Quando comeram, espancaram e enforcaram um político. Não nessa mesma ordem

Este foi um caso que aconteceu nos Países Baixos, apesar de todo mundo chamar de Holanda, mas quando falam Holanda, não é bem Holanda, ok? São os Países Baixos, ainda que o caso tenha acontecido na Holanda, a província. A República dos Países Baixos foi estabelecida depois que sete províncias holandesas (pois é, o gentílico é esse. Mais para frente eu volto a este assunto) se revoltaram contra o domínio espanhol, no evento do chamado Guerra dos 80 anos. Com isso, as províncias de Groningen, Frisia, Overijssel, Guelders, Utrecht, Zelândia e… Holanda formaram uma aliança em 1579 – no que foi chamado União de Utrecht – e mostraram o dedo médio para a Espanha, declarando sua independência em 1581 por meio do “Ato de Abjuração”.

Você vai se perguntar o que a Espanha tinha a ver com os Países Baixos, o que é uma pergunta pertinente. A resposta: nada e tudo. As casas reais europeias eram uma zona completa. Todo mundo era parente de todo mundo. No caso dos Países Baixos (não, não é Holanda. Holanda, como vimos acima, não é um país. Nunca foi), o governo estava sob controle da Casa de Habsburgo, que mandava há séculos na Europa.

A dinastia dos Habsburgos começou quando Rodolfo I subiu ao trono do Sacro Império Romano-Germânico em 1273. Em 1452, Frederico foi coroado rei do Sacro Império Romano-Germânico, e a dinastia dos Habsburgos governaria, além da Áustria, Alemanha, Países Baixos, Espanha, Portugal e, claro, Brasil Por meio de casamentos, casamentos dentro da própria família e diversas alianças, a Casa do Habsburgos tinha parentes em toda a Europa. Sim, pois é! O próprio Dom Pedro II era um descendente deles, mesmo porque, pobre só casa com rico em novela e historinha infantil.

Carlos V e seu filho Filipe II eram reis da Espanha (e Filipe II assume como rei de Portugal, dando origem à “nossa” família real habsburgueana). Só que família só é bom em retrato e cada um quer o seu quinhão, se livrando os parentes, ainda mais que o seu país está sob julgo de outros países e você não foi chamado pra festa na hora de dividir as riquezas. Veio a Reforma, a Guerra dos 30 Anos e um monte de celeumas em que interesses políticos e a religião (que em última análise está interessada em política, mesmo) estavam praticamente saindo no tapa.

As províncias da Holanda e da Zelândia (cujo nome é a origem da “Nova” Zelândia) na década de 1560 estavam altamente insatisfeitas com os altos impostos e opressão religiosa, que também causava os altos impostos, principalmente quem não se submetia aos líderes religiosos. A nobreza e demais manda-chuvas das províncias perceberam que seu poder era nenhum; e não, ninguém estava a fim da liberdade, igualdade e outras bobagens aventureiras que só viriam séculos mais tarde. Eles queriam eles mesmos ditar o poder no local. Fizeram agitação política e daí explodiu a revolta contra o domínio espanhol.

Como pobre é que nem uma única andorinha e não faz verão, as províncias só conseguiram a independência graças, principalmente, ao envolvimento da poderosa Casa de Orange-Nassau, sob a liderança de Willem de Zwijger, ou Guilherme, o Taciturno, sobre quem você aprendeu alguma coisa no colégio, mas não se lembra o que. Ele era Guilherme I, também chamado Guilherme d’Orange, Conde de Nassau, cujo filho foi Maurits van Oranje, mas você provavelmente o conhece com o nome Maurício de Orange-Nassau ou simplesmente Maurício de Nassau.

