Uma história de amor para além da vida

Há o ditado que da Terra nada se leva, mas não parece ser isso o que muitos pensam. Há quem ache que os sentimentos vão junto, e acompanham até o último suspiro e mais além. O amor é eterno enquanto dura, disse o poeta, mas, para alguns, ele se mantém vivo, ainda que depois da morte, num registro perene para a posteridade de como se amou em vida.

Algumas histórias de amor não são contadas, mas vividas. vidas longínquas no tempo, quando não se faziam registros escritos, pois a escrita ainda não havia sido inventada. Dessas histórias, nada sabemos e muito certamente nada saberemos. No máximo, temos conhecimento do seu final. Se “Foram felizes para sempre” ou “E permaneceram juntos até o fim dos dias”, ficamos sem ter a certeza de muitos, mas há registros pelos quais sabemos mito bem quando o que foi unido no amor, nem a terra, erosão ou milênios vindouros apagariam.

Em San Giorgio di Mantova – uma comuna italiana da região da Lombardia, província de Mântua –, foram feitas algumas descobertas arqueológicas que datam de muito, muito tempo, entre o período que chamamos Neolítico. A descoberta mais fascinante foi um túmulo, mas não um túmulo qualquer. É um túmulo com duas pessoas na mesma cova.

Os Amantes de Valdaro são dois esqueletos com mais ou menos 6.000 anos de idade, descobertos em 2007. O nome desse achado pode ser deduzido só de olhar a foto acima, com dois esqueletos num abraço eterno. O que faz desse enterro em particular algo diferente é que ele é o único enterro duplo naquela região. O casal que ali jazia tinha era composto por uma mulher jovem, com idade entre 16 e 20 anos e um homem com idade entre 18 e 22 anos, com altura de cerca de 1,57m, um tamanho razoável para este período.

Eles foram dispostos na cova de frente a frente um do outro, levemente inclinados, num abraço caloroso, estando em uma posição agachada. O homem foi encontrado com uma ponta de flecha de pedra perto do pescoço, e a mulher tinha uma lâmina de pedra longa ao longo da coxa, além de duas facas de pedra sob a pélvis. Algum sinal de violência? Bem, o exame osteológico não encontrou evidências de morte violenta, nenhuma fratura, e nenhum microtrauma, então a explicação mais provável é que as ferramentas de pedra foram enterradas junto com as pessoas como bens pessoais.

Apesar da pouca idade, o casal parecia ter morrido de causas naturais, já que a vida no Neolítico era difícil e chegar aos 30 anos era praticamente uma raridade. Ao examinar os dois, não foi encontrado nada que indique que eles morreram violentamente. Seus ossos estão quase intactos e não mostram nenhum sinal de trauma grave.

A drª Elena Maria Menotti, arqueóloga responsável pela escavação olhou a cena e seu coração foi tocado, como boa italiana que é. A drª Menotti deu instruções claras para que a equipe não separasse os esqueletos, mas que cuidadosamente escavassem os dois amantes como um único bloco de terra, assentou-os com cuidado numa caixa de madeira com tampo e vidro e desde 2011, os dois esqueletos foram exibidos com orgulho no Museu Arqueológico de Mântua.

Quem eram os Amantes de Valdaro? Ninguém sabe e provavelmente ninguém saberá. Tentaram associar com Romeu e Julieta por causa da idade, mas isso é tão absurdo que nem perderei meu tempo explicando o óbvio. Ainda assim, eles estão ali, protegidos em seu amor para a posteridade. Algo que nos faz pensar sobre nós mesmos e nossa relação com quem amamos.

3 comentários em “Uma história de amor para além da vida

  1. Gostei! Uma história romântica que mostra que os seres humanos desde os primórdios já tinham a capacidade de amar.

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