O caso do avião soviético que invadiu países e causou morte num membro da OTAN

O jovem está cansado e resolveu tirar um momento só para si de descanso. Dorothy estava só meia certa: não, não há lugar como nosso lar, mas isso não é tudo. A complementação mais certa é “não há lugar como nossa cama”. Estar refestelado é muito bom; pode até não dormir, mas só o fato de esticar o corpo e relaxar, tendo a certeza de que nada vai atrapalhar o seu descanso…

… exceto se um avião de guerra cai sobre você, lhe matando instantaneamente, de uma forma totalmente imprevisível.

Existe uma categoria especial de pesadelo militar que mantém generais acordados de madrugada: aquela em que seu equipamento bélico de última geração decide, por conta própria, fazer turismo internacional sem avisar ninguém. É o tipo de situação que transforma briefings de segurança em sessões de terapia coletiva e faz diplomatas envelhecerem dez anos em uma tarde.

A coisa piora quando isso acontece no contexto da Guerra Fria, na qual qualquer incursão aérea não autorizada poderia ser interpretada como provocação intencional ou, no melhor estilo paranoico da época, o início de um conflito maior, gerando entreveros sérios ou, o maior medo de todos: um festival de Kabum Atômico caindo sobre a cabeça de todo mundo.

A história que iremos contar aconteceu em 4 de julho de 1989 (ironicamente, o Dia da Independência dos EUA) e pertence exatamente a essa categoria de “coisas que não deveriam ser possíveis, mas aconteceram mesmo assim”.

O protagonista involuntário dessa odisseia aérea era um MiG-23M “Flogger-B” da Força Aérea Soviética, uma máquina projetada para interceptar bombardeiros da OTAN, não para fazer passeios turísticos pela Europa Ocidental. Desenvolvido pela Mikoyan-Gurevich na década de 1960, o MiG-23 era conhecido por sua asa de geometria variável (aquelas asas que se movem para otimizar o desempenho em diferentes velocidades) e por ser capaz de atingir velocidades supersônicas de até Mach 2.35, cerca de 2.500 km/h.

O Migo, digo, MiG23 era o auge da engenharia aeronáutica soviética, mas também tinha fama de ser temperamental, com problemas de confiabilidade no motor e nos sistemas de controle que contribuíram para vários acidentes ao longo de sua carreira. Pense numa impressora com asas. Pois, é.

O piloto, Coronel Nikolai Skuridin, decolou da base aérea de Bagicz perto de Kołobrzeg, na Polônia (que naquela época estava atrás da Cortina de Ferro) por volta das 9h14min da manhã para um voo de treinamento rotineiro, que de rotineiro não ia ter nada, mas o coronel não tinha bola de cristal.

Logo após a decolagem, o pós-combustor do motor decidiu entrar em greve trabalhista, clamando contra a exploração do proletariado, camarada. Para quem não é íntimo da aviação militar, o pós-combustor é aquela parte do motor que, quando acionada, faz o avião acelerar como se tivesse acabado de lembrar que deixou o fogão ligado. Quando ele falha, o avião perde potência e começa a descer com aquela pressa característica de quem não quer estar no ar. Skuridin, voando a meros 150 metros de altitude (uma altura onde “pensar rápido” não é uma sugestão, é um requisito de sobrevivência), viu seu MiG começando a descer e os indicadores do painel sugerindo uma falha total do motor.

Skuridin tomou a decisão mais sensata disponível: apertou o botão vermelho e ativou o sistema de ejeção K-36DM, um assento ejetável avançado projetado pela Zvezda que o lançou para fora da cabine usando cargas explosivas e um paraquedas. Ele desceu suavemente, foi resgatado ileso perto de Kołobrzeg e provavelmente esperava que seu avião tivesse feito o que aviões sem motor costumam fazer: cair.

Seria ótimo, mas o avião tinha outros planos: o motor não tinha parado completamente. Estava funcionando em baixa potência, naquele regime preguiçoso de “não vou correr, mas também não vou parar”, mas os sistemas de bordo entenderam que a bagaça tinha resolvido parar.

E aqui começa a parte verdadeiramente perturbadora da história.

Com o peso do piloto removido da cabine e o centro de gravidade alterado, o MiG-23 fez algo que ninguém esperava: estabilizou-se sozinho. Graças ao seu sistema básico de piloto automático (projetado para auxiliar o piloto, não para substituí-lo completamente), a aeronave nivelou o voo, ajustou sua altitude para algo entre 4 e 5 km e seguiu em frente como se fosse segunda-feira de manhã e ele estivesse apenas cumprindo sua rota habitual. Exceto que essa “rota” estava prestes a se tornar o pesadelo geopolítico do ano.

