Tostines biológico: Peixe mimetiza polvo ou polvo mimetiza peixe?

Em termos de sistema de defesa, muitas vezes as pessoas confundem camuflagem com mimetização. Camuflagem acontece quando o animal se mistura com o ambiente, alterando o seu padrão de cor. Um perfeito exemplo é o camaleão (família Chamaeleonidae), que passa de rosa pra verde, pra cinza e assim sucessivamente. Mimetização é um pouco mais especializado, onde o bicho imita o ambiente, seja no padrão de cores (e não apenas A cor) ou no formato, como é o caso do bicho-pau (ordem Phasmatodea).

Os polvos, em geral, usam de camuflagem. Mas, o polvo mímico (Thaumoctopus mimicus) consegue  a façanha de imitar não só a aparência, mas o comportamento de outros animais, ganhando uma vantagem evolutiva que o permite continuar seguindo em frente na luta pela sobrevivência.

O T. mimicus é natural do sudeste da Ásia, podendo chegar a ter cerca de 60 cm de comprimento e tem a capacidade de imitar muitos outros seres. Ele nada como uma arraia, fica parado como um peixe leão e imita até mesmo o comportamento de uma serpente marinha (família Elapidae, subfamília Hydrophiinae), um dos animais mais venenosos do mundo aquático, espantando qualquer um que resolva ficar em seu caminho. Ele movimenta os tentáculos de forma a imitar o ofídio, fazendo com que simule uma verdadeira ninhada de cobras, e só um maluco ficaria perto para ter a certeza do que tem ali. Nosso amigo imitador é frequentemente confundido com outro polvo mímico: o Wunderpus photogenicus,  outra espécie descoberta recentemente, mas há uma diferença ainda que sutil entre os padrões de cor e listras brancas ao longo do corpo.

Só que agora o mímico foi imitado. Em maio do ano passado, Godehard Kopp estava mergulhando nas águas da Indonésia. Isso até nem seria algo do tipo OHHHHH. A questão é o que ele viu lá. E o que ele viu foi o peixe da família Opistognathidae bem junto ao polvo, mas quase imperceptível. O peixinho, que nem de longe lembra o Nemo, imitou a padronagem do polvo mímico, de forma a ficar livre dos predadores. O polvo não está nem aí pra hora do peixinho e ambos vivem felizes na santa paz da Seleção Natural.

Kopp filmou a relação de "amizade" entre os dois e enviou o vídeo para o dr. Rich Ross da Academia de Ciências da Califórnia — California Academy of Sciences (CAS) — (não confundir com Rick Ross, o rapper) e o dr. Luiz Rocha, também da CAS (não confundir com o Luiz Rocha que toca gaita). O vídeo pode ser visto abaixo:

O peixe-kibador é uma presa fácil. É pequeno, não anda em cardumes numerosos, não nada rápido e deve ser muito gostoso fritinho com limão. Se aninhando em meio aos tentáculos do T. mimicus, o peixinho encontrou uma maneira de continuar na corrida pela vida, podendo sobreviver o suficiente até fecundar algum a fêmea que esteja dando um rolé perto, garantindo a continuidade da espécie, lembrando um pouco a relação dos peixe-palhaço (agora sim, o Nemo) e as anêmonas. A pesquisa foi publicada em Coral Reefs.

O mundo biológico é surpreendente. A Natureza sempre encontra um jeito de dar subsídios aos seres vivos de seguirem adiante… ou eliminá-los de vez. Cada ser acaba encontrando sua própria saída, levando vantagem sobre seus predadores ou suas presas. É a dança da Seleção Natural determinando quem será o último a permanecer na cadeira ou ficar logo de fora do baile.

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