Religião e Epilepsia

Por Edson Amâncio
Scientific American Brasil –
abril de 2006

cerebro.jpgEstrutura mental da espiritualidade e seu papel evolutivo ainda são um mistério.

Um dos temas atuais mais palpitantes em neurociências é saber “onde” estão as redes neurais cerebrais que codificam a crença (ou a fé). Localizacionistas apostam no lobo temporal, e tal convicção se fundamenta na religiosidade das pessoas que sofreram lesão nessa área.

Trabalhos científicos enfatizam o fato de que portadores de epilepsia do lobo temporal desenvolvem religiosidade exacerbada. Entre casos famosos mencionados encontra-se o pintor Vincent Van Gogh. Qual teria sido a origem do seu fervor religioso, levando-o a tornar-se um pregador tão obstinadamente preocupado com seus deveres que acabou expulso de sua seita?

Numa tentativa de compreender melhor o fervor religioso despertado em pessoas com lesão temporal o neurologista Vilayanur Ramachandran estudou dois pacientes epiléticos do lobo temporal, ambos com tendência espiritualista exacerbada. Submeteu-os a um experimento simples, conectando-lhes ao braço um eletrodo que capta impulsos elétricos na pele quando a pessoa é envolvida por alguma emoção. Numa tela de computador assistiam a figuras neutras (como bola de tênis, árvore e quadro-negro) intercaladas com imagens de sexo, violência, símbolos religiosos e palavras alusivas a Deus. Para surpresa dos examinadores, os impulsos mais intensos não se deram com cenas violentas ou eróticas: naqueles dois epiléticos do lobo temporal, a intensidade aumentava nitidamente quando os pacientes viam imagens religiosas.

Assim, seria lícito supor – por mais absurdo que possa parecer – que existem áreas no cérebro cujos circuitos são especializados em fé ou apego religioso? É exatamente aí que se inicia a penumbra do nosso conhecimento. Talvez por isso os neurocientistas tenham se negado sistematicamente a dedicar tempo de pesquisa ao tema.

Um epilético com lesão no lobo temporal e que desenvolvera religiosidade exacerbada quando não havia nele nenhum vestígio de interesse religioso antes da cirurgia causadora da lesão contou-me que, ocasionalmente, sofre uma crise em que tem a nítida sensação de sair do corpo, uma evidente sensação extra-sensorial. Relatos como esse se encaixam na experiência tornada pública em 2001 por Olaf Blanke. Ele colheu o extraordinário relato de uma paciente que passou por uma experiência extra-sensorial quando teve o giro angular direito estimulado por uma corrente elétrica. Ela estava se submentendo a cirurgia de crânio para a retirada de áreas geradoras de descargas epiléticas no lobo temporal.

Esse tipo de operação geralmente se faz sob anestesia local, pois é importante que o paciente esteja acordado para orientar os médicos quanto à sensação experimentada em cada área estimulada. Assim, colocam-se delicadamente eletrodos sobre o córtex cerebral, e desencadeia-se uma estimulação elétrica enquanto se aguarda a reação do paciente. Dessa forma, faz-se um mapa das áreas cerebrais próximas à lesão, permitindo identificar o local, remover precisamente a área afetada e preservar as áreas sadias das vizinhanças.

Quando neurocirurgiões estimularam o giro angular (região próxima à porção mais posterior do lobo temporal), a paciente relatou a sensação de levitar. Os estímulos foram repetidos várias vezes, e, numa delas, ela se referiu à sensação extracorpórea; estava a cerca de 2 metros distante do próprio corpo, perto do teto da sala, observando os médicos operar sua cabeça.

Até que ponto o resultado desses experimentos se superpõem? Pode uma avaria nas redes neurais que parecem governar a fé desencadear uma crença que não existia ou estava adormecida? E qual o papel do giro angular na sustentação da imagem corporal? Por que a estimulação dessa área cortical projeta para o paciente sua imagem fora do corpo? Que papel a evolução atribuiu ao lobo temporal no controle das nossas crenças? Se nossos genes são de fato “egoístas”, a que atribuir a crença ilimitada em outra vida, em outra dimensão? E por que tais crenças se tornam acentuadas quando estruturas do lobo temporal são atingidas? Respostas a essas questões talvez sejam um dos maiores desafios para as neurociências.

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Edson Amâncio, neurocirurgião do Hospital Albert Einstein, de São Paulo, é doutor pela Unifesp e autor de O homem que fazia chover (Barcarolla, 2006).

9 comentários em “Religião e Epilepsia

  1. André,

    Tem um ótimo documentário que fala sobre esse fenômeno que ocorro com as pessoas que têm epilepsia no lobo temporal. E até uma experiência que o neurologista Michael Persinger faz em outras pessoas, utilizando um campo eletromagnético para estimular o lobo temporal direito e proporcionar a pessoa a sensação de sair do corpo. O nome do documentário é God on the Brain (BBC Horizon_God on the Brain 2003)

  2. Eu fiz essa cirurgia do lobo temporal direito e vi meu espirito orando a Deus e para mim foi muito real.Vi também algo em meu braço esquerdo,era o aparelho de pressão e quando fui para o bloco cirurgico não vi ninguém colocar esse aparelho em meu braço.Quando contei ao meu cirurgião o que vi naquela sala, ele me disse que não era cético, só que o que eu vi, disse ele: foi com os seus olhos espirituais, pois tinha exatamente o que eu vi e com os meus olhos carnais era impossível ver o que vi.Essa cirurgia foi feita a tres anos em Brasília,durante a cirurgia ouvi o anestesista gritando que a minha pressão estava caindo muito e tiveram que fazer transfusão de sangue.Vi e ouvi muitas coisas e tudo de fato aconteceu.
    Luiza

  3. Deveriam fazer testes com estímulos no lobo temporal direito da seguinte forma:

    o médico estimula o paciente até que este diga que está fora do corpo observando o ambiente. Após isso, alguém apresenta algum objeto de forma que o paciente não consiga ver fisicamente. Se o paciente responder corretamente repetidas vezes (com objetos diferentes), seria algo a se pensar. O caso da Luiza acima, por exemplo. Ela relata que viu algo em seu braço esquerdo. Resta saber se ela reconheceu por si só que era um aparelho de pressão ou se ela viu que era apenas “algo” e depois alguém identificou para ela o que era. Porque se ela identificou apenas algo, pode ser o cérebro sentindo o toque no braço e interpretando como visão de algo. Porém se ela reconheceu que havia um aparelho de pressão em seu braço, sem que pudesse vê-lo, daria margem a que mais testes fossem feitos para comprovar de vez isso tudo. Na verdade, é isso que não entendo. Se é possível realizar esse tipo de teste, porque não se faz isso a fundo?

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