Para um corpo que cai, uma câmera filmando

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Um homem ajeita seu bigode e olha para baixo. Está decidido e seu destino foi traçado. Ele sabia o que ia acontecer nos segundos seguintes, mas não sabia como iria terminar. Se olhássemos por uma janela de tempo, veríamos outro homem com uma ideia semelhante, mas com um destino totalmente diferente, já que sua decisão era muito mais ousada, mais arriscada, mais perigosa. O homem do grande bigode olha em volta. Estando no alto da Torre Eiffel, ele consegue vislumbrar a Paris de sua época: o ano de 1912, o mesmo ano que um bloco de água selou o fim titânico de um navio. O homem no futuro chegou mais alto que qualquer um chegou no modo como ele fez.

Vistos pelos olhos do dr. Manhattan, os dois eventos estavam acontecendo ao mesmo tempo. O homem de bigode saltou do alto da Torre Eiffel, o homem com roupa de astronauta salta do alto de um balão. Ambos chegam à Terra, ambos registraram seus acontecimentos, mas o destino não foi o mesmo para eles.

Franz Reichelt nasceu na Áustria em 1879. Era alfaiate de profissão, radicado na França. Enquanto suas mãos costuravam, cortavam e modelavam roupas de respeitáveis senhores, sua cabeça estava no ar. Literalmente no ar. Ele teve a ideia tão brilhante quanto questionável de criar algo como um para-quedas, o que não deixava de ser algo importante, já que Santos Dumont projetara uma máquina de cair, digo, uma máquina de voar uns 6 anos antes (a dos irmãos Wright ainda não era certa, mas este trocadilho só tem graça em inglês).

Herr Reichelt achou que podia fazer algo tão legal quanto um para-quedas, melhor que o de Da Vinci e capaz de manobrar no ar. Da Vinci era meio como Einstein e ninguém fazia coisa melhor do que ele (em muitas coisas, AINDA não fazem), mas tio Franz não tinha medo e criou o que seria como uma "asa voadora", inteiramente feita de tecido, criada, cortada e costurada por ele. Em 4 de fevereiro de 1912, o Alfaiate Voador, como era conhecido, reuniu um pessoal e subiu a Torre Eiffel para demonstrar o seu invento… e pulou! Sua proeza foi inteiramente filmada, como vocês podem ver abaixo.

São Darwin olhou pro lado com seu bloquinho e Pai Newton de Oxóssi ergueu os ombros e disse que não tinha nada a ver com aquilo. Nisso, uma motoneta ficou berrando lá de cima "Eu te disse! Eu te disse!"

Quase 50 anos depois, um evento similar acontece. Joseph Kittinger nasceu em 27 de julho de 1928, 16 anos após a morte de Reichelt; não que isso tenha qualquer significado ou relação, é claro. Ele entrou para a Força Aérea dos Estados Unidos em 1949 e, portanto, nunca poderia ter jogado uma bomba atômica nos japas. Não que isso também tenha alguma relação com o que estou escrevendo. Mas em 10 anos ele faria vários saltos de para-quedas. Quando estava a serviço do Laboratório de Pesquisa de Medicina Aeroespacial, na base Wright-Patterson, da Força Aérea, o então capitão Kittinger participou de 3 saltos de grande altitude, sendo o último deles em 16 de agosto de 1960, sendo elevado por um balão até a fantástica altura de 31300 m. Repetindo TRINTA E HUM MIL E TREZENTOS METROS.

Obviamente, o Everest mais parecia um montinho de areia e oxigênio, se tinha, estava dissolvido no sangue de Kittinger e no tanque que ele carregava. O bravo cap. Kittinger pulou e… Bem, acompanhe o vídeo:

Mr. Kittinger bateu vários recordes. Desde ser o detentor do salto mais alto (até hoje imbatível) até ser o ser humano mais rápido a cruzar a atmosfera sem o auxílio de nenhuma espécie de veículo, o que é muito fácil quando você está a cerca de 1000 km/h, quase no limiar da velocidade do som (cerca de 1226 km/h). Muitos tentam, mas ninguém ainda quebrou o recorde de Joseph Kittinger, que ainda está vivo e deve ter muita história para contar.

Levando em conta o desastre e o sucesso, tanto Reichelt quanto Kittinger têm registrados seus momentos que os colocaram na história, para o melhor ou para o pior. Reichelt fez algo muitíssimo pouco comum em sua época: registrar um evento em vídeo (ok, em película de cinema. Você entendeu). Seus últimos momentos não devem ser desvalorizados, pois sua coragem e certeza do que fazia lançou ao mundo dúvidas sobre como evitar que aquilo ocorresse novamente, da forma como ocorreu, além de estimular o registro das imagens de forma não-estática, como são as fotografias, nos trazendo a emoção do momento.

Kittinger usou a mesma ideia: o registro do que estava acontecendo ali, bem diante dos seus olhos, no vazio e solidão que o circundava. Ambos merecem crédito pela coragem de enfrentar algo que nos faz tremer, pois quando descemos das árvores adquirimos maior sensação de segurança em terra firme, mas nenhum navio que fica parado no porto descobre novos mundos, embora ainda assim possam ser destruídos por uma tempestade.

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Sobre André Carvalho

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