Seres santos e abençoados melhoram o mundo criando plásticos melhores

O plástico é uma maravilha: durável, barato e imune à quase totalidade de agentes biológicos. Os principais problemas do plástico é que ele não se decompõe fácil, seu preço faz com que se usem em larguíssima escala e, por fim, o fato de ele não ser atacado por agentes biológicos o faz ser um produto que não é biodegradável e, por isso, sua poluição aumenta a cada dia. Esqueça o canudinho plástico. Aquilo não é nada em comparação às milhares de toneladas de plástico que países asiáticos mandam pro ambiente. E nada ali é canudinho, que tem menos plástico que o seu tão amado sachê de catchup e o plástico que embrulha o seu copinho de papelão.

A Química trouxe a revolução dos plásticos. Cabe aos gloriosos, divinos e hipersábios químicos resolverem o problema dos plásticos. VALHEI-ME, QUÍMICOS! VÓS QUE NOS AJUDEM!

O dr. Brett Helms é químico (com ele a oração e a paz!). Sua linha de pesquisa é Síntese Orgânica e Macromolecular, tendo um laboratório próprio com um monte de vassalos na Universidade Berkley. Síntese orgânica é a produção de substâncias novas por meio de Química Orgânica, a química que trata de compostos à base de carbono. Por isso, tem a piadinha do químico que viu a lixeira escrita “lixo orgânico” e joguei um copo plástico lá.

Eu deveria me sentir mal, e até me senti. Mas ainda hoje eu acho engraçado. Me processem, você e essa sua tartaruga fedida!

Bem, o dr. Helms desenvolveu, em seu abismo, uma nova família de polímeros que nos aproxima do sonho dos plásticos de ciclo zero e de desperdício zero. Aquele mundinho mágico que tudo é 100% reciclável e reaproveitável e… PÉRA! Mas o plástico é reciclável e reaproveitável! Bem, continuemos.

Helms pesquisa uma família de moléculas imensas (macromoléculas, em outras palavras) chamadas poli-dicetoenaminas, que são moléculas poliméricas de compostos heteroaromáticos chamados cetoenaminas, mas também conhecidas como “enaminonas” ou “amidas vinílogas”, as quais são mantidas juntas por ligações covalentes dinâmicas que, embora muito fortes, podem ser facilmente decompostas usando pequenas quantidades de ácido.

Estes polímeros são feitos de substâncias mais complexadas e complexas que você pode supor, então, pule este parágrafo. O que interessa é que todo polímero é composto por várias moléculas de mesma natureza presas umas às outras, como elos de uma corrente. O problema é que, assim como uma corrente, não é fácil separá-las, continuando ali, sem serem atacadas por nada. Enquanto não se quebrar os elos da corrente, ela estará sempre lá.

Há muitas técnicas para isso. Há algumas bactérias que “comem” plástico, mas na verdade elas soltam substâncias que convertem estes plásticos em outras substâncias. Ótimo, mas isso acaba não sendo interessante. Você acaba com outra poluição. Reciclar o plástico é ótimo, mas aí tem o problema do preço. Sai muito mais barato fazer outra peça plástica do zero, e nem todo plástico pode ser reciclado, como sacolas de supermercado, embora estas possam ser reaproveitadas, como para embalar lixo.

Aí quiseram acabar com as sacolas, mas isso deu problema, pois a alternativa era você comprar sacos de lixo, TAMBÉM FEITOS DE PLÁSTICO, que saíam mais caro que as sacolas, tendo que você andar com as suas compras na mão feito um tosco, porque, né?, todo mundo tem carro, certo?

As dicetoenaminas são feitas por reações químicas muito simples, usando matéria-prima barata (para padrão de indústria química): cetonas e aminas. Não é preciso empregar catalisadores, pois a reação entre elas é mamão com açúcar. Não é preciso nem solvente nem aditivos (é o eu Helms, diz, mas até corante é aditivo. Então, sim, vai ter aditivo). Em seguida, vamos para a reação polimérica para formar o plástico. Voilà! plástico barato!

Mas calma, tem mais: Este tipo de plástico é outra maravilha. Ele reage com ácidos fortes. Esses ácidos reagem na contramão do processo polimérico, isto é, desfaz a macromolécula formando os monômeros originais.

Lembram-se da corrente? Se você meter um machadão do mal nele, você quebra a corrente e o elos não vão estar inteiros, não servindo mais pra nada, a não ser se você fundir o ferro novamente. Pense numa tesoura mágica que cortasse esta corrente separando cada elo (o monômero em questão), sem destruí-lo. Esses elos perderão as propriedades de resistência da corrente mas poderão ser juntos novamente formando uma nova corrente. Na pesquisa de Helms, os ácidos empregados desfizeram o polímero, separaram as substâncias originais, o plástico perdeu sua capacidade poluente, mas poderão ser repolimerizados de novo.

Não esperem uma fórmula mágica para resolver o problema dos plásticos. Enquanto políticos imbecis acham que proibir canudinho, mas esquecendo que até guardanapo e palitos de dentes são embrulhados em plástico individualmente, químicos (com eles a oração e a paz) estudam para resolver o problema. Não há resposta única e muito menos bala mágica, mas, pelo menos, tem gente resolvida a resolver o problema, sem visar medidas imbecis unicamente com propósitos eleitoreiros.

A pesquisa foi publicada no periódico Nature Chemistry

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