Químicos expõem efeitos colaterais de remédio anti-malária

É que eu não queria um título muito grande, ou teria completado “De nada”. Eu sei que todo mundo odeia Química e o Chris, mas se não fosse por nós, você ainda estaria com expectativa de vida de 20 anos, sendo que aos 12 já estava pedindo pra morrer. Você odeia química, mas adora uma cervejinha, passa perfume, lava esse seu cabelo imundo com shampoo, coloca sal na batata frita, bebe água limpa, usa capinha protetora pro seu celular… aliás, USA celular, escova os dentes, veste camisa de poliéster, dorme tranquilo com seu ar-condicionado, adora pizza, toma remedinho contra dor de cabeça e sal de fruta quando está com ressaca. Continue odiando química e vá morar na savana africana. Lá você pegará malária e vai se ferrar.

Como? Um pouquinho de remedinho e se livrou da malária? Não digo que não, mas lembre-se que muito dificilmente um remédio não tem efeitos colaterais. O que não se sabia, é se se alguns remédios contra malária, como a cloroquina, possuíam efeitos colaterais; e não foi o pessoal de Humanas quem descobriu a verdade.

O dr. Robert Doyle é irlandês de boa cepa (e que Deus vire os calcanhares dos unionistas para trás) e professor de Química (com ele a oração e a paz) na Faculdade de Medicina da Universidade de Syracuse (a dos EUA e não a de Arquimedes). O dr. Doyle tem plena consciência que se não fossem os químicos, vocês, mortais, ainda estariam andando se apoiando com as mãos, uivando pra Lua, comendo carne crua e grunhindo num idioma incompreensível, não muito diferente do que é o Facebook hoje.

Doyle e uma galerinha da pesada arrumaram mil e uma confusões para que você se emocionasse com os casos de malária. O remédio mais comumente usado é a cloroquina, mas até agora não se tinha um panorama de todos os efeitos colaterais dela. Qualquer químico sabe que nenhum remédio é 100% isento de efeitos colaterais. Em alguém, com certeza, vai aparecer. Tentar prevenir ou mesmo diminuir isso é tarefa do pessoal com jaleco manchado e camisa amarrotada.

Robert Doyle, que é homônimo de ator e quase  vira homônimo de outro químico, resolveu entender melhor o grau de toxicidade da cloroquina e começou a pesquisar o que a droga faz ao se ligar a células humanas. Este medicamento tem sido muito utilizado para tratar a malária fazendo com que o pH em certas partes da célula do parasita aumentem (tornando-se básica), sacaneando as reações bioquímicas importantes que acontecem lá. O problema já pode ser antecipado: seu uso excessivo acaba sendo tóxico para os seres humanos; a longo prazo, a cloroquina pode levar a efeitos colaterais como desconforto gastrointestinal até a danos químicos para o coração e morte. Mas pelo menos você fica livre da malária.

Doyle tinha um palpite sobre a cloroquina estar agindo com uma proteína particular, a saposina B, encontrada no lisossoma das células. Se você se lembra do 8º ano do Fundamental, sabe que lisossomos contêm enzimas capazes de digerir substâncias químicas e estão presentes em praticamente todas as células eucariontes. Eles quebram, moem trituram, esmagam, retalham (ao menos, quimicamente) os resíduos e diversas substâncias formadas durante o metabolismo. A saposina B é extremamente importante, e pessoas deficientes desta substância desenvolvem uma condição fatal, totalmente incurável. Mas você é fruto de um projeto inteligente!

Doyle, que odeia refrigerantes de segundo escalão, botou sua equipe para trabalhar e pesquisar sobre os efeitos da cloroquina em cima da saposina B. O que descobriram foi que a saposina B se liga à cloroquina (o que era inesperado, já que o que se sabia é que a saposina B se liga a lipídeos, e a cloroquina não é um lipídeo.

Toda enzima trabalha no sistema chave-fechadura. Para ela processar substâncias, é preciso que essa substância tenha o “encaixe” correto. Enzima não é tudo igual. Normalmente, o formato chave-fechadura da saposina B era para se ligar a lipídeos, mas por um mero acaso, a cloroquina tem um formato bem parecido, permitindo que ela se ligue na saposina B. O problema é que o pH alto da cloroquina ataca a estrutura da saposina e aí já era!

Com essa pesquisa, outrs começarão para saber se há outros efeitos colaterais. No caso descrito, pode aparecer doenças em decorrência do acúmulo de lipídeos nas células, já que a saposina B não estará lá para combatê-las, o que deve gerar mais pesquisa para tentar impedir isso, ou desenvolvimento de outros medicamentos que não propiciem este efeito. Gostaram? Podem continuar odiando a Química e nós, químicos, nós aguentamos. Não porque sejamos heróis, não somos. Somos guardiões silenciosos, um grupo de protetores zelosos. Somos apenas químicos.

A pesquisa do dr. Doyle foi publicada no periódico ChemMedChem

2 comentários em “Químicos expõem efeitos colaterais de remédio anti-malária

    1. Valeu!
      li sobre isso quando estava na 4a. Série e fiz um trabalho para a feira de ciências da escola sobre armas químicas e biológicas rsrssr.
      Acho que hoje seria levado ao “possocólogo”.

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