O MiG cruzou toda a Polônia sem pedir licença, o que sempre foi comum na história da Polônia. Em seguida, entrou na Alemanha Oriental, onde presumivelmente alguém olhou para o radar e pensou “Ok, é um dos nossos senh… amigos”. Então, cruzou para a Alemanha Ocidental (por volta das 9h42min, horário local), onde a coisa começou a ficar diplomaticamente complicada, porque um caça soviético voando sem piloto pelo espaço aéreo da OTAN é exatamente o tipo de situação que aparece em manuais de crise internacional com aquela nota de rodapé dizendo “reze para que isso nunca aconteça”.

O MiG, que estava pouco se importando para incidentes em plena Guerra Fria, passou pelos Países Baixos, onde controladores de tráfego aéreo, militares de vários países e provavelmente alguns funcionários da OTAN com úlcera recém-desenvolvida tentavam descobrir o que fazer com um avião que não respondia a comandos porque, bem, não tinha ninguém dentro para ouvir os comandos, mas ninguém sabia disso. No máximo, estavam olhando com assombro um maluco que resolveu começar a 3ª guerra Mundial sozinho.

Dois caças F-15 da 32nd Tactical Fighter Squadron da Força Aérea dos Estados Unidos, baseados em Soesterberg, foram despachados para interceptar e escoltar o MiG fujão e convidar (cof cof cof) Ivã a voltar pra casa e curar a ressaca.

Os pilotos americanos, voando ao lado dele, confirmaram algo que deve ter acendido vários pontos de interrogação na cabeça: a cabine estava vazia! Caças Mirage franceses foram preparados para destruí-lo caso se aproximasse de Lille, na França, mas a opção de abater o avião foi descartada. Afinal, abater um avião que teoricamente poderia cair em área urbana não era exatamente uma opção que alguém quisesse assinar a ordem, especialmente considerando que os destroços certamente causariam danos colaterais.

A situação se resolveu da pior maneira possível. Às 10h37min da manhã (horário local), após consumir suas reservas internas de combustível, o motor Tumansky finalmente decretou que ia aderir à Revolução e não ia mais trabalhar. Sem alimento, sem trabalho, Tovarich! O MiG-23 entrou, então, em queda livre descontrolada e despencou sem cerimônia sobre uma casa em Bellegem (às vezes referida como Kooigem em relatos), perto de Kortrijk, na Bélgica.

Não foi um pouso suave nem um acidente em campo aberto. Foi direto na residência de Wim Delaere, um jovem de 18 anos que estava em casa no momento do impacto. Ele morreu instantaneamente na explosão e no incêndio causados pelo combustível residual e pelos materiais da aeronave. Por um milagre estatístico que não traz nenhum consolo, ninguém mais foi ferido, mas a destruição foi total no ponto de impacto.

O incidente virou manchete internacional, gerou tensões diplomáticas consideráveis e levantou questões desconfortáveis sobre protocolos de segurança, sistemas de piloto automático em aeronaves militares e o que exatamente fazer quando seu equipamento militar decide fazer turismo internacional sem supervisão.

A Bélgica, claro, ficou possessa e emitiu um protesto formal à União Soviética, e a URSS, em uma raríssima admissão de responsabilidade durante a era Gorbachev de Glasnost (transparência), assumiu total culpa pelo acidente. Pagou US$ 685 mil (valores da época) ao governo belga como compensação oficial pelo incidente, cobrindo tanto os danos materiais quanto a perda de uma vida (sim, o dinheiro foi pro governo. O Wim não ia precisar dele no lugar para onde ele foi mandado contra a sua vontade).

A história do MiG-23 fantasma é um daqueles eventos que parecem roteiro de filme B, mas aconteceram de verdade, completo com cruzamento de fronteiras internacionais, aviões de interceptação impotentes e um desfecho trágico que ninguém conseguiu evitar. É o tipo de história que lembra que, às vezes, a tecnologia pode se comportar de maneiras completamente inesperadas, e que quando sistemas complexos falham, as consequências podem ser devastadoras. Principalmente quando um jovem de 18 anos está em casa durante uma manhã comum de julho, completamente alheio ao fato de que um caça soviético está cruzando a Europa em sua direção.

Mais de uma hora de voo autônomo. 900 km percorridos. Cinco fronteiras cruzadas (contando a divisão entre as duas Alemanhas como uma transição simbólica das tensões da Guerra Fria). E uma vida perdida no final. O MiG-23 fantasma permanece como um dos episódios mais bizarros e trágicos da história da aviação militar, uma lembrança de que mesmo no mundo rigidamente controlado das forças armadas, às vezes as coisas simplesmente fogem do controle.

Se há algum consolo (não pros familiares da vítima, claro), o incidente levou a revisões em protocolos de ejeção e sistemas de piloto automático em forças aéreas ao redor do mundo, influenciando projetos futuros para incluir mecanismos de autodestruição ou desligamento remoto em casos de perda de controle. Hoje, o evento é estudado em academias militares como um estudo de caso sobre falhas em cadeia e gerenciamento de crises, garantindo que lições amargas como essa não sejam esquecidas.


Fontes:

Um comentário em “O caso do avião soviético que invadiu países e causou morte num membro da OTAN

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