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Análise das fontes externas que mencionam Jesus

MARA BAR SERAPION (MARA BAR SERAPIÃO)

Quem é Mara Bar Serapion? Ao contrário do que se pode dizer a resposta é: Ninguém sabe ao certo. O que costuma-se espalhar por aí é que Mara Bar-Serapion era filho de alguém chamado Serapion (ou Serapião) — partícula "Bar" significa "filho de" e é daí que vem o termo bar mitzvah (no caso "filho da Lei"). –, tendo sido um filósofo estóico nascido na Síria. Alega-se ainda que ele era "amplamente conhecido em função de uma carta que teria escrito a seu filho", de acordo com Robert E. Voorst. Foi tão conhecido que pouca gente ouviu falar dele.

Ainda com respeito a esta carta, diz-se que é uma das primeiras referências não-judaica e não-cristã sobre Jesus, mas é estranho que ninguém fez referência a este documento, que só foi publicado pela primeira vez no século XIX por Willian Cureton, que acreditava que Mara Bar-Serapião era cristão sofrendo perseguição, opinião que os mais recentes acadêmicos rejeitam veementemente. Obviamente, um documento ser apresentado com ineditismo não é algo impossível, mas é estranho que não haja uma única menção a esta carta ou ao seu autor por nenhuma fonte encontrada até agora.

Temos, então, uma carta publicada apenas no século XIX e que não estava sozinha. Estava num códex chamado Spicilegium syriacum e estava escrito em siríaco (você pode ver o texto em inglês AQUI), juntamente com um texto de Melito, bispo da cidade de Sardis, e de Bardesan, um gnóstico assírio fundador da seita dos bardesanitas. Só que muito pouca gente se dedicou a este texto ou ao códex como um todo. Mas, o que significa estar num códex? A resposta é simples: antigamente escrevia-se em pergaminho (tirado de pele de ovelha e não era muito barato), mas a encadernação só apareceu muito depois. Eles eram colocados em rolos e envoltos com uma capa de couro, sendo comum agrupar textos e manuscritos em um único rolo, de forma que não se perdesse nenhum deles e poupar espaço. Que diabos aquela carta estava fazendo ali, já que o foco dela era uma espécie de mensagem motivacional para o filho de Bar-Serapion? Estava junto para não ser perdida, mas é estranho que não haja outros textos de Bar-Serapion. Estranho, mas não incomum. 99% das peças de Sófocles estão perdidas, assim como as obras de Aristarco entre outros sábios gregos. Assim, o dono original da carta de Bar-Serapion (muito possivelmente seu filho, a quem a carta era destinada) só deu importância a este documento do referido autor. Só este e mais nenhum, e nem sabemos direito quando foi que o original dela foi escrito, já que o manuscrito do referido códex tem a sua data em torno do segundo século da Era Comum, apesar de alegarem que a data original da carta de Bar-Serapion é de cerca de 73 E.C., pouquíssimo depois do primeiro evangelho (Marcos) ter sido publicado. Entretanto, no livro Centres of learning: learning and location in pre-modern Europe and the Near East, de Jan Willem Drijvers e Alasdair A. MacDonald, é dito na sua página 50:

Não sabemos nada sobre a aprendizagem e educação em Edessa, em tempos pré-cristãos. Deve, entretanto, ter havido escolas e professores, pelo menos, para a sociedade de classe superior e para os comerciantes, uma vez que Edessa era uma cidade importante ao longo da rota da seda para a Ásia e China. Os primeiros produtos literários escritos em siríaco datando por volta do segundo século da E.C., ponto além disso a uma tradição de alfabetização de longa data na área de Edessa, em que nada está preservado.

Obviamente, Mara Bar-Serapion não devia ser pobre, já que apenas os mais abastados tinham acesso à educação e alguns autores situam seu filho, também chamado de Serapião, como sendo o patriarca de Antióquia, o que estaria em perfeito acordo, já que este Serapião – bem documentado por Eusébio e Jerônimo (que muito mais tarde foi canonizado) – esteve no patriarcado entre 191 e 211 E.C. F. F. Bruce admitiu que a ideia que Bar-Serapion escrevera em 73 E.C. era incerta e que o texto poderia ser depois dessa data (não antes), mas ele mesmo admite que não sabia de quanto tempo depois é este documento. Fica a pergunta no ar: QUANDO e POR QUEM esta carta foi escrita? A única resposta honesta a ser dada é: ninguém sabe. Depois disso, resta analisar o que a carta traz de tão revelador sobre a existência de Jesus:

Que vantagem os atenienses ganharam ao condenar Sócrates à morte? A fome e a praga veio sobre eles como um julgamento por seus crimes1. Que vantagem que os homens de Samos ganharam com a queima de Pitágoras2? Em um momento a sua terra estava coberta de areia3. Que vantagem que os judeus ganhar com a execução de seu sábio rei4? Foi apenas depois disso que seu reino foi abolido. Deus vingou justamente esses três homens sábios: os atenienses morreram de fome, o povo de Samos ficou impressionado com o mar, os judeus, arruinados e expulsos de suas terras, vivem em completa dispersão. Mas Sócrates não morreu para o bem, ele viveu no ensino de Platão. Pitágoras não morreu para o bem, ele sobrevive na Estátua de Hera. Nem o sábio rei morreu para o bem, ele viveu no ensino que ele tinha dado.

