
Em 26 de abril de 1986, o reator 4 da usina de Chernobyl explodiu e inaugurou o maior pesadelo civil da história nuclear. Quarenta anos depois, a Zona de Exclusão segue lá, com seus lobos, suas florestas improváveis, seus turistas de nervos de aço e uma pergunta que não sai de cena: o que aconteceu com a sujeira radioativa que ficou pelo caminho? Ela não evaporou, não pediu demissão e não foi embora junto com a Guerra Fria. Virou poeira. Uma poeira de péssimo humor.
Pois um grupo de cientistas resolveu fazer o que ninguém parecia ter feito direito: pegar pedacinhos desse pó, colocá-los diante de um dos feixes de raios X mais refinados do planeta e perguntar a cada um, em cristalografês fluente, quem são e o que andaram fazendo da vida desde 1986. A resposta surpreendeu, e não no sentido de festa de aniversário.
Tobias Weissenborn é doutorando na Universidade Leibniz de Hannover e estagiário de luxo do dr. Helmholtz-Zentrum Dresden-Rossendorf, pesquisador do Instituto de Ecologia de Recursos e na linha de luz de Rossendorf, instalada no Síncrotron Europeu (ESRF). Já que o Tobias não foi digno a merecer uma página na instituição, só de raiva não colocarei o link do PhDeus. Tobby que foi responsável pela pesquisa, como sempre, mas se não der co-autoria pro orientador, dá ruim
Comecemos pelo problema. As protagonistas são as chamadas partículas quentes, grãos de 8 a 50 micrômetros, menores que um fio de cabelo e ainda altamente radioativos, a ponto de entrar nas áreas afetadas continuar exigindo roupa de proteção. Elas se dividem em três classes: a primeira reúne grãos que ainda lembram, química e fisicamente, o combustível original, o dióxido de urânio.
A segunda nasceu do inferno térmico dentro do reator: o combustível derreteu e se misturou ao zircônio, o metal resistente que revestia as varetas, e as partículas surgem parcialmente envolvidas por essa camada ou totalmente fundidas a ela (primas microscópicas e distantes do célebre “pé de elefante” que a série da HBO imortalizou).
A terceira classe é filha do incêndio. Em operação normal, o moderador de grafite freia nêutrons rápidos e ajuda a manter a reação em cadeia. Naquela noite, ele pegou fogo e queimou por dez dias, e nesse processo o combustível oxidou e virou diversos óxidos de urânio, como o U3O8. Esse material é mecanicamente frágil, esfarela em fragmentos minúsculos e viaja com o vento. Inalar o resultado, convenhamos, não figura entre as melhores ideias da medicina preventiva.
O curioso é que, mesmo depois de décadas de estudos, ninguém entende bem por que essas partículas se degradam em velocidades tão diferentes. Ao sofrer intemperismo, elas geram várias formas de óxido de urânio, o que torna o comportamento de longo prazo um quebra-cabeça. Para investigá-lo, foi preciso apelar para a difração de raios X por radiação síncrotron, técnica que revela como os átomos se organizam dentro de materiais cristalinos.

Hennig realizou, em Grenoble, a primeira análise estrutural bem-sucedida de fragmentos radioativos desse tipo. Seis partículas, isoladas de solo ucraniano pelos colegas de Hannover e fixadas em eletrodos de tungstênio, viajaram embrulhadas em várias camadas de contenção. Lá, giraram por completo num feixe focado em 100 micrômetros (a espessura de um cabelo humano) e foram medidas a partir de 2 mil ângulos diferentes, uma sessão de fotos que faria inveja a qualquer influenciador, só que com urânio.
O resultado: depois de quatro décadas ao relento, o combustível nuclear dentro das seis partículas conservava boa parte da estrutura cristalina original. Ou seja, ao menos parte dos detritos de Chernobyl é quimicamente mais estável do que se imaginava, e pode reter produtos de fissão em sua estrutura em vez de despejá-los depressa no ambiente. Se isso valer de forma mais ampla, ajudaria a frear a migração de contaminantes para solo e água.
Mas ninguém aqui está autorizado a abrir o champanhe. Cada partícula tem uma estrutura diferente, e o experimento examinou apenas seis, de dois locais. Mesmo com muito mais dados, sempre haverá partículas atípicas e mais persistentes, que liberarão radionuclídeos mais tarde, o que impede afirmações universais sobre riscos à saúde. Em outras palavras, as restrições à Zona de Exclusão não saem de cena tão cedo. Weissenborn e Hennig já investigam as fases transurânicas, ainda mais radioativas, que restam nos escombros.
Por fim, resta dizer que o monstro de Chernobyl talvez seja menos furioso do que parecia, mas continua sendo um monstro. Só que agora sabemos, com precisão cristalográfica, que ele envelhece em silêncio e com um gosto duvidoso pelo imprevisível.
A pesquisa foi publicada no periódico Journal of Hazardous Materials.
