Como os morcegos “enxergam” o que está em seu caminho?

Se você não fugiu correndo de um colégio e aos berros (ainda mais se foi meu aluno), você sabe que morcegos possuem um sonar nato que o ajuda a se guiar durante o voo. Não que morcegos sejam cegos, mas que de noite é realmente bem difícil poder enxergar. Seu sistema de ecolocalização é o responsável por isso, coisa que toda criança de Ensino Fundamental sabe. O que não se sabia até agora é como é feita esta ecolocalização, isto é, se a intensidade do som emitido pelo filhote do Batman tem alguma influência no modo de voar, desviando dos obstáculos.

O dr. Holger Goerlitz – da Faculdade de Ciências Biológicas da Universidade de Bristol, Inglaterra – e seus colaboradores estudaram o comportamento de diversos morcegos, onde os pesquisadores utilizavam objetos reais e virtuais na trajetória de voo de uma grande quantidade e variedade de morcegos, filmando tudo quando os servos de Satã saíam de suas  cavernas. Foram estudados mais de 100 morcegos abrigando cerca de 13 espécies diferentes (a foto de abertura deste artigo é do Euderma maculatum, apenas para fins de ilustração, já que o distinto é oriundo das Américas e não da Inglaterra), e à medida que os quirópteros foram surgindo a partir de uma caverna, o estagiário (sempre sobra pro estagiário) ficou responsável por colocar um objeto pequeno no caminho.

Os vídeos obtidos mostraram as curvas  que os morcegos faziam logo que o objeto aparecia na sua trajetória de voo, mas eles conseguiram desviar sem problemas. Então, veio o segundo teste, que foi colocar um objeto no caminho que entrava e saía do ângulo de percepção do bicho.  Por último, com o auxílio de um auto-falante, os pesquisadores "criaram" objetos, emitindo sons que variavam em timbre, o que fazia parecer aos morcegos que havia corpos de diferentes tamanhos.

De acordo com Goerlitz, o resultado sugeriu que o objeto virtual era o dado que faltava no experimento, pois antes achava-se que os morcegos usavam um outro parâmetro de ecolocalização, mas o experimento demonstrou que o que acontece é a abertura do som emitido pelo morcego. Em outras palavras, o som emitido pelo primo do Drácula possui uma determinada abertura de propagação. O resultado foi obtido ao se variar o timbre, altura e amplitude das ondas sonoras que eram emitidas pelos auto-falantes, e os morceguinhos achavam que era o som que eles tinham emitido e estava agora voltando até as suas orelhas. Sua pesquisa foi publicada no periódico Behavioural Processes.

Como cientistas são criaturas que não se convencem tão fácil assim, outra equipe de pesquisadores, em Munique, Alemanha, resolveu fazer testes similares, obtendo resultados concordantes com a pesquisa do dr. Goerlitz, sendo esta pesquisa publicada no periódico Journal of Neuroscience. Nos testes feitos com a Melina Heinrich — da Divisão de Neurobiologia do Departamento de Biologia da Universidade Ludwig-Maximilians — foram usados morcegos treinados em laboratório para escolher o maior dos dois objetos. Os resultados mostram que os morcegos foram capazes de escolher o objeto maior apenas com o uso da abertura de seu sonar natural, independentemente da intensidade do eco. Este comportamento se refletiu na atividade de células nervosas que reagiram especificamente para ecos de uma determinada abertura de sonar.

Em algum ponto eu me perdi. Afinal, o que a pesquisa diz?

Que não importa a intensidade do som que volta aos ouvidos do morcego, e sim a abertura de seu som, como as ondas sonoras se espalham pelo ambiente. Em termos de neurociência, células específicas do cérebro estão preparadas para identificar determinada abertura, mas não outras. Isso ajuda a compreender melhor como as regiões no cérebro especializadas na audição funcionam e pode guiar a um melhor mapeamento do cérebro, ampliando nosso conhecimento sobre o que se passa entre nossas orelhas e o cérebro.

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