Vamos relatar os erros:

  1. Que fome e pragas Atenas sofreu por ter matado Sócrates que, segundo se sabe, foi condenado à morte em 399 A.E.C.?
  2. Pitágoras foi morto na fogueira DESDE QUANDO? Que eu saiba, gregos queimavam os mortos já mortos e devidamente mortos, mas como parte de seu ritual fúnebre. Pitágoras morreu em Metaponto em aproximadamente 497 A.E.C, e não foi muito novinho, não. Sua seita foi considerada fora-da-lei, mas seus membros mantiveram entre si as suas práticas religiosas e atividades científicas. Sobre o destino do próprio Pitágoras, existem histórias variadas. Alguns dizem que ele morreu no templo com seus discípulos, outros que ele fugiu, primeiro para Tarento, e que, sendo expulsos de lá, ele fugiu para Metaponto, e passou fome até morrer. Mas com certeza não foi queimado que ele morreu.
  3. Levando em conta que o povo de Samos não teve nada a ver com a morte de Pitágoras, seja assassinado, de fome ou por causa de um marido ciumento, eles não sofreram nada, mesmo porque, não se tem notícia de Samos ter sido "coberto de areia".
  4. Deliciosa esta parte por ser de uma total prova que quem escreveu isso não leu os Evangelhos, pois eles depõem contra isso. Vejamos mais detidamente:

Marcos 15:2 — E Pilatos lhe perguntou: Tu és o Rei dos Judeus? E ele [Jesus], respondendo, disse-lhe: Tu o dizes.

Mateus 27:11 — E foi Jesus apresentado ao presidente, e o presidente o interrogou, dizendo: És tu o Rei dos Judeus? E disse-lhe Jesus: Tu o dizes.

João 18:33-37 — Tornou, pois, a entrar Pilatos na audiência, e chamou a Jesus, e disse-lhe: Tu és o Rei dos Judeus? Respondeu-lhe Jesus: Tu dizes isso de ti mesmo, ou disseram-to outros de mim? Pilatos respondeu: Porventura sou eu judeu? A tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-te a mim. Que fizeste? Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. Disse-lhe, pois, Pilatos: Logo tu és rei? Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.

Bom, Mateus e Marcos deixam claro que Jesus não responde a Pilatos. Só diz "Tu o dizes", como se Pilatos fosse o único a dizer que Jesus era rei, não ele. Em João, Jesus diz que o reino dele não é deste mundo; portanto, Israel não é o reino dele, e que ele só veio cumprir a missão de dar testemunho da Verdade. Outro ponto interessante é que os judeus não mataram ninguém. Judeus não davam um "A" sem consultar Roma. ROMA era quem mandava ali. Se Pilatos não quisesse, o pessoal do Sinédrio ficaria estrebuchando o quanto quisesse que nada aconteceria e duvido muito que haveria algum tipo de revolta judaica por causa de Jesus. Os romanos eram o poder constituído ali e não seria Herodes quem se importaria se um galileu tosco vivia ou morria, pois não houve sedição alguma, ninguém se levantou contra Roma (pelo contrário: Jesus, de acordo com o relato evangélico, disse que o povo tinha sim que pagar os tributos a Roma, pois "dai a César o que é de César"). Assim, do que diabos Mara Bar-Serapion estava falando? E que diabos Bar-Serapion quis dizer com Pitágoras vivendo na Estátua de Hera? Qual é o sentido de tudo isso, se é que algo pode fazer sentido aí?

O que acontece é que o texto não é original, estava amontoado com outros manuscritos, duvida-se da autenticidade de seu autor, não se sabe quando o original foi escrito e, como demonstrado, foi escrito por alguém totalmente ignorante em  História, já que não houve nenhuma praga digna de nota em Atenas, Pitágoras não foi queimado vivo, Samos não foi coberta de areia e se o povo judeu foi dispersado da Judeia não foi por causa de Jesus (já que a dispersão ocorreu décadas depois da morte de Jesus, mediante os evangelhos), que era ignorado pelos judeus e sim por causa destes terem se rebelado contra Roma, em especial Simão Bar Kochba. Se houve algum "sábio rei" entre os judeus, Bar-Kochba estaria mais em ter este título que Jesus, e Bar Kochba realmente foi assassinado, mas não pelos judeus.

Para finalizar, uma coisinha interessante: Melito, autor de um dos textos encontrados no Spicilegium syriacum foi autor de uma das homilias mais eloquentes do século II, segundo as palavras de Bart Ehrman, conforme é dito em seu livro "Evangelhos Perdidos" (página 221). Segundo Ehrman, Melito viveu na cidade de Sardes, Ásia Menor, e cujo texto descrevia a Páscoa descrita no livro de Êxodo como sendo tipicamente figurativa. Para Melito, Jesus era o cordeiro pascal, rejeitado e sacrificado pelo seu próprio povo. Para Melito, Jesus não era bem o filho de Deus, mas "O" Deus e isso implicava numa culpa terrível para o povo de Israel, já que este matara o seu próprio  Deus e os judeus que ainda rejeitam Jesus são culpáveis por este ato hediondo.

Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • Bocejo. Vai lá ler Um Judeu Marginal (já tá no 3º Volume. tem muito pra vc ler) e depois volta aqui, sim.

    Mas antes, leia a Bíblia. Principalmente Mateus cap. 5, que diz que você não pode me xingar, mas tentar ser meu amigo e oferecer a outra face cada vez que lhe ofenderem. Ah, sim, no cap. 6 diz que quem reza em igrejas é hipócrita. 😉

    Crentinho retardadinho

  • Edrua Los

    Poderia pelo menos responder a essa questão?

    Pryderi respondeu:

    Luciano de Samosata falar que existem cristãos significa tanto que Jesus existiu como Comic Con prova que o Super-Homem existe.