Ali Pasha: a corajosa tartaruga que lutou na Primeira Guerra Mundial

O soldado destemido tinha medo; e isso não é nada demais, pois, só os covardes alegam que não sentem as garras geladas do pavor em meio aos horrores da guerra…. de qualquer uma delas, pois guerras, guerras nunca mudam. Em meio aos tiros, bombas, cheiro de morte e destruição, o soldado encontra alguém tão perdido quanto ele. A diferença é que aquela alma ali não estava lutando para nenhum dos lados. Apenas foi pega em meio ao combate.

Isso aconteceu bem na Campanha de Gallipoli (1915-1916), uma das mais sangrentas operações militares da Primeira Guerra Mundial, e dali emergiu uma história extraordinária de companheirismo improvável entre um jovem marinheiro britânico e uma tartaruga. Esta é a história de Ali Pasha, que se tornaria o veterano de guerra mais inusitado da história britânica.

Henry Friston nasceu em uma época de grandes transformações sociais na Inglaterra eduardiana. Como muitos jovens da classe trabalhadora de sua geração, Henry deixou o pouco de educação formal que tinha aos 13 anos, uma prática comum no início do século XX, quando a escolarização obrigatória ainda não se estendia além dessa idade para muitas famílias. Seu sonho de explorar o mundo, alimentado pelos mapas da sala de aula, refletia o espírito aventureiro da época, quando o Império Britânico estava no auge de sua expansão global.

Seu primeiro ano como jardineiro representava uma das poucas opções profissionais disponíveis para jovens rurais sem educação formal. A transição para o trabalho marítimo aos 14 anos, a bordo do vapor pesqueiro The Girl Ena, inseriu Henry no contexto da próspera indústria pesqueira britânica do início do século XX. Os vapores pesqueiros, introduzidos na segunda metade do século XIX, revolucionaram a pesca no Mar do Norte, proporcionando aos jovens como Henry uma alternativa ao trabalho agrícola.

A decisão de Henry de ingressar na Royal Navy em 1913 ocorreu em um momento crucial da história naval britânica. O HMS Pembroke, onde realizou seu treinamento, era um estabelecimento naval em Chatham, Kent, que servia como centro de treinamento e base administrativa desde 1878. Esta instalação era parte do complexo naval de Chatham Dockyard, um dos principais arsenais navais britânicos desde o século XVI.

O HMS Implacable, navio ao qual Henry foi designado, era um couraçado da classe Formidable, lançado em 1899 e representativo da corrida naval que precedeu a Primeira Guerra Mundial. Com 131 metros de comprimento e deslocamento de 15.000 toneladas, o navio portava quatro canhões principais de 12 polegadas e uma tripulação de aproximadamente 780 homens. O Implacable simbolizava o poder naval britânico na era pré-dreadnought, embora já estivesse sendo superado pelas inovações tecnológicas da época.

Os encouraçados pré-dreadnought tinham este nome porque vieram antes (d’Oh) do couraçado HMS Dreadnought, que começou a ser construído em outubro de 1905, sendo um monstro que redefiniria a guerra naval. O Dreadnought foi lançado em fevereiro de 1906 e comissionado em dezembro do mesmo ano, revolucionou a construção naval global. Com sua armadura de aço temperado e uma bateria principal de canhões pesados de calibre uniforme montados em torres giratórias, complementada por uma bateria secundária ágil, este monstro movido a motores a vapor de tripla expansão não apenas superou tudo que a Marinha Britânica tinha, mas também estabeleceu um novo padrão, dando nome à classe dreadnought e relegando seus predecessores à obsolescência.

Mas até este momento, os chamados pré-dreadnought eram colossos de aço incríveis. Eles sucederam os antigos navios de ferro das décadas de 1870 e 1880 e ostentavam uma robusta armadura temperada e uma poderosa bateria principal de canhões pesados, montados em torres giratórias, complementada por armas secundárias mais leves. Movidos por motores a vapor a carvão de tripla expansão, sendo verdadeiros gigantes de sua era. O Implacable ainda estava em operação mesmo o Dreadnought ter feito uma grande mudança em termos de tecnologia bélica, e se os pré-dreadnought ainda funcionavam, por que iriam se desfazer deles?

Apesar de superados tecnologicamente, esses veteranos de aço ainda tinham um papel a cumprir quando a guerra começou. E foi justamente em um dos teatros mais ousados da Primeira Guerra Mundial que muitos pré-dreadnoughts ganharam uma última chance de provar seu valor: a Campanha de Gallipoli.

A Campanha de Gallipoli (25 de abril de 1915 – 9 de janeiro de 1916) foi concebida por Winston Churchill, então Primeiro Lorde do Almirantado, como uma operação audaciosa para forçar a abertura dos Dardanelos e estabelecer uma rota de suprimentos para a Rússia. A estratégia visava também retirar a Turquia otomana da guerra e potencialmente influenciar os Balcãs a favor dos Aliados.

O plano inicial previa um ataque naval seguido de desembarques anfíbios na Península de Gallipoli. No entanto, as forças otomanas, sob o comando de oficiais como Mustafa Kemal (posteriormente Atatürk) e assessoradas por especialistas alemães como Liman von Sanders, ofereceram resistência feroz e bem-organizada.

