
Tem histórias que parecem roteiro de filme B que a Netflix recomendaria às 3 da manhã, quando você já desistiu de escolher algo decente pra assistir e ainda está com uma insônia daquelas. A diferença é que essa aqui aconteceu de verdade, quando um grupo de crianças cavando buracos num quintal em Los Angeles – porque é isso que crianças fazem quando não têm celulares – bateu numa coisa estranha. Não era osso de dinossauro. Não era tesouro pirata. Era algo simultaneamente mais valioso e mais absurdo: uma Ferrari enterrada debaixo do gramado, como quem enterra um hamster de estimação.
Só que é um componente de estimação um tanto mais caro.
A história começa em outubro de 1974, quando Rosendo Cruz, um encanador de Alhambra, Califórnia, decidiu que a melhor forma de demonstrar amor conjugal era comprando uma Ferrari Dino 246 GTS novinha em folha para a esposa, que muito provavelmente preferia um colarzão de diamantes, que são os melhores amigos das mulheres; na falta deles, vai outro suporte emocional no valor de US$22.500 dólares – ou US$147.859,23, em valores de hoje (não confundam com poder de compra) – numa concessionária que atendia gente pobre e anônima como Frank Sinatra.
Mas calma, que Rosendo (eu não farei piadinhas com o nome, ou pelo menos me esforçarei) não ia dar apenas uma Ferrari. Ele mandou incluir rodas Campagnolo e bancos Daytona, provando que Rosinho não era homem de economizar na hora de agradar a cremosa.
Mas dois meses depois, vem ele: o plot twist. A Ferrari sumiu! A esposa de Cruz tinha rodado míseros 800 km com o carro quando, numa noite de dezembro, o casal saiu para jantar na Wilshire Boulevard. Cruz, desconfiado do manobrista, estacionou o carro alguns quarteirões longe do restaurante. Quando voltaram, surpresa: cadê a Ferrari? Cruz registrou boletim de ocorrência, acionou o seguro, e a seguradora Farmers Insurance fez a sua investigação e pagou o valor integral do carro. Caso arquivado pela polícia como “roubo legítimo”. A vida seguiu.
Teoricamente.
Quatro anos se passaram. Dezembro de 1978. Aquelas mesmas crianças cavando na lama de repente batem numa superfície metálica. Chamam um xerife que passava pela rua (tempos em que polícia ainda patrulhava a pé… ou patrulhava), e o homem, intrigado, começa a investigar. Quando ficou claro que havia um carro inteiro ali embaixo, a coisa escalou rápido. Detetives Joe Sabas e Dennis Carroll chegaram com uma equipe, começaram a escavar, e a repórter Priscilla Painton, do LA Times, documentou tudo. Aliás, Painton identificou Carroll como “Lenny” no artigo, erro que virou apelido permanente no departamento.
Quando finalmente desenterraram o carro, a cena era surreal. Era a Ferrari Dino de Cruz. Número de série batia. Placas batiam. E o mais bizarro: o carro estava em condições surpreendentemente boas. Claro, tinha ferrugem e danos, mas nada que justificasse ter passado quatro anos embaixo da terra. Quem quer que tenha enterrado aquela beleza italiana fez questão de preservá-la: plásticos cobrindo a lataria, toalhas enfiadas no escapamento para impedir que sujeira entrasse nas partes sensíveis. Era como se alguém tivesse preparado uma cápsula do tempo automotiva, só que sem a parte de deixar instruções de onde ficava.
O carro, agora propriedade da Farmers Insurance por conta do pagamento anterior, foi colocado à venda. Quase ninguém quis comprar uma Ferrari com histórico de sepultamento. Até que o empresário Ara Manoogian quase fechou negócio, mas hesitou. Felizmente, o corretor de imóveis Brad Howard ouviu Manoogian conversando com um mecânico e ofereceu: “Se eu conseguir fazer funcionar, eu compro”.
Brad contratou Giuseppe Cappalonga, mecânico especializado em Ferrari, e juntos restauraram o carro. O para-brisa tinha sido quebrado intencionalmente pelos ladrões, o motor sofrera danos sérios durante o enterro e a remoção, mas fora isso? Tranquilo. Howard atribui a boa conservação à seca que castigou a região nos anos 70, mantendo a terra relativamente seca. Hoje ele dirige a Dino restaurada como carro do dia a dia, com a placa “DUG UP” – desenterrada, em inglês. É tipo tatuagem de lembrança, mas em metal e rodas.
Mas calma aí. Você me conhece e sabe que a história anda não terminou!
A cereja do bolo dessa história caiu de paraquedas em 2012, quando jornalistas finalmente descobriram a verdade. Spoiler: não foi roubo, e sim fraude de seguro (finja surpresa). Rosendo Cruz, o encanador romântico que comprou uma Ferrari para a esposa, aparentemente se arrependeu rapidinho da decisão financeira questionável e bolou um plano. Contratou dois ladrões para “roubar” o carro, dividir o dinheiro do seguro, e depois mandar a Ferrari para um desmanche, vendendo as peças. Lucro em dobro, crime perfeito.
Só que os ladrões, na clássica reviravolta de quem fica ambicioso demais, decidiram que preferiam ficar com o carro inteiro para vender depois e embolsar o dobro. Enterraram a Ferrari, cobriram direitinho, e… esqueceram onde. Ou morreram, ou foram presos por outra coisa. Ninguém sabe. O fato é que os dois nunca voltaram para buscar o tesouro de mais de cem mil, cem mil dólares que enterraram no quintal de alguém. É como esquecer onde guardou a carteira, só que a carteira é uma Ferrari e você é um criminoso imbecil.
Ninguém da casa notou nada. Os vizinhos, idem. A Ferrari ficou ali, adormecida sob o gramado, como a Bela Adormecida se ela fosse italiana e tivesse motor V6. Nunca descobriram quem eram os ladrões ou como conseguiram enterrar um carro inteiro sem que ninguém percebesse; porque, convenhamos, não é exatamente uma operação discreta. É o tipo de crime que te faz pensar: estavam bêbados? Tinham um plano tão elaborado que deu errado justamente por ser elaborado demais? Também nunca foram atrás de Rosendo Cruz e o motivo me deixa pensativo.
No fim das contas, a história da Ferrari enterrada é uma dessas anomalias perfeitas da realidade: um plano de seguro fraudulento, ladrões que esqueceram o mapa do próprio tesouro, crianças cavando no lugar certo na hora certa, e um carro italiano ressuscitando das profundezas para virar carro de passeio com a placa mais irônica da Califórnia.
Os donos da casa não viram alguém cavando um buracão imenso, o Rosendo não foi procurado, ninguém deu a menor bola para o acontecido “puca, que coisa engraçada hehehehe” e ficou tudo por isso mesmo!
Se Enzo Ferrari estivesse vivo, provavelmente teria um aneurisma só de ouvir essa história. Mas nós, meros mortais fascinados pelo caos humano, só podemos aplaudir de pé. Porque se tem uma coisa que a história nos ensina é que a realidade, quando resolve ser absurda, supera qualquer ficção.
E às vezes, só às vezes, enterra uma Ferrari no quintal só para ver no que dá.
PS. Porra, Ferrari verde????

2 comentários em “O caso da Ferrari “roubada” e enterrada num quintal”