Com esses eventos, à medida que o poder econômico na Europa muda do Mediterrâneo para o Atlântico Norte no século XVII, a República dos Países Baixos se torna poderosa economicamente, consolidando uma potência financeira e mercantil, o que vai deixar muita gente irritada na Europa. Os Países Baixos explode em várias outras facetas, como na arte e no trato social, já que, livres do domínio do papado, o país se torna um ponto de refúgio para pessoas buscando liberdade de expressão e religiosa. Foi por isso que alguns religiosos foram para lá, fugindo da protestante Inglaterra, mas que não via com bons olhos católicos ou outros protestantes que não eram da Igreja Anglicana. Esses peregrinos eram puritanos, uma corrente religiosa derivada do Calvinismo. Eles ficaram um tempo na Holanda, mas queriam seu próprio recanto, só para eles. Subiram de novo no navio e enfrentaram o Grande Oceano. Esses peregrinos eram liderados por John Robinson, William Brewster e William Bradfort. O nome do navio era Mayflower e foram eles que aportaram em Cape Cod, no que viria a ser conhecido como Estados Unidos.

A Espanha tinha tomado na cabeça quando a Invencível Armada naufragou em 1588, na tentativa de invadir a Inglaterra, e o reino de Elizabeth I queria expandir seu controle comercial, mas muitos dos negócios estavam nas mãos dos holandeses (apesar do país não ser Holanda, o gentílico dos Países Baixos é holandês ou neerlandês. Irei usar o termo “holandês” como gentílico).

As outras potências europeias estavam ficando cada vez mais irritadas com os Países Baixos por causa da sua hegemonia no comércio atlântico, mesmo que os holandeses não tivessem a quantidade de colônias que a Inglaterra, Portugal e Espanha, mas que diferença fazia se estava tudo nas mãos dos Habsburgos? O Mercantilismo corrente acreditava que todo o capital circulante no mundo e os negócios eram finitos. Então, você só podia enriquecer se impedisse que os outros enriquecessem e, aproveitando o embalo, roubasse dos outros. Foi baseado nessa ideia idiota que Karl Marx escreveu seus livros, mas ela não faz um pingo de sentido. Se você criasse e oferecesse um produto/serviço novo, você criaria uma nova linha de comércio e poderia faturar com isso. Então, como assim o dinheiro é finito, os negócios são finitos? Bem, era a ideia reinante no século XVII, e me surpreende que no século XXI ainda achem isso.

O problema não era ter linhas de negócios. As outras nações queriam os negócios dos holandeses, ainda mais porque, caso não se lembrem, eles mandaram o Papado e a Inglaterra Anglicana se foder. Algumas pessoas não esquecem. Então, entre as décadas de 1650 e 1670, as principais nações europeias declararam guerra aos Países Baixos seguidamente, nunca de uma vez só, para ver se, ao sair de uma guerra, eles estavam enfraquecidos para cederem.

De novo, vamos ressaltar que este tipo de “aliança” só foi possível porque todo mundo era parente. Ou seja, uma imensa briga de família, e você sabe muito bem quando familiares brigam por herança. Isso acarretou duas guerras sucessivas, declaradas com 24 horas de diferença, por nações diferentes por motivos supostamente diferentes.

Em 6 de abril de 1672, a França declarou guerra à República dos Países Baixos, e no dia seguinte a Inglaterra fez o mesmo. Portugal ficou em cima do muro e Espanha era uma sombra do que foi um dia. Os historiadores chamam os dois eventos por nomes diferentes, como se fossem dois eventos diferentes, mas não eram. Um é chamado Guerra Franco-Holandesa e a outra como a Terceira Guerra Anglo-Holandesa. Sim, já houvera duas antes, sobre as quais não falarei.

