Morre em São Paulo Dorina Nowill

dorina-nowill.jpgTenho para mim que algumas pessoas deveriam ser imortais. Não apenas por serem membros da Academia Brasileira de Letras, pois tal imortalidade é vã e inútil. Quando certas pessoas melhoram efetivamente a vida de centenas ou mesmo milhares de pessoas, tal pessoa deveria ser agraciada com a honra de ser imortal, pois sabemos que ela continuará seu excelente trabalho e continuará melhorando o mundo. Entretanto, é um sonho tolo, pois tal justiça só ocorreria se o mundo fosse bem planejado por alguma entidade que eu nem chamaria de poderosa, mas pelo menos com certo grau de amor.

A professora Dorina de Gouvêa Nowill é uma das pessoas que merecia a dádiva da imortalidade, mas não vivemos num mundo lindo e perfeito, onde os justos são recompensados e os maus ganham rios de dinheiro, constroem templos, roubam a população e ainda são venerados como filho daquela entidade mágica que pouco ou nada faria pelas pessoas, caso existisse. Dorina Nowill faleceu em São Paulo, de causas naturais, ontem, 29 de agosto, aos 91 anos de uma vida de realizações.

Poder-se-ia usar alguma metáfora tola, como “Dorina Nowill fechou seus olhos para o mundo ontem”. A verdade é que o destino já fechara seus olhos quando ela tinha 17 anos; nunca se soube ao certo o que causara sua cegueira, dado que a medicina de mais de 70 anos passados não é a mesma de hoje, óbvio. Não obstante, enquanto muitas pessoas sentariam no chão e rezariam para um deus qualquer pela cura e continuar o resto da vida se lamentando, Dorina resolveu que ajudaria outras pessoas como ela.

Dorina frequentou escolas comuns em sua época, porque não havia escolas especializadas como temos hoje. Eu já lecionei para alunos deficientes e é difícil. Aliás, especial o cacete! DE-FI-CI-EN-TE. Deficiência não é xingamento, é uma condição. Devemos parar de passar a mão na cabeça das crianças com deficiência, pelo contrário, devemos tratá-las com igualdade, pois é isso que elas querem: ser iguais. É difícil você dar aula para um cego,porque, no meu caso, ele não consegue ver os diagramas, não consegue ter noção do que estou explicando. Só com acompanhamento. Já lecionei para surdos (com auxílio de uma intérprete de LIBRAS) e para deficientes com paralisia cerebral, Down, autistas (em vários níveis), portadores de Asperger e até para vagabundos, filhinhos de papai, que são os piores e sua deficiência está numa elefantíase no ego (sim, eu sei que é de um filme antigo).

Deficientes são mais corajosos, pois querem superarem-se, querem ser tratados com respeito, mas de igual pra igual. Não querem um bando de babacas que ficam lhe mimando de forma escrota como se fossem algum animal exótico. Não são especiais, são crianças como todas as outras. Se uma tem pele escura ou não enxerga, para mim são a mesma coisa. Se uma é loira e outra não tem cabelo por causa da quimioterapia, não é motivo para tratar diferente. Se uma é chinesa e outra é surda, para mim tanto faz, mesmo porque eu já dei aula pra uma chinezinha que não falava nenhum outro idioma além do chinês mandarim, não lia em português, não falava e eu estou com dúvida se ela me confundiu com o Bruce Lee.

Dorina Nowill, junto com algumas amigas, criou a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, que em 1991 recebeu o nome de sua fundadora. Assim, a Fundação Dorina Nowill para Cegos em São Paulo, juntamente com o Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro (que site feio, pelo amor de Hades!), tornou-se uma referência nacional na produção de livros em Braille, na distribuição gratuita dessas obras para deficientes visuais e no desenvolvimento de técnicas mais modernas para que o cego consiga ler – como livros falados e vozes sintetizadas no computador.

Enquanto um bando de retardados dão todo o seu dinheiro para bispos, pastores ou outros tipos de estelionatários, visando ficar rico na graça de nóssinhô G-zuis, a Fundação Dorina Nowill para Cegos saiu da zona de conforto e não se contenta em dizer “ah, coitadinhos…”. Eles metem a mão na massa e fazem o mundo menos difícil para as crianças cegas. Se você é daqueles que curte um Twitter básico, a Fundação possui conta no Twitter. Siga e pense nas palavras de Kennedy. Pense no que VOCÊ pode ajudar. Não precisa ser dinheiro, tempo é um bem tão precioso quanto. Assim, deixe de ir um dia ao shopping e procure ver como você pode ajudar. E, não. Rezar é coisa de gente que não quer fazer nada e ficar de consciência limpa consigo mesmo.

Uma luz apagou-se no mundo e ele tornou-se mais frio e menos humano. Cabe a nós tentarmos restaurar o equilíbrio que a morte de um pessoa fez pender. Descanse em paz, professora Dorina de Gouvêa Nowill. Obrigado por ter existido.


Fonte: Estado de São Paulo

Um comentário em “Morre em São Paulo Dorina Nowill

  1. É isto mesmo,André!Nós,os deficientes gostamos de ser tratados como seres humanos. Sabemos que temos dificuldades(e quem não tem?),mas não queremos compaixão. Queremos respeito como qualquer pessoa quer.

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