
Quando um vulcão passa mais de dez mil anos em silêncio, a humanidade tende a tratá-lo como um avô aposentado da Geologia, daqueles que só contam histórias antigas e nunca levantam da poltrona, passando mais tempo dormindo do que fazendo efetivamente algo. O problema é que o planeta Terra não é estático, parado, morto. É um planeta com geologia bem ativa, e não deveria causar assombro o que aconteceu. Mas causou!
No dia 23 de novembro último, a A erupção do vulcão Hayli Gubbi, no nordeste da Etiópia, pegou um monte de gente desprevenida. Esse vulcão discreto rompeu aproximadamente 12 mil anos de inatividade registrada e lançou uma coluna de cinzas que alcançou 14 km de altitude, interferindo no tráfego aéreo regional e cobrindo povoados próximos com uma camada fina de poeira.
O Hayli Gubbi é um vulcão do tipo escudo, com encostas amplas e suaves que lembram uma colina arredondada mais do que o cone clássico de cinema. É um tipo de vulcão caracterizado por sua forma ampla e suavemente abaulada, lembrando um grande escudo de guerreiro deitado no solo. Suas encostas têm inclinação muito baixa, geralmente entre 2° e 10°, o que faz com que alcance enormes extensões horizontais mesmo sem apresentar grande altura. Essa morfologia resulta de erupções predominantemente efusivas, pouco explosivas, nas quais o magma basáltico, pobre em sílica e gases, mas rico em ferro e magnésio, possui alta fluidez e percorre longas distâncias antes de se solidificar. Entre os exemplos mais conhecidos estão os gigantes do Havaí, como o Mauna Loa e o Mauna Kea, além do Erta Ale, na Etiópia, próximo à região onde se encontra o Hayli Gubbi. Diferentemente dos estratovulcões altos e íngremes, famosos por erupções violentas, os vulcões em escudo tendem a apresentar atividade mais tranquila, marcada por longos e constantes fluxos de lava — exatamente o caso do Hayli Gubbi, situado no Vale do Rift Africano.
Ele está localizado na região de Afar, uma das áreas geologicamente mais instáveis do planeta. Essa paisagem árida e extrema faz parte da Depressão de Danakil, um dos pontos mais quentes e baixos da superfície terrestre. É ali que três placas tectônicas se encontram e se afastam lentamente: a placa Africana, a Arábica e a Núbia. O resultado é o Sistema de Rift da África Oriental, uma cicatriz geológica em expansão que literalmente abre o continente, permitindo que o magma ascenda com facilidade. Esse processo explica a presença de vários vulcões alinhados, incluindo o famoso Erta Ale, cujo lago de lava ativo atrai cientistas e aventureiros há décadas.

Embora menos conhecido que seu vizinho mais midiático, o Hayli Gubbi ocupa uma posição crítica no extremo sul da cadeia vulcânica Erta Ale. Ele se assenta sobre fraturas profundas que conduzem magma diretamente do manto. O Smithsonian Global Volcanism Program não registrava erupções confirmadas no Holoceno, o que transforma a atividade atual em um evento raro e potencialmente o primeiro testemunhado pela sociedade moderna. No momento da erupção, centros internacionais detectaram a pluma de cinzas viajando sobre o Mar Vermelho e avançando para o Iêmen e Omã, carregada pelos ventos de altitude.
Nas comunidades próximas, os efeitos foram imediatos. Moradores de Afdera relataram que a erupção soou como uma explosão distante, seguida por queda persistente de cinzas que esconderam a vegetação local. Como a criação de cabras e camelos é a principal forma de subsistência, o soterramento dos pastos preocupa mais do que o espetáculo visual da erupção. Apesar da ausência de vítimas, autoridades etíopes monitoram possíveis danos ambientais e o impacto na água e no solo.
A aviação comercial foi outro setor diretamente afetado. Cinzas vulcânicas são abrasivas, desgastam turbinas e podem derreter dentro dos motores. Por isso o Centro de Aviso de Cinzas Vulcânicas de Toulouse recomendou que empresas aéreas redirecionassem rotas. Voos entre a Índia, Omã, Emirados Árabes Unidos e países da África Oriental sofreram cancelamentos, e companhias como a Air India e a Akasa ajustaram operações. É um exemplo claro de como um fenômeno geológico aparentemente isolado pode, em poucas horas, modificar rotas aéreas internacionais.
A erupção também ressalta a importância científica da região de Afar. O Rift da África Oriental está em pleno processo de abertura, e a atividade do Hayli Gubbi é um lembrete de que esse sistema tectônico não é uma abstração teórica, mas um mecanismo real e contínuo que remodelará o continente nos próximos milhões de anos. Eventos como este nos permitem observar, praticamente ao vivo, os processos que levam à formação de novos oceanos e ao redesenho das placas tectônicas.
No fim das contas, o Hayli Gubbi fez mais do que cuspir cinzas. Reapareceu após milênios para lembrar que a Terra não é um cenário estático, mas uma máquina antiga e inquieta, capaz de mudar rotinas humanas tanto quanto rotas aéreas. Um vulcão esquecido não deixa de ser um vulcão; às vezes só está esperando o momento de nos lembrar disso.
Fonte: Independent

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