
Toda a vida na Terra, da bactéria ao seu cunhado que não larga o churrasco, compartilha uma esquisitice: tem lateralidade. Os aminoácidos que montam as proteínas são canhotos, enquanto os açúcares e a espiral do DNA e do RNA são destros, e ninguém sabe ao certo por que a natureza escolheu esse time. A “vida-espelho” seria uma célula construída com a versão invertida de tudo isso, algo como o universo paralelo de Star Trek, só que com bactérias de barbicha. O problema é que um organismo assim passaria despercebido por sistemas imunes, predadores e vírus.
Desde então, cientistas, governos e organismos internacionais discutem moratórias e leis preventivas. Sobrou, porém, uma pergunta de obviedade incômoda: se alguém construísse uma dessas criaturas, como é que a gente saberia? Pois uma equipe acaba de propor o primeiro método de triagem para flagrar vida-espelho, e o truque usa a mesma física dos óculos que você veste para ver blockbuster em 3D.
O dr. Lewis E. MacKenzie é químico (com ele a oração e a paz). Ele é pesquisador da Universidade de Strathclyde, em Glasgow, instituição cujo nome parece de uma bactéria, então, ele deve sacar altos paranauês disso.
A ideia de Lewis é elegante. Moléculas fluorescentes que se ligam a estruturas da célula (membranas, organelas, ácidos nucleicos) emitem luz circularmente polarizada, e essa assinatura depende da lateralidade do alvo. Um corante comum de DNA, como o DAPI ou o Hoechst 33342, não tem lateralidade própria. Ao se encaixar numa hélice destra, porém, passa a emitir luz girando para um lado, e numa hélice canhota de DNA-espelho giraria para o outro. Também dá para usar sondas que já nascem quirais, como complexos de európio e corantes BODIPY, cujos enantiômeros (versões em espelho da mesma molécula) vão parar em lugares diferentes dentro da célula viva.
Imagine que as células são como casas feitas de peças de Lego. Na vida normal, todas as peças são do mesmo lado, já que as peças são quadrados e retângulos e pronto. Mas a vida neste universo é feita de peças irregulares, em que o lado direito não é igual ao esquerdo, e quando se coloca no espelho se vê uma diferença, como as suas mãos. Elas parecem iguais, mas “invertidas”. Chamamos isso de “quiralidade” (do grego “cheir”, que significa “mão”).
Uma vida-espelho seria o inverso da nossa em termos de geometria, e nós seríamos a “mão direita” e a vida-espelho seria a “mão esquerda”. Entendeu? Pois, é, né? Sinistro, muito sinistro! Agora, como vamos detectar isso?
O truque do Lewis é usar corantes que brilham e grudam nessas peças. Quando grudam, a luz que eles soltam gira para um lado ou para o outro, dependendo se a peça é direita ou esquerda. É como se a luz dissesse: “ei, isso aqui é normal ou é o espelho!”. Assim, dá pra descobrir se tem alguma célula-espelho escondida, sem precisar de máquinas complicadas.
O pulo do gato é evitar alarmes falsos, porque nem todo canhoto é espelho. As arqueias têm membranas feitas de fosfolipídios de lateralidade oposta à de bactérias e eucariotos, e o DNA canhoto (Z-DNA) aparece naturalmente durante a transcrição. Mirar só um alvo seria, nas palavras dos autores, uma receita para falsos positivos. Por isso propõem um painel com várias sondas, cada uma precisando bater com a assinatura e a intensidade esperadas. A validação pode ser segura: testar tudo em vida convencional, inclusive no Z-DNA natural, sem criar nenhum organismo perigoso.
Para a leitura há três opções. A espectroscopia rápida de CPL serve ao desenvolvimento das sondas. A microscopia confocal (EDCC) dá a melhor qualidade subcelular, com cerca de 126 nm de resolução lateral, e distinguiria até uma única célula-espelho entre as comuns, dispensando cultivar amostras suspeitas em quantidade. Já as câmeras EDCC, que podem ser portáteis, inspecionariam superfícies como maçanetas e até equipariam sondas robóticas, útil para meteoritos suspeitos e esfregaços de laboratório.
A maturidade tecnológica é nível 4 (validado em laboratório) para espectrômetros, câmeras e microscópio confocal, e 2 para leitores de placa. Os autores ainda lembram que turbidez pode despolarizar o sinal. Microscopia eletrônica, espectrometria de massa e cromatografia quiral até funcionam, mas são grandes, caras e lentas para uso em campo.
Vale a letra miúda: é um artigo de perspectiva, não um experimento, e assume que a vida-espelho seria quimicamente análoga à terrestre. Lewis e seu pessoal declaram nesse ponto que há um conflito de interesse por ser inventor de uma patente de detector de luz circularmente polarizada. O objetivo declarado é ter uma ferramenta de triagem e de conferência do cumprimento de futuras leis. Como lembrou a reunião britânica, qualquer acordo poderia ser ignorado por maus atores. Pelo menos, se algum deles construir o monstro canhoto, a ciência poderá ao menos perguntar de que lado ele joga.
A pesquisa foi publicada no periódico Royal Society Open Science.