O sistema de governo da República dos Países Baixos não possuía um presidente. O termo era Stadhouder. Uma espécie de príncipe ou primeiro cidadão, um defensor da República. Tecnicamente, era este o cargo de Maurício de Nassau. Quando o cargo de stadhouder estava vago, entrava em cena uma outra figura: o Raadpensionaris, ou Grande Pensionário, ou ainda Grande Pensionista. O Grande Pensionário nada mais era que o chefe da província mais poderosa da República, no caso, a Holanda. Ele assumia como uma espécie de funcionário público, sem ser eleito por voto direto da população. Apenas alguém nomeado, como um Regente, um Primeiro-Ministro ou mesmo um simples procurador; mas a coisa era um pouco mais complicada, já que o Grande Pensionista era, de fato, o maior líder político da província mais rica e poderosa, e os líderes das outras províncias não ficavam muito satisfeitos com isso, além de ele ser um elo fraco, por não ter um poder real consolidado, dependendo da política.

A política! A grande tragédia, nas palavras de Napoleão.

O raadpensionaris era Johan de Witt, no cargo desde 1653, e ele tinha sérios problemas. Em junho de 1672, os franceses, aliados a vários pequenos estados alemães da Renânia, começaram a invasão pelo Leste e infligiram uma série de derrotas militares impressionantes aos holandeses. A cidade de Groenlo foi tomada pelos franceses em poucos dias e a maior parte do sul da República foi invadida. O pânico se instalou em Amsterdã e Haia, pois temia-se que as cidades fossem capturadas pelos franceses, sendo arrasadas e um morticínio em larga escala, como era usual fazer. Tudo isso levou o período a ficar conhecido como Rampjaar ou “Ano do Desastre”.

Esse foi o prenúncio.

Líderes das outras províncias holandesas acharam que poderiam se aproveitar disso e depor o então stadhouder de uma vez por todas. No início de agosto de 1672, o irmão de Johan de Witt, Cornelis, foi preso e encarcerado em Haia. No dia 20 de agosto, Johan foi na inocência de alguém extremamente burro visitar seu irmão na prisão. Era uma armadilha.

O chefe da Casa de Orange, Guilherme, era o líder de uma conspiração com outros líderes de casas nobres holandesas; foi ele quem preparou a armadilha. Assim que Johan de Witt entrou, uma multidão se reuniu ao redor da prisão, e a milícia de Haia entrou. Mas, em vez de reprimir a agitação, eles invadiram a prisão e mataram os dois irmãos. Em seguida, os corpos foram barbaramente arrastados, pendurados em uma forca e mutilados, para em seguida a selvageria culminar na multidão se banqueteando com os cadáveres dos dois irmãos, cozinhando e comendo os restos mortais dos dois desafortunados irmãos.

Isso aconteceu não por causa de uma comoção pública, ou histeria coletiva. As ações foram orquestradas e comandadas por orangistas para deixar clara sua reafirmação do poder na República. O mais peculiar é que a guerra não duraria muito mais, pois, no início do outono, os holandeses conseguiram expulsar os franceses da República. O ato, então, não tinha muito a ver com a Guerra, então, a crueldade para com os de Witt naquele assassinato brutal e episódio de canibalismo, serviu unicamente para tirar do poder os manda-chuvas da província da Holanda, deixando no lugar Gaspar Fagel, de Haia, um orangista que sucedeu de Witt como Grande Pensionário.

A guerra com os ingleses terminou em 1674, praticamente num empate, enquanto a guerra com a França recuou até as condições que estavam antes da invasão. Guilherme de Orange se tornou a figura preponderante dentro da República dos Países Baixos, reafirmando o poder da Casa de Orange, comandando tudo por trás das cortinas.

Para finalizar, Guilherme de Orange se casa com Mary Stuart, filha de James, duque de York, em 1677, reivindicando – e conseguindo – o trono inglês em 1689, usurpando a coroa de seu sogro.

Então, lembre-se. Se as coisas estão ruins no seu país e você quiser se livrar do governante, independente quem esteja com a razão, lembre-se como países de verdade resolvem seus problemas governacionais.

Feliz Dia da Independência.

3 comentários em “Quando comeram, espancaram e enforcaram um político. Não nessa mesma ordem

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