O dióxido de carbono, vulgarmente conhecido como gás carbônico ou, não tão de modo vulgar, CO2) é um dos principais vilões de hoje. Antes eram as bruxas, depois, os comunistas. Hoje, a culpa de tudo recai sobre o coitado do dióxido de carbono, com vistas de dizimarem-no, aniquilarem-no e jogarem pedra na Geni no dióxido de carbono. Aquele que um dia foi o herói do planeta, pois ajudou a nos retirar de uma imensa era glacial, hoje é tido como feio, bobo, chato e só não o mandam ser queimado na fogueira, pois fogueiras exalam mais dióxido de carbono.
Hoje, há planos de sequestrar o carbono (quando falam "carbono", os idiotas querem na verdade falar dióxido de carbono. Eu gostaria muito de sequestrar carbonos para mm, de preferência as variedades alotrópicas com retículo cristalino no formato tetraédrico). Acham que ele é tão criminoso que merece estar confinado numa penitenciária de segurança máxima. Mas o tiro pode sair pela culatra.
Alguns idiotas que não entenderam ainda como o planeta funciona acham que é simples resolver a questão. Pega-se o carbono, diz-se "teje preso", algema-se o meliante e leve o distinto para as profundas. Brilhante, não? Esta técnica chama-se Captura e Armazenamento de Carbono (Carbon Capture and Storage — CCS), e pode parecer lindo, mas só parece. O mundo não é como gostaríamos que fosse, mas alguns espertinhos acham que podem dar um balão na Mãe Natureza.
Em março de 1984, o planeta ainda não tinha recebido a patente de capitão, mas já mostrava que não estava pra brincadeira. Num evento que foi tido como um verdadeiro desastre, várias pessoas e animais conheceram a morte invisível, inodora e insípida. às 11 e meia da noite, os moradores nas imediações do lago Monoun, na República dos Camarões, sentiram o que parecia se r um terremoto. Os relatos são confusos, pois nessa hora da noite, pouca gente anda com a atenção a pleno vapor, prestando atenção a tudo que se passa. O manto da morte espalhou-se por uma região baixa, sob a forma de uma neblina esbranquiçada. Tudo naquele local, entre pessoas, animais e plantas morreram de forma trágica, pois toda morte é uma tragédia. Quem viu e sobreviveu deu seu depoimento, mas as pessoas ficavam confusas e relatavam coisas diferentes, de diferentes maneiras. O que se determinou foi que as pessoas e os animais morreram por sufocamento.
O Lago Monoun está perto do centro de uma região com atividade vulcânica, incluindo pelo menos 34 crateras recentes, e há evidências de que a atividade eruptiva ocorreu recentemente, da mesma maneira como aconteceu há alguns séculos. A atividade ainda não cessou. A química do lago nada tem de especial e a melhor teoria proposta é que o dióxido de carbono preso no interior das rochas, sob a forma de carbonato, que já estava em equilíbrio com a água, pois carbonatos são insolúveis (ou muito pouco solúveis). Entretanto, basta aquecer qualquer carbonato para que este exale CO2. Este CO2 alterará o equilíbrio químico da água, fazendo com o que as rochas calcárias se desfaçam, oque acabará gerando mais dióxido de carbono. Em outras palavras, a morte invisível foi exalada do lago e se difundiu pela região.
Ei, espere um instante! Por que ele não subiu como qualquer gás?
Não existe isso de todos os gases subirem. Eles podem subir, mas isso não é uma regra. Sendo o CO2 mais denso que o ar, ele fica "no chão", digamos assim. Isso pode ser ilustrado pelos experimentos abaixo. É produzido gás carbônico ao reagir vinagre com bicarbonato, desses que você compra no mercado e que cozinheiras preguiçosas insistem em achar que isso faz a comida cozinhar melhor e mais rápido.
Como o gás carbônico é invisível, não o vemos ali, mas ele está. Ele não é venenoso, mas como é mais denso (ou "pesado", como costumam dizer) que o ar, ele o expulsa do local, pois dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Esta é a base dos extintores de incêndio de CO2. Assim, as plantas, pessoas e demais animais simplesmente morrem, pois não há oxigênio para respirarem. Plantas não respiram CO2, apesar do que tia Teteca falou no primário. Elas usam o gás carbono durante a fotossíntese, mas a fotossíntese acontece concomitantemente com a respiração.
