
Era uma vez alguém que queria entender nossa ancestralidade. Como nossos ancestrais não estão disponíveis, a saída era estudar os nossos primos bem próximos de nós. Seu nome era Valerie Jane Morris Goodall, mais conhecida como Jane Goodall, e ela começou a estudar a cultura chimpanzé no Parque Nacional Gombe Stream, na Tanzânia, em 1957.
Infelizmente, Jane Goodall era humana, e estava fadada ao Eterno Sono, e partiu hoje, aos 93 anos de idade.
Lady Jane Goodall, Dama do Império Britânico, não via seus objetos de estudo apenas como objetos de estudo. Ela os reconhecia como aquilo que eram: seres vivos fascinantes, como todos os seres vivos podem ser. Ela não os rotulava com números, mas dava-lhes nomes, reconhecia suas individualidades, os respeitava como colegas de trabalho, porque era isso que cada chimpanzé, gorila, bonobo entre outros tantos primatas eram: colegas de trabalho que nos ajudaram a avançar no conhecimento sobre nós mesmos.
Nossos amigos primatas têm muito a nos ensinar. Espero que muitos humanos tenham interesse em aprender, como lady Jane teve.
Agora, Lady Jane já não está mais entre nós, entre seus amigos primatas, entre todos os seres vivos do mundo. Ela faleceu de causas naturais, aos 93 anos de uma vida fascinante de aprendizado e ensinamento. Ela deixa para trás não apenas livros, palestras e pesquisas, mas um legado que transcende o campo da Ciência. Sua vida foi uma ponte entre mundos: o humano e o animal, o acadêmico e o espiritual, o racional e o afetivo.
Jane nos mostrou que Ciência não é apenas números e gráficos, mas também empatia, escuta e humildade diante da complexidade da vida. Ao olhar nos olhos de um chimpanzé, ela enxergava não apenas um animal, algo a ser estudado de maneira fria, mas um universo de emoções, de histórias e de dignidade.
Agora, cabe a nós continuar essa tarefa: olhar para os outros seres — humanos e não humanos — e reconhecê-los como companheiros de jornada, como Lady Jane sempre fez. Porque honrar sua memória é mais do que lembrar sua biografia; é perpetuar seu olhar, seu gesto de respeito e seu chamado silencioso para cuidarmos da Terra e de todos os que nela habitam.
Lady Jane partiu. Mas a maneira como ela nos ensinou a ver o mundo permanece viva, como uma chama que atravessa gerações.

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