
Toda catástrofe tem dois enredos. O primeiro acontece nas ruas, com o vento, a destruição, as mortes e gente fugindo. O segundo vem depois, nas conversas, quando os sobreviventes precisam explicar o inexplicável e a explicação simples (fomos descuidados) perde para a confortável (foi um azar sobrenatural). O Grande Incêndio de Meireki, que arrasou Edo em 1657, permite ver os dois, lado a lado: o desastre real, que matou dezenas de milhares de pessoas, e a lenda do quimono amaldiçoado, que lhe deu uma protagonista e uma moral. A lenda é mais famosa. O que aconteceu de verdade é mais interessante.
Tudo começa com o Japão… que não existia no século XVI. Não como você entende “Japão”. Em 1590, Edo era pouco mais que um vilarejo e um castelo modesto, até a chegada de Tokugawa Ieyasu. Em 1603, quando ele se tornou xogum, o lugar virou a capital de fato do poder militar daquilo que você chama “Japão”, e cresceu na velocidade de quem tem pressa e orçamento, mas nenhum plano. O crescimento ganhou um empurrão com o sankin-kōtai, sistema que obrigava os daimiôs a passar temporadas regulares em Edo e a deixar suas famílias por lá. Vieram mansões, samurais, serviçais, comerciantes, artesãos e uma multidão para vender de tudo a todos, espremidos em ruas estreitas, entre casas de madeira, papel, bambu e palha.
Em termos de segurança contra incêndios, Edo era uma loja de fogos de artifício funcionando dentro de um paiol. Os moradores sabiam. Dizia-se que “incêndios e brigas são as flores de Edo”, frase que só uma cidade com generosa tolerância ao caos transformaria em orgulho local. Mas o fogo de 1657 passou de qualquer escala conhecida.
O fogo
Segundo o relato mais famoso do episódio, o Musashi abumi, de Asai Ryōi, a cidade vinha de mais de oitenta dias seguidos sem chuva. Madeira seca, papel seco, palha seca. Faltava o vento, e ele veio: rajadas do noroeste, de força quase furacão. Mas tudo bem enquanto não tiver nada que inicie o fogo, certo? O problema do incêndio um lugar repleto de madeira e palha seca é que ele vai acontecer uma hora ou outra; e ele chegou alegre e saltitante entre os dias 18 e 20 do primeiro mês do terceiro ano da era Meireki, ou 2 a 4 de março de 1657 no nosso calendário.
Na verdade, foram três incêndios em sequência. O primeiro, o que deu nome ao desastre, partiu da região do templo Honmyō-ji, em Hongō, ao norte da cidade. Na manhã seguinte, um segundo começou em Koishikawa, não longe dali, e ao fim da tarde surgiu um terceiro, em Kōjimachi, a oeste do castelo. Com o vento mudando de noroeste para oeste, o último queimou boa parte do sul da cidade. As ruas estreitas, que facilitavam o cotidiano, viraram armadilhas.
O pânico fez o resto: gente tentando atravessar pontes e portões ao mesmo tempo, multidões se pisoteando, outras se atirando nos fossos e no rio Sumida. Muitas mortes foram por sufocamento, pisoteio e afogamento, mais que por queimadura.
Ao fim, algo entre 60% e 70% da cidade estava destruído, com centenas de templos, santuários, mansões de daimiôs e bairros inteiros de comerciantes e artesãos. O número de mortos costuma ser fixado em torno de 100 mil, com registros que chegam a 107 mil, embora as estimativas variem bastante. O castelo foi gravemente atingido, e o tenshu, a torre principal, a mais alta já erguida no Japão, foi destruído e nunca mais reconstruído. Em escala, o Meireki costuma ser posto ao lado do Grande Terremoto de Kantō, em1923, e dos bombardeios de Tóquio na Segunda Guerra Mundial.