Em 12 de agosto de 1986, a região do Lago Nyos, também na República dos Camarões, foi a bola 7 na caçapa do canto. Estima-se que 1 km³ de gás carbônico escapou e resultou na morte de mais de 1.700 pessoas. Se você está pensando "quanto , diabos, é 1 km³", eu lhe respondo fácil. 1 m³ é o equivalente a mil litros. 1 km = 1000 m; logo, 1 km³ = 1000³ m³ ; 1000³ x 10³ litros = 1012 litros. Fiz seu dia ser mais feliz? Porque Nyos não deixou ninguém feliz naquele dia. Nem mesmo os que conseguiram se salvar.
Não se esqueçam que a Natureza é ética e perfeita, feitinha pros humanos desfrutarem a vida, ok?
Mas não entendi uma coisa. Então, como o gás carbono pode ser um gás de efeito estufa, se ele é pesado demais para estar na atmosfera?
Bem, você pode pensar que a água em forma líquida também é pesada demais para estar "flutuando" nos céus amigos da United. Só que as nuvens, praticamente, são formadas por água no estado líquido (ok, não é beeeeem isso, mas mesmo assim é mais pesada que o ar). Os gases sofrem difusão, onde suas moléculas meio que "passeiam" ou por placas porosas ou por entre outros gases. Thomas Graham estudos a difusão e efusão dos gases, e eu só não fiz um artigo sobre ele porque o pessoal competentíssimo da Wikipédia chegou primeiro.
Estes dois exemplo supracitados ilustram minha opinião sobre esta besteira de "sequestro de CO2". Qualquer hora, algum evento catastrófico (e na história da Terra é coisa que não falta) vai deitar tudo isso a perder, fazendo a emenda ficar pior que o soneto.
Jennifer Roberts é doutoranda da Faculdade de Geociências da Universidade de Edimburgo. Sua pesquisa estuda a migração de CO2 para a superfície, correlacionando os reservatórios de gás carbônico naturais com o que a Itália está fazendo. Na pesquisa publicada no periódico PNAS, a doce miss Roberts (que sabe como ninguém meter a mão num buraco) estuda os riscos previstos em criar os reservatórios para CCS. Para ela, o risco ainda é baixo, mas depois dos exemplos ocorridos na República dos Camarões eu ainda acho um risco meio perigoso, apesar do festival de números estatísticos usados para justificar aquilo.
Como nada é tão ruim que não se pode piorar, as emanações vulcânicas da Itália contém sulfeto de hidrogênio (H2S), que é corrosivo, irritante e pode ser oxidado seguidamente até obter-se ácido sulfúrico. Em companhia do CO2, seu lindo dia em Toscana pode não ter final feliz, e você ter uma morte tosca (mas não tão tosca quanto este trocadilho idiota). Assim, ao meu ver, a chamada "técnica CCS" está mais para uma operação criada por uma faxineira preguiçosa, que varre o lixo para debaixo do tapete. A diferença é que o tapete não explode jogando a poeira para tudo que é lugar quando você menos espera.
O site do Istituto Nazionale di Geofisica e Vulcanologia (você entendeu, não enche!) possui um site que visa mapear e identificar áreas sujeitas a emanações de gases. Vale a pena dar uma passada lá.

Interessante o fato da pesquisa dela também ajudar a reconhecer padrões de vazamento e pontos de falha em sistemas. Dependendo do local aonde sejam instaladas essas contenções de CO2, pode ser de grande ajuda.
Carbonos com retículo cristalino no formato tetraédrico, quem não gosta? Tiffany & Co. que o diga.
CurtirCurtir
@Mari., eu também queria carbonos com retículo cristalino no formato tetraédrico, mas para trocar por um maço de papéis com o retrato do Fukuzawa Yukichi. :mrgreen: Raramente tenho um desses na minha carteira. :|
CurtirCurtir
A extração de hidrato de metano não pode levar a um risco semelhante? Logo vemos que o mundo tem muitos perigos escondidos.
CurtirCurtir