A vida profunda de quem entrou numa fria e está de boas

De acordo com o dr. Ian Malcolm, a vida sempre dá um jeito. Isso é mais do que comprovado em todos os cantos do planeta. Claro, ter um planeta dentre bilhões de sistemas solares, com bilhões de estrelas em cada uma das bilhões de galáxias, deixa de ser tão impressionante assim. Algum planeta teria que abrigar vida em pelo menos um, nesses 14 bilhões de anos, e foi por pouco (várias vezes) que quase tudo não vai pra vala evolutiva. Não se sinta especial. Você deu a mesma sorte que um fungo.

Já sabíamos que no Ártico tem vida. Ok, nada de muito impressionante nas focas e ursos polares. Só que uma recente pesquisa não ficou por aí. Bem lá nos meandros, bem nas profundas profundidades profundosas, a vida é uma constante, com uma densidade de vida e biomassa bem abundante.

A drª. Antje Boetius é bióloga, chefe do Grupo de Pesquisa de Cologia Marinha de Grande Profundidade do Instituto Max Planck de Microbiologia Marinha. Ela pesquisa ecologia microbiana de mares profundos, ciclo de metano marinho, hidratos de gases, geomicrobiologia e ciclo global de carbono.

Boetius e seu pessoal foram dar uma fuçada para saber o que se esconde nas entranhas do Ártico e o que descobriram é muito interessante (vocês, eu não sei nem me importo. Mas eu me interesso por essas coisas). Pela primeira vez pesquisadores confirmaram que a biodiversidade no Ártico exibe um padrão semelhante ao observado em águas mais temperadas. Em outras palavras: não é porque lá é fio à beça que teria necessariamente que ter vida em pequena escala e com pouca variedade de espécies.

Claro, os invernos beeeeeeeeeeem longos fazem com que a vida no solo do Oceano Ártico Central seja mais esparsa que nos oceanos temperados, mas as características-chave dessas comunidades bentônicas não foram bem caracterizadas. Comunidades bentônicas são formadas por organismos que incluem espécies pertencentes a diversos grupos taxonômicos da flora e fauna aquática. São, principalmente, invertebrados aquáticos que vivem associados a diferentes tipos de substratos orgânicos e inorgânicos.

Muitos destes invertebrados bentônicos marinhos vem sendo utilizados como importantes fontes de alimento e estudados para a obtenção de substâncias com potencial farmacológico. Isso significa dizer que entender a fauna e flora do solo do Oceano Ártico é muito importante tanto para entender nossos ecossistemas, como uma garantia de pesquisas farmacológicas que levarão a novos medicamentos, de forma que químicos possam sintetizar estas substâncias e deixar os bentinhos em paz.

Para entender o que está rolando lá naquela frialdade (a palavra realmente existe), Boetius e seus colaboradores combinaram dados de levantamentos prévios do fundo do oceano com novos dados, de diferentes anos, de forma a plotar tudo num gráfico e matematizar o que anda acontecendo por lá, antes que as comunidades bênticas corram o risco de entrar numa fria por algum evento causado pelo Homem.

Eles descobriram que, como previsto, a biomassa total diminuía à medida que a profundidade aumentava, consistente com a entrada de alimentos para a vida animal, e a taxa de declínio com profundidade era maior do que nos oceanos temperados. Cinco tipos diferentes de comunidades foram identificados, os quais diferiram na composição de espécies e foram dependentes da profundidade, variando das águas rasas da plataforma continental até as profundidades crescentes do declive continental, até a planície abissal com mais de quatro quilômetros de profundidade. Como visto em águas temperadas, a diversidade de espécies aumentou e depois caiu à medida que a profundidade aumentava.

Ainda há muito o que se entender pelo que rola lá por baixo, mas não se preocupe. Você poderá entender melhor lendo diretamente o paper, que foi publicado na PlosOne e, com isso, está aberto para qualquer um ler.

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