Um relato com cara de conto
O Musashi abumi é a narrativa de referência, e vale conhecer como ela foi feita. Publicado em 1661, é uma obra ilustrada em estilo de conto popular: um monge chamado Rakusai, que perdeu a família no incêndio, reencontra um conhecido de sua terra e lhe conta o que viu. Tem cenas célebres, como o caos no portão de Asakusa, o impasse entre prisioneiros desesperados e carcereiros sem saber se os soltavam e até as primeiras carroças de combate ao fogo, tudo acompanhado de gravuras.
Há um detalhe que um cético profissional como eu não pode deixar passar. Segundo a tese de Michael Levine, Asai Ryōi se estabeleceu em Kyoto e já escrevia para editores de lá no fim da década de 1650, e seus leitores provavelmente não tinham vivido o fogo nem moravam em Edo. Ou seja, é muito provável que o autor tenha trabalhado com relatos de terceiros, o que não tira o valor da obra, claro, mas mostra que mesmo a fonte mais próxima dos fatos já é uma narrativa construída. Os holandeses presentes em Edo também deixaram relatos, que a historiadora Matsukata Fuyuko usou para cotejar a versão japonesa. Quando fontes de culturas diferentes concordam sobre a dimensão da catástrofe, o historiador respira aliviado.
Mas e a história do quimono?
A lenda conhecida como Furisode no kaji, o “incêndio do furisode” conta a história trágica de três moças. Furisode é o quimono mais formal, possuindo mangas longas e usado por moças solteiras. O quimono (deveria chamar de “furisode”, mas vou chamar de quimono mesmo, apesar de ser genérico) em questão passou por três meninas de cerca de 16 ou 17 anos (para a época, elas já estavam bem idosas).

A primeira teria encomendado o dito cujo depois de ver, por um instante, um rapaz por quem se apaixonou à primeira vista, e quis a estampa igual à que ele vestia. Nunca mais o viu e morreu de desgosto. O quimono foi vendido ou doado (dependendo da versão do relato), e a segunda dona também morreu no mesmo dia do ano, segundo a lenda. A terceira moça teve o mesmo destino.
Que outra conclusão se poderia ter se não que o furisode/quimono/roupa estava amaldiçoado? Não havia muito o que fazer, então, levaram a peça ao Honmyō-ji para um ritual de purificação pelo fogo. Na hora da queima, uma rajada de vendo levantou o quimono em chamas e o lançou ao telhado do templo. O templo pegou fogo, e dele a cidade inteira. Os espíritos malignos estavam realmente querendo dar um fim em tudo e em todos usando aquele quimono!
As descrições do quimono infernal variam com as versões. Uma hora o quimono é roxo em outras versões, é vermelho com uma garça em outras. A primeira menina, segundo a tradição atribuída ao Kibun-Daijin, livro de histórias do período Edo, teria nome, O-Samé, apelidada de Azabu-Komachi, e seria filha de um comerciante de saquê de Azabu. Mas isso depende da fonte da versão; e sim, eu sei que é confuso, mas depois que tudo virou cinzas, só restou o relato do relato do relato de alguém que recontou as histórias, mas efetivamente não escreveu nada.
Como uma lenda nasce
História virou lenda, lenda virou mito e o mito virou tradição. A rigor, o trágico quimono não aparece no Musashi abumi, mas isso não prova que a história não circulasse oralmente, apenas mostra que o relato de referência não precisou dela. A forma popular parece ter se consolidado depois, no universo das histórias de fantasmas de Edo, nas quais roupas e objetos ligados a mortos eram tema recorrente.
A lenda chegou ao Ocidente pela pena de Lafcadio Hearn, que a recontou em In Ghostly Japan (escrito em 1899). Na versão dele, um sacerdote manda queimar a roupa, e letras de fogo, os caracteres da invocação budista, saltam do tecido para o telhado do templo. Hearn data o incêndio em 1655, “primeiro ano de Meireki”, quando o certo é 1657, o terceiro da era.
Dois anos de erro numa história que diz contar um fato histórico dão uma boa medida de como uma lenda perde precisão e ganha beleza a cada recontagem. No início do século XX ela ainda rendia arte, como mostra o painel Furisode monogatari, de Yamakawa Shūhō.
