O fim do cinema

A Era de Ouro do Cinema, compreendido entre 1930 e 1960 (alguns divergem quanto as datas), o mundo mágico das telonas invadiam o imaginário popular. Era o fim da Grande Depressão e início de uma época mais otimista. Veio a Segunda Guerra Mundial e quando ela passou, o otimismo veio com tudo, pois, os Aliados venceram. A primeira grande diva, a primeirona Grande estrela foi Glória Swanson, e ela era a tradução da mulher moderna de sua época, os anos 20-30: uma mulher poderosa, cheia de si, extravagante, exuberante, riquíssima em detalhes, vivendo em trajes luxuosos.

Não temos mais isso, o cinema morreu.

Os imensos cenários, as produções magníficas, os shows de interpretação. Hoje, as produções são caras, mas não são grandes produções. O superlativo do cinema enquanto mundo particular ruiu.

O máximo que estávamos tendo até ultimamente eram os filmes de super-heróis, mas estes caíram na preguiça, pois Disney (Marvel) e Warner (DC) apelaram pro lugar seguro, e isso não ia durar. Os últimos filmes de super-heróis estão flopando. Mas por quê?

Podem falar o que quiserem, mas eu tenho pra mim que normalmente todos estão errados. A grande questão é que o principal do cinema morreu: a experiência coletiva.

O Capitão América pegando o Mjolnir é algo que os mais velhos esperaram 40 anos pra ver nas telonas. O cinema veio abaixo. O Super-Homem aparecendo, a mesma coisa. Mas não temos mais isso.

Charlton Heston erguendo o cajado e gritando “BEHOLD HIS MIGHTY HANDS!!!” e o Mar Vermelho se abrindo é um WOOOOOOOOOOOOOOW. A mesma coisa que o braquiossauro caminhando indolentemente em Jurassic Park 1.

A Capitã Marvel aparecendo em Vingadores Ultimato não teve este impacto. O Pacto é um filme que você sequer se lembra dele. Não há emoção. Não há experiência.

Quando o Sr. Spock se sacrifica em Jornada Nas Estrelas 2, A Ira de Khan, as pessoas amargam a perda. Sofrem com a morte do personagem. Entram em sintonia com todos na sala. O Spock só voltou no outro filme, enquanto isso, as pessoas apreciaram e amargaram o sacrifício. Era algo que um amigo faria. Homem Formiga 3 enfrenta Kang e se sacrifica, mas o filme matou a experiência, pois, a sua filha jênea (o tipo de coisa que já está cansando) o salva. Você não teve tempo de amargar a perda e reconhecer o sacrifício. A experiência foi assassinada.

Cinema não é pra ver filme. Mas estão fazendo filmes apenas, não entregando mais nada.

Houve greve de roteiristas. Acabou a greve, era de se esperar fenomenais roteiros. Cadê? Teve greve de atores, era para termos verdadeiras estrelas. Cadê?

Antes, na Era de Ouro, o lançamento dos filmes era uma imensa festa. Os diretores iam ao lado das grandes estrelas em vestidos luxuosíssimos, canhões de luzes, à noite, cores, espetáculo., agora, o tapete vermelho é gente comum indo num evento comum. Não há o glamour. Não há festa. Não há experiência.

Claro, mesmo na Era de Ouro tinha os filmes medianos e ruins e os… apenas divertidos. Não havia TV e o máximo que o cinema tinha de concorrente era o teatro. Mas hoje não é assim. Temos TV de 60 polegadas 4K e streaming. Não preciso sair de casa, gastar com combustível ou condução para ir no shopping, e se eu for dirigindo, vou gastar com o estacionamento que é abusivo. No streaming, eu peço um delivery e pronto.

Estão usando a desculpa que a pandemia mudou hábitos. Sim e não. Hoje temos mais opções de streaming, alguns até gratuitos, como o Pluto.TV. ver filme por ver filme, tá tudo lá. Tem os lançamentos? Bem, eu posso esperar, porque não terá emoção nenhuma, só ver o filme. Posso até esperar sair na Tela Quente. Então, você vai alegar que a Globo corta partes dos filmes. Isso é verdade, mas aí você se toca que os filmes são 3/4 de seu tempo enchendo linguiça mais a cena final. Você efetivamente não perde nada.

Acho que a única coisa que a pandemia fez que acabou com os cinemas foi exatamente o fato que as pessoas perceberam que indo no cinema ou assistindo em casa era a mesma coisa, pois, não há mais a fascinação, a experiência, as emoções, a experiência coletiva. Disney matou o MCU ao deitar na sopa achando que já tem uma plateia fiel, mas as pessoas estão é se sentindo traídas. Ela matou dois dos principais personagens, o terceiro fez três filmes meh.

A DC tem o problema com o cuzão do Snyder reescrevendo a mitologia dos heróis de acordo com o seu desejo. Os fãs se sentiram traídos também. Eu também.

Cadê as viagens espaciais como em Viagem Ao Mundo dos Sonhos? Cadê as aventuras de Indiana Jones? Cadê o Star Wars antigo, porque os de hoje são coisa de millenials insuportáveis? Transformaram o cinema em algo para um público que só consome vídeo na vertical que dura 2 minutos, e agora estão amargando prejuízo catando culpados.

Quanto a mim? Uma TV de 86 polegadas está a pouco mais de 4 mil reais, com um home theater na faixa e posso ter a experiência de telona em casa. E ainda há opções muito melhores e mais caras, mas nem precisarei mencioná-las, porque você já entendeu.

Parabéns produtoras e distribuidoras. Vocês mesmas mataram o seu negócio. O lance agora é só lançar pro streaming, porque vocês mesmas expulsaram os seus fãs das salas de cinema.

3 comentários em “O fim do cinema

  1. Perfeito texto! Amargando um trabalho que paga mal, decidi escolher com cuidado o que vale $ pro ingresso. O último filme que vi na telona foi Dr. Estranho no Multiverso da Loucura (se não me engano) porque queria ver algo mais fora do comum (o que não me satisfez tanto assim).

    Quase vi Oppenheimer, mas um corte de energia elétrica me fez redirecionar os gastos.

    Agora vejo meu 13⁰ brilhando mês que vem e escolho com cautela o que devo ver no cinema. Provavelmente vai ser o épico Napoleão, pelo tamanho da produção (e o trailer empolga).

    Pobre cinema, cometeu suicídio!

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