A história da poluição gravada em fios de cabelo

Se você acha que guardar mechas de cabelo de família em álbuns antigos é apenas coisa de gente sentimental, pense duas vezes. Essas relíquias foliculares são, na verdade, arquivos químicos ambulantes, capazes de contar uma história muito mais sinistra do que qualquer foto sépia: a saga da contaminação por chumbo nos EUA ao longo do último século. E spoiler, não é uma história bonita, embora tenha um final surpreendentemente otimista para quem ainda acredita que regulamentação ambiental serve para alguma coisa.

Antes de 1970, quando a Agência de Proteção Ambiental americana (EPA) sequer existia, viver nos EUA era basicamente como residir num experimento toxicológico a céu aberto. O chumbo estava por toda parte: nas fábricas, na tinta das paredes, nos canos de água e, principalmente, saindo dos escapamentos dos carros em forma de fumaça carregada de tetraetilchumbo, aquele aditivo mágico que evitava o “batimento” dos pistões e fazia os motores ronronarem felizes. O problema é que, enquanto os motores celebravam, os cérebros humanos (especialmente os infantis) sofriam danos permanentes. O chumbo é daqueles metais pesados que se acumulam no corpo ao longo do tempo e já foram associados a problemas de aprendizado, desenvolvimento e um monte de outras coisas desagradáveis que ninguém quer ter.

O dr. Thure Cerling é químico (com ele a oração e a paz) e professor emérito de Geologia e Biologia na Universidade de Utah, onde desenvolveu métodos inovadores para analisar a química de cabelos e dentes a fim de determinar padrões de alimentação, mobilidade e exposição ambiental em animais e humanos. Ao longo de sua carreira, Cerling se especializou em geoquímica de isótopos estáveis e sua aplicação em estudos paleoambientais, ecologia e saúde pública.

Ao analisar as concentrações de chumbo nos fios de cabelo das pessoas, ficou demonstrado uma queda vertiginosa nos níveis de chumbo encontrados em amostras de cabelo humano depois que as regulações ambientais entraram em vigor. De posse de amostras que cobrem cerca de 100 anos, Cerling e seu pessoal descobriram que os níveis de chumbo eram cerca de 100 vezes maiores do que depois delas.

O estudo veio a partir de uma pesquisa anterior sobre saúde familiar que já vinha coletando amostras de sangue de residentes de Utah. Mas aí alguém teve a brilhante ideia de pedir também amostras de cabelo, não só da vida adulta dos participantes, mas também de épocas anteriores. E como Utah é um lugar onde as pessoas levam muito a sério a preservação da história familiar, alguns voluntários foram lá nos álbuns e resgataram mechas de até um século atrás. No total, 48 pessoas contribuíram com seus arquivos capilares, criando um registro precioso da exposição ao chumbo ao longo da Frente Wasatch, uma região que, no século 20, foi lar de uma indústria pesada de fundição de metais, especialmente em Midvale e Murray.

O que torna o cabelo tão especial como arquivo químico? Bem, a superfície do cabelo tem uma habilidade quase mágica de concentrar e acumular certos elementos. O chumbo é um desses elementos. Isso facilita porque o chumbo não se perde com o tempo. E como a espectrometria de massa é extremamente sensível, dá para fazer a análise com um único fio de cabelo.

Claro, exames de sangue ainda são mais precisos para medir a exposição em um momento específico. Mas o cabelo tem uma vantagem imbatível: você pode guardá-lo por décadas (ou séculos, se for o caso), tornando possível estudar a exposição de pessoas que já não estão mais vivas ou que eram crianças há muito tempo. Ele não registra realmente aquela concentração interna no sangue que seu cérebro está vendo, mas te diz sobre a exposição ambiental geral.

A queda nos níveis de chumbo nos cabelos espelha com precisão quase poética a redução do chumbo na gasolina após a criação da EPA sob o governo de Richard Nixon. Antes de 1970, a gasolina tinha cerca de 0,58g/L. Pode parecer pouco, mas quando você multiplica isso por bilhões de galões queimados todo ano, o resultado era quase 1 quilo de chumbo jogado no ambiente por pessoa anualmente. É uma quantidade enorme de chumbo sendo colocada no meio ambiente, e bem localmente. Sai do escapamento, sobe no ar e depois desce. Fica no ar por vários dias, especialmente durante as inversões térmicas que temos, e é absorvido pelo seu cabelo, você respira e vai para os pulmões.

Depois dos anos 1970, mesmo com o uso de gasolina continuando a crescer, os níveis de chumbo nos cabelos despencaram. As concentrações caíram de até 100 partes por milhão (ppm) para cerca de 10 ppm em 1990. Em 2024, a média estava abaixo de 1 ppm. É o tipo de vitória ambiental que deveria ser celebrada em outdoors gigantes, mas que costuma passar despercebida no noticiário.

O cabelo, ao que tudo indica, não mente. Ele guarda em seus fios uma verdade química irrefutável: regulação ambiental funciona. E talvez, só talvez, valha a pena manter aquelas mechas de cabelo de família. Não só pela nostalgia, mas porque um dia elas podem servir de prova de que, sim, fizemos algo certo.

A pesquisa foi publicada na PNAS.

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