As praias de desembarque – denominadas pelos Aliados como Cabo Helles, Anzac Cove, e outras – tornaram-se cenários de carnificina. As estimativas de baixas variam, mas calcula-se que os Aliados sofreram aproximadamente 250.000 baixas (mortos, feridos e desaparecidos), enquanto as forças otomanas tiveram perdas similares.

Durante as operações de resgate após os sangrentos desembarques, Henry Friston encontrou duas tartarugas nas praias devastadas. A decisão de salvá-las e nomeá-las refletia tanto um impulso humanitário quanto uma necessidade psicológica de preservar vida em meio à destruição massiva.

O nome “Ali Pasha” carregava significado histórico e irônico. Ali Pasha de Tepelena (1740-1822) foi um governador otomano da Albânia, conhecido por sua autonomia em relação ao governo central de Istambul e suas relações complexas com as potências europeias. Lord Byron o imortalizou em “Childe Harold’s Pilgrimage”, contribuindo para sua fama no imaginário britânico. A escolha do nome sugeria tanto respeito pelo adversário otomano quanto uma forma de humor militar característico da época.

Manter um animal de estimação a bordo de um navio de guerra violava regulamentações navais rígidas, mas a prática era tolerada quando os animais serviam propósitos práticos (como gatos para controle de roedores) ou quando contribuíam para o moral da tripulação. O sucesso de Henry em manter Ali Pasha em segredo demonstra tanto sua criatividade quanto a solidariedade tácita de seus companheiros de bordo.

As viagens do HMS Implacable após Gallipoli – incluindo Taranto (importante base naval no sul da Itália), Malta (estratégica fortaleza britânica no Mediterrâneo) e Port Said (ponto de controle crucial do Canal de Suez) – refletiam as necessidades estratégicas britânicas de manter presenças navais em pontos-chave do Mediterrâneo.

O retorno de Henry à vida civil exemplificava a experiência de milhões de veteranos da Primeira Guerra Mundial. Seu trabalho como motorista e condutor de bondes em Lowestoft representava as oportunidades limitadas disponíveis para ex-combatentes sem qualificações técnicas específicas. Lowestoft, um porto pesqueiro em Suffolk, oferecia empregos no transporte público local, uma das poucas indústrias em expansão no período entre-guerras.

A decisão de Henry de não mais viajar após a guerra era comum entre veteranos que haviam experimentado traumas de combate. Muitos ex-combatentes preferiam a estabilidade e previsibilidade da vida doméstica após anos de incerteza e perigo.

O “redescobrimento” de Ali Pasha em 1968, coincidindo com o 50º aniversário do fim da Primeira Guerra Mundial, ocorreu durante um período de renovado interesse público na história militar britânica. O News of the World, um jornal popular conhecido por suas histórias sensacionais, reconheceu o apelo humano da narrativa.

A cobertura subsequente pelo The Times em 1986 elevou a história a um patamar mais respeitável jornalisticamente. A aparição no programa infantil Blue Peter da BBC transformou Ali Pasha em um ícone cultural, demonstrando como narrativas de guerra podem ser recontextualizadas para diferentes audiências e gerações.

A longevidade extraordinária de Ali Pasha – estimada em mais de 100 anos – ilustrava uma característica notável das tartarugas terrestres. Espécies como a Testudo graeca (tartaruga mediterrânea) podem viver mais de 150 anos, com alguns espécimes documentados sobrevivendo por mais de dois séculos. A referência histórica à tartaruga do Arcebispo William Laud (1573-1645) – executado durante a Guerra Civil Inglesa e cujo animal de estimação supostamente viveu até meados do século XIX – estabelecia um precedente cultural para a longevidade excepcional desses animais na tradição britânica.

Don Friston, filho de Henry, assumiu a responsabilidade por Ali Pasha após a morte de seu pai em 1977. Residindo em Carlton Colville, uma pequena comunidade próxima a Lowestoft, Don manteve a tradição familiar de cuidar do veterano reptiliano. Sua observação sobre a dificuldade de determinar a idade exata de Ali Pasha – devido ao desgaste dos anéis de crescimento no casco – destacava os desafios práticos de manter registros precisos sobre animais de estimação com vida excepcionalmente longa.

A visita de Ali Pasha ao HMS Brave em 1986 representava um momento simbólico poderoso. O HMS Brave era um caça-minas da classe Ham, parte da frota moderna da Royal Navy. Esta visita conectava simbolicamente as eras naval eduardiana e contemporânea, demonstrando a continuidade institucional da Marinha Real Britânica através das décadas.

A morte de Ali Pasha em setembro de 1987, atribuída a um vírus respiratório comum, encerrou uma das narrativas mais inusitadas da história militar britânica. Sua longevidade extraordinária havia permitido que servisse como uma ponte viva entre a Primeira Guerra Mundial e nossos dias.

Sua história transcende a mera curiosidade histórica; ela traz a necessidade psicológica de preservar vida e inocência em meio à destruição, a importância dos laços emocionais na sobrevivência militar, e a forma como narrativas pessoais podem capturar a imaginação pública décadas após os eventos que as originaram. O falecimento de Ali Pasha foi reportado em 1987 pela AP. Por fim, as memórias do marinheiro Friston e Ali Pasha foram imortalizadas num livro para crianças, cuja capa abre este artigo. Uma homenagem justa a dois heróis de guerra.

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