
Se você pensa que o Brasil só exporta bicho grande, indesejado e fedido como nossa política tributária, revise seus conceitos. Aqui tem dinossauro, e não estou falando de um monte de velharia na política. O Rio Grande do Sul, que já vinha acumulando currículo respeitável como celeiro de arcossauros triássicos (basta lembrar que ali nasceram os primeiros dinossauros conhecidos do planeta, os Staurikosaurus e companhia), acaba de somar mais um nome à lista.
Dessa vez, o fóssil não é um monstro de sete metros pronto para estrelar documentário com trilha sonora épica. É um bichinho do tamanho de um jacaré pequeno, com ossos contados nos dedos de uma mão, e ainda assim capaz de reorganizar um pedaço inteiro da árvore genealógica que separa, ou melhor, que une, crocodilos e dinossauros.
Sim, até dinossauro no Brasil acaba sendo chinfrim.
A história começa cerca de 240 milhões de anos atrás, no Triássico Médio, numa época em que a vida terrestre ainda se recompunha do maior desastre ecológico da história do planeta: a extinção do fim do Permiano, que varreu mais de 90% das espécies conhecidas e deixou um planeta em obras, com nichos ecológicos vagos esperando por ocupantes.
Foi nesse cenário de reconstrução pós-apocalíptica, mais ou menos como um bairro inteiro sendo repovoado depois de uma enchente, que os archosauriformes começaram a se diversificar e a experimentar formas, posturas e modos de vida que, milhões de anos depois, dariam origem a dois dos grupos mais bem-sucedidos e visualmente contrastantes de vertebrados terrestres: os crocodilos, mestres da paciência aquática, e os dinossauros, que incluem, para desespero de quem ainda acha que eles sumiram, todas as aves que cantam na sua janela pela manhã.
Maurício S. Garcia é estagiário de luxo… pode falar estagiário de luxo? Bem, Maurício é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e pesquisador do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (CAPPA/UFSM), o mesmo núcleo que vem transformando o interior gaúcho num polo de referência mundial para o estudo da origem dos dinossauros e de seus parentes triássicos. Garcia já não é estreante nesse tipo de achado: também assina, ao lado do paleontólogo Rodrigo Temp Müller, outras descrições de répteis triássicos brasileiros, e integra um grupo de pesquisa que tem, com uma constância quase suspeita, encontrado justamente no Rio Grande do Sul peças que faltavam no quebra-cabeça da evolução dos arcossauros.
O fóssil batizado de Silescelida acristata foi encontrado no município de Dona Francisca, em rochas hoje protegidas pelo Geoparque Quarta Colônia, reconhecido pela Unesco. Trata-se de um animal relativamente pequeno e esguio, de locomoção quadrúpede, com porte comparável ao de um pequeno jacaré, provavelmente um predador discreto que caçava presas menores nos ecossistemas triássicos do sul do Brasil.
O material preservado não é lá muito generoso: uma escápula esquerda, um ílio direito e um fêmur esquerdo, ou seja, pedaços de membro que, à primeira vista, parecem o tipo de evidência capaz de render, no máximo, uma nota de rodapé. Só que ossos de membro, quando bem lidos, contam muita coisa sobre postura, modo de locomoção e parentesco evolutivo, e foi exatamente esse tipo de leitura fina que permitiu aos pesquisadores encaixar o novo animal numa posição estratégica na árvore dos arcossauriformes, o grupo mais amplo que viria a originar tanto crocodilos quanto dinossauros.
E aqui entra a parte que daria um bom roteiro de suspense de baixo orçamento: parte do material que continha as informações essenciais sobre a procedência exata do fóssil ficou perdida por mais de vinte anos! Foi só em 2022, durante uma visita técnica de rotina à coleção científica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), que os pesquisadores reencontraram o fragmento desaparecido, permitindo finalmente confirmar a origem do espécime e concluir sua descrição formal. Não é à toa que o nome do gênero, Silescelida, combina raízes do latim e do grego que remetem a “silêncio” e “perna”: uma homenagem nada sutil aos anos de silêncio documental do fóssil e ao tipo de osso que, no fim das contas, resolveu o mistério.
As análises filogenéticas sugerem que o S. acristata pode estar relacionado aos Euparkeriidae, um grupo raro e ainda mal compreendido de archosauriformes cujo representante mais famoso, o Euparkeria capensis, foi descrito na África do Sul ainda em 1913 e segue como o único membro inconteste da família. Até agora, fósseis associados a esse grupo eram conhecidos basicamente na África, na Ásia e na Europa, o que deixava a América do Sul como uma lacuna geográfica incômoda. A presença de um parente próximo dos euparkeriídeos no sul do Brasil amplia significativamente a distribuição conhecida desses animais e sugere que eles estavam muito mais espalhados pelo planeta durante o Triássico do que o registro fóssil, até então, dava a entender.
Também reforça algo que a paleontologia brasileira já vinha demonstrando com insistência: as rochas triássicas do Rio Grande do Sul são um dos lugares mais importantes do mundo para entender a origem e a diversificação dos grandes grupos de vertebrados terrestres, incluindo nós mesmos, lá na ponta mais recente e emplumada dessa árvore genealógica.
No fim das contas, o S. acristata não é um daqueles fósseis feitos para estampar capa de revista com reconstituição digna de filme de aventura. É um lembrete mais sutil, e por isso mesmo mais interessante, de que a história evolutiva de dinossauros e crocodilos não foi um caminho reto entre dois pontos, mas um emaranhado de formas experimentais, becos sem saída e sobreviventes improváveis, boa parte deles ainda escondida em gavetas de museus esperando que alguém, décadas depois, resolva dar uma segunda olhada.
A pesquisa foi publicada no periódico Scientific Reports.

Se fosse um pouco maior renderia uma novela das sete.
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