns neurônios.

A meta, agora, é entender a relação olhar para esquerda/direita e o processamento das informações. Não é apenas uma questão de treinamento e sim saber como o cérebro interpreta esta gama de informações e as traduzem em comportamento motor. Manipulando essa região, os cientistas conseguirão mapear todo o processo, entendo todos os mecanismos da criação de imagens tridimensionais no cérebro, permitindo identificar lesões no referido órgão.

Um comentário em “Os segredos da visão estereoscópica

  1. Fico feliz em estar vivo para poder acompanhar alguns dos progressos feitos pela neurociência, que é ainda um misterioso quebra-cabeças a ser montado. Mesmo que para isso tenhamos que espetar alguns ferrinhos na cabeça de alguns primos distantes para realizar experimentos.

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