O caso do vírus que pegou uma virose

Vírus são criaturas fascinantes. Não existe nenhum outro ser vivo como eles, dada sua extrema simplicidade. A bem da verdade, nem se sabe direito o que é o vírus, apesar de o considerarem ser vivo, enquanto eu o classifico como PFDP. Se existe algum ser vivo que venceu todos os dilemas evolutivos, com certeza esse alguém é o vírus, que existe aos borbotões na Natureza, mas que em larga maioria é absolutamente inofensivo ao Homem. No entanto, eles guardam sua importância, pois ajudaram a modelar os seres vivos, se intrometendo onde não era chamado, mesclando seu ridículo código genético aos demais seres vivos, e estes acabam recebendo adição de informação ao seu genoma. daí em diante, só a Seleção Natural será capaz de dizer quem conseguirá viver e passar adiante sua mutação. Mas, não é só isso. Vírus são criaturinhas tão enxeridas que eles infectam qualquer coisa, desde a imensa baleia azul até a mais ridícula ameba… pelo menos, pensou-se assim até certo tempo, até perceberem que até mesmo vírus podem contrair viroses e aqui vamos nós de novo, em mais surpresas que o mundo natural descortina para nosso deleite (ou não).

Vírus virou desculpa médica. Para quem tem problemas com um computador, o diagnóstico é “travou, tem que formatar”. Ou então “é culpa do Sistema”. No caso da saúde, a desculpa quando não se sabe o que você tem é “virose”. Todo mundo tem virose. Você já teve virose, nem que seja aquele resfriado nojento que faz seu nariz pingar e você quase ao ponto de enfiar um O.B. nas narinas. Mas não se sinta especial, pois todos os outros seres vivos podem ser infectados por um vírus. A bem da verdade, este serzinho sem-vergonha é tão sacana que, não satisfeito em infectar outros seres, pode ser infectado também por outro vírus.

No ano passado, os pesquisadores descobriram o maior vírus já descoberto. Ele foi encontrado em um hospedeiro unicelular, que é tão sacana quanto o primeiro, pois ataca bactérias e plânctons. Este vírus recebeu o nome de Cafeteria roenbergensis virus (CroV). O lindão tem um genoma que com mais de 700.000 pares de bases, possui estrutura linear e as extremidades são preenchidos com DNA repetitivo. Ele é capaz de codificar 550 proteínas, junto com um punhado de RNA mensageiros. Algo digno de respeito que virou artigo publicado na PNAS.

O DNA do CroV é maior do que o de algumas bactérias, mas não se alarme. Ele não é capaz de infectar seres humanos, pois não tem a “chave” adequada. Essa “chave” é o que possibilita que um vírus infecte um ser vivo e é através da mutação desta chave que há o chamado “salto entre espécies”, onde o vírus deixa de infectar o ser vivo A para infectar o ser vivo B. Foi o que aconteceu com a gripe suína.

Descobriu-se que o CroV nunca está só, pois ele é atacado por um vírus também. Um vírus faz com que seu genoma se mescle, digamos assim, com o genoma de outro ser vivo, de forma que as instruções sejam alteradas. Isso acarreta em mais produção de agente infeccioso, além de outras reações não muito legais. Assim, tendo um DNA de respeito, o CroV vira presa fácil de outro vírus, de forma que este  possa se reproduzir. Enquanto estudavam o CroV, os pesquisadores do primeiro artigo descobriram que um vírus sempre acompanhou o CroV; ele é o Maverick virus, carinhosamente chamado de “Mavirus”.

Este não é o primeiro vírus gigante a ser vitimado por um pequeno, e já existe até um termo para isso: “Virofagia”, onde um vírus menor ataca um maior, como foi o caso do Sputnik, vírus descoberto em 2008 numa pesquisa publicada na Nature.