No fim, tudo é política
Resta a questão da origem do fogo, e aqui a lenda ganha um sentido político. Segundo uma tradição, o incêndio teria começado por acidente na casa vizinha de Abe Tadaaki, poderoso conselheiro do jovem xogum Ietsuna. Nessa versão, que a enciclopédia EBSCO diz ter respaldo em registros do próprio Honmyō-ji, as autoridades teriam pressionado o clero a assumir publicamente a culpa, para evitar que o desastre fosse associado ao conselheiro. Convém registrar a ressalva: os registros vêm do templo, parte interessada, e há quem trate a hipótese como indemonstrável. Mas ela ajuda a entender a utilidade da lenda. Um quimono amaldiçoado é um réu excelente: não tem sobrenome, cargo, advogado nem obrigação de depor.
O depois, e um mito dentro do mito
O xogunato reagiu com rapidez para os padrões da época, distribuindo arroz e dinheiro aos desabrigados, e a reconstrução levou cerca de dois anos. A versão clássica diz que o desastre funcionou como uma reforma urbana forçada: ruas alargadas, aceiros ao redor do castelo, templos transferidos para as margens dos rios, novas regras de prevenção. Segundo a tradição, o regente Hoshina Masayuki teria defendido que reconstruir a torre era luxo em tempos de paz e que o dinheiro serviria melhor ao povo.
Pesquisadores como Iwamoto Kaoru, em Meireki no taika: “toshi kaizō” to iu shinwa, questionam a própria imagem do grande plano de reforma urbana, tratando-a como mito que a historiografia ajudou a construir, em parte pelo peso do Musashi abumi como fonte. Edo mudou depois do fogo, mas de que forma e em que medida continua em debate.
A resposta sóbria: o Ekō-in
Se a lenda é espetacular, a resposta institucional foi bem mais discreta. Por vontade do xogum Ietsuna, ergueu-se em 1657 o templo Ekō-in, em Ryōgoku, à margem do Sumida, para enterrar e rezar pelas vítimas, muitas delas sem parentes que as reclamassem. Com o tempo, passou a acolher outras almas sem família, como vítimas de terremotos e incêndios posteriores, condenados executados e até animais. O Ekō-in ainda existe, e nele não há quimono em chamas, só a memória organizada de uma cidade que precisou enterrar milhares de desconhecidos.
O que o mito implica
A história do quimono faz, em pequena escala, o que as lendas de desastre costumam fazer.
a) Dá rosto ao acaso – Vento, seca e madeira formam uma explicação estatística. Um quimono amaldiçoado é uma explicação com personagem, e o cérebro humano lembra melhor de personagens do que de condições estruturais.
b) Redistribui a culpa – Se foi maldição, ninguém falhou: nem o urbanismo improvisado, nem as casas coladas, nem a falta de aceiros, nem as autoridades.
c) Dá sentido moral – Três meninas mortas, um amor impossível e um ritual que sai pela culatra convertem uma tragédia sem propósito em história com lição. O padrão é velho. Depois do terremoto de Lisboa, em 1755, a Europa debateu se aquilo era castigo divino, e a vaca da senhora O’Leary, a quem se atribuiu o incêndio de Chicago de 1871, cumpriu função parecida (a história, aliás, teria sido inventada por um repórter).
Resta uma ironia. O quimono sobrevive há mais de três séculos como explicação favorita, enquanto as causas reais, vento, seca, madeira e falta de planejamento, ficam em segundo plano porque são menos fotogênicas. Aceitar a explicação ordinária tem um custo que a lenda não cobra: exige reforma, fiscalização, orçamento e a humildade de admitir que a tragédia era, em boa parte, evitável.
Por fim, o fim
O Honmyō-ji foi reconstruído e hoje fica na região de Sugamo, em Tóquio, onde mantém um monumento às vítimas do incêndio. A lenda continua boa, e eu gosto dela. Mas a história que merece ser lembrada é a outra, sem fantasmas: uma cidade grande demais, de madeira demais, com pressa demais e chuva de menos. Isso explica o fogo, e tem a vantagem de se aplicar ao nosso tempo, o que nenhum quimono amaldiçoado jamais será.
