Chuck Norris baiano de 98 anos passou o cerol num Zé de 34 anos. É Gen X nas cabeças!

Existe um tipo específico de notícia que faz a gente parar o café na metade do gole, encarar o parágrafo de novo e sussurrar “espera… MAS HEIN?”, depois levanta a cabeça lentamente e olha para o vazio da cozinha. A de hoje é dessas: um homem já entrado em idade acaba de ser condenado por matar um homem de 34. Não, não é piada de novela mexicana ou alguma série dramática turca no Netflix. É uma legítima crônica vinda da Bahia, com cheirinho de sarapatel exalando da tela do seu dispositivo. Vem saída fresquinha do Tribunal de Justiça, e recheada com tantos plot twists que você vai ficar tonto.

Sim, um homem matou outro, e cinco anos depois, foi condenado. Este assassino é um senhor de 103 anos e quando perpetrou o crime tinha 98. NOVENTA E OITO!!!! Deixem isso afundar lentamente na sua mente enquanto eu digo: ESTA É A SUA SEXTA INSANA!!

Emiliano Melo dos Santos é meganha aposentado, o tipo de informação que seria óbvia, a menos que ter centenários na força policial baiana seja corriqueiro. Seu Santos mora no bairro Dois de Julho, em Salvador, e é, presumo, o tipo de vizinho que ninguém ousa provocar, mesmo tendo idade para ser bisavô de qualquer um na rua. Bolas não devem cair lá e nada de pipa caindo no telhado dele.

Em agosto de 2021, quando ainda era um jovencito de tenros 98 anos, ele ouve um arranca-rabo rolando nas proximidades de casa e, em vez de fazer o que qualquer nonagenário razoável faria (fechar a janela, aumentar o volume da novela e deixar o mundo se resolver sozinho), decidiu se meter. Só que ele não foi na mão.

A disputa não estava equilibrada. Welton Lopes Costa tinha saudáveis 34 anos, boa aparência e condição física, e pronto para sentar a mão em qualquer intrometido. Problema que Seu Santos foi trepado com um trezoitão, e como sabemos: 38 > 34. Aconteceu o óbvio, Welton tomou um pombo sem asa, passou dessa pra melhor e a companheira dele, Jeniffer Carvalho dos Santos, ficou ferida. Welton se ferrou na mão de um biso que já tinha visto uma guerra mundial, revoltas, o Brasil ser penta, o 7 a 1, vários planos econômicos e uma pandemia.

Se isso fosse aposta em cassino, ninguém teria coragem de apostar contra o Seu Santos, e olha que estamos falando de uma discussão banal de rua, não de um ringue de kickboxing. Só que os Gen Z surgiram de um pote de Nutella mofado, e o Gen X foi forjado no ódio no interior da Montanha de Sauron.

A Justiça brasileira, generosa como sempre com o conceito de tempo, levou mais de cinco anos para fechar essa história. O primeiro julgamento aconteceu em 2023, e o resultado foi… absolvição. Sim, pois é! O Tribunal do Júri mandou Seu Santos para casa como quem diz “segue em frente, meu bom”. O Ministério Público, num daqueles raros momentos de teimosia institucional que na verdade funciona, recorreu, e o TJBA determinou novo julgamento.

Na quinta-feira (24/09), no Fórum Ruy Barbosa, 8 testemunhas depuseram, o réu foi interrogado (aos CENTO E TRÊS ANOS, repito, para quem ainda não processou o número), e dessa vez os jurados entenderam que não havia legítima defesa nenhuma, e sim homicídio qualificado, já que o recurso usado impediu qualquer reação da vítima, o que eu concordo plenamente. Acho, SÓ ACHO, que um biso de 98 anos não ia querer que um Gen Z agisse primeiro.

A acusação de lesão corporal contra a mulher ferida já tinha prescrito, porque, aparentemente, até o sistema de Justiça se cansa de esperar antes de alguns processos chegarem ao fim.

A pena, de 4 anos, 10 meses e 19 dias, seria cumprida em regime semiaberto, mas a idade avançada e o estado de saúde do condenado garantiram prisão domiciliar humanitária. Ou seja: o homem foi considerado capaz o bastante, aos 98 anos, para efetuar disparos com pontaria letal em uma confusão alheia, mas frágil demais, aos 103, para dividir cela com alguém. Eu acho mesmo é que preferiram proteger os outros presidiários do biso Kickboxer.

FIKA DIKA

Não subestime ninguém pela carteira de identidade. A expectativa de vida no Brasil pode não ser lá essas coisas, mas aparentemente a expectativa de reflexo, sim, existe quem desafie a estatística com um revólver na mão. E se você, na casa dos trinta, acha que tem tempo de sobra para resolver seus problemas com calma, talvez reconsidere: em algum lugar, sempre vai existir um vizinho de mais de cem anos dispensando paciência e primeiros socorros à sua expectativa de vida.


Fonte: Tabloide Pão de Queijo

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