O principal foco do estudo coordenado pelo dr. Matthias Fischer agora é a ligação entre o Mavirus e os transposons. Transposons são trechos do DNA que meio que ficam “saracoteando”, sem muito o que fazer e sem nenhuma utilização que tenha se percebido até agora. Segundo a pesquisa, ao que parece, o Mavírus  ajuda a transportar genes de lá pra cá e este deve ser uma das origens de tal fenômeno acontecer. estima-se que cerca de 1/3 de nosso genoma fica mudando de lugar, sem nenhuma função aparente, então não fique animado pensando que de uma hora para outra você ganhará poderes de aranha.

17 comentários em “O caso do vírus que pegou uma virose

  1. ~” O DNA do CroV é maior do que o de algumas bactérias, mas não se alarme. Ele não é capaz de infectar seres humanos, pois não tem a “chave” adequada. Essa “chave” é o que possibilita que um vírus infecte um ser vivo e é através da mutação desta chave que há o chamado “salto entre espécies”, onde o vírus deixa de infectar o ser vivo A para infectar o ser vivo B. Foi o que aconteceu com a gripe suína.”~

    Tipo: Um vírus pra Windows nao ser compativel com o Linux. Entendi.

  2. No caso da saúde, a desculpa quando não se sabe o que você tem é “virose”

    Aí o doutô receita um antibiótico de amplo espectro… (quando questionado, explica que é pra evitar as doenças oportunistas!) :mrgreen:

    Vírus ‘virófago’ (!) é novo pra mim! Já não bastavam os tradicionais bacteriófagos?
    A questão da “chave” para a infecção viral envolve alta especificidade bioquímica. Todavia, quanto maior a taxa de replicação do organismo, maior é a probabilidade de mutação genética e maior a chance de sobrevivência de uma população frente às pressões seletivas.
    Isso mostra o quão funcional uma seqüência genética pode ser apesar de simples, quando comparada a organismos inteligentemente projetados. :cool:

  3. Onde tem: “ele é o Maverick virus, carinhosamente chamado de “Mavirus”.”

    Juro que li “Marivirus”!

    Vírus com virose é novidade pra mim! Dia desses levei meu cachorro pro veterinário e adivinhem?? O “dotô” olhou pra mim e disse: “seu cão está com virose”.

  4. Recentemente li sobre o caso da bactéria que surrupiou parte de DNA humano e, lendo esse artigo aqui fiquei imaginando se, quando transitando entre os transposons, se o vírus que invadiu o outro também não poderia fazer o mesmo.

    Sei que isso é pura especulação sem base alguma, mas, se fosse possível (inclusive em nível macro) isso também poderia explicar a complexidade desses organismos.

    Olha, se falei muita bobagem, desculpe :oops:

  5. Os vírus são bem bizarros. :shock: Mas com confesso que o que é bizarro me fascina apaixonadamente. :) Mas o vírus são muito polêmicos. Não sei se é devido a sua simplicidade, mas para alguns (ou muitos, sei lá) eles não podem ser considerados seres vivos. Bem, já me falaram que é também por falta de autonomia. Eles ficam “a deriva” e necessitam de uma célula para se reproduzirem…

    Será que existem príons contaminados por outros príons? :shock:

    1. Mas com confesso que o que é bizarro me fascina apaixonadamente.

      Meus poderes mediúnicos dizem que alguém vai dormir no sofá depois que a esposa ler isso.

  6. André, já acompanho seus textos há algum tempo, e acho eles bastante interessantes, e só por curiosidade, gostaria de saber: qual é a sua formação acadêmica?

    1. @steve_br,
      Ele é Doutor em Filosofia, mas atualmente é empresário (possui um ‘centro de estudos das qualidades milenares da cientologia na cura da queda de cabelos causada por stress emocional’).

      Qto aos vírus (quem sabe voltando ao assunto não sou banida?), acho que o Senhor dos Senhores aqui citado está estudando s/a atuação deles no entupimento dos folículos capilares…..

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