Sangue sabe como se defender do monóxido de carbono

As pessoas sabem – ou pelo menos deveriam saber – que nem tudo que tem oxigênio é legal. A isso soma-se o monóxido de carbono, um gás extremamente venenoso para a maior parte dos organismos mais superiores que um fungo. Com os seres humanos não é diferente, mesmo nop caso de alguns humanos que insistem em se comportar pior que um fungo. De qualquer forma, sabia-se até agora que muito pouco podia-se fazer contra envenenamento por CO, como ele é conhecido em sua fórmula química, mas parece não ser bem o caso e, sim, há um processo natural onde as células se protegem contra este safadinho.

De início, vamos à aulinha.

Quando você inspira, o ar entra pelas narinas (ou boca) e vai em direção aos pulmões, passando por brônquios, bronquíolos e, finalmente, chegam aos alvéolos pulmonares. Você sabe isso, principalmente se esteve no colégio. Dentro dos alvéolos, acontece a chamada "troca gasosa", a qual tem o nome lindinho de "hematose". Estra troca gasosa se baseia no fato do oxigênio se "diluir" no sangue, sendo levado para todo o corpo. Eu uso o termo "diluir" entre aspas pelo fato que o oxigênio não se dissolve no sangue como açúcar se dissolve em água. O sangue contém hemácias, também chamadas de "glóbulos vermelhos"; as hemácias contém uma proteína chamada "hemoglobina" que nada mais é que uma hemoproteína.

O que isso tem a ver com o monóquissido de cambono, digo, carbono?

Tudo, mas não seja apressado. A hemoglobina (cuja fórmula estrutural você vê ao lado) é uma proteína tão importante que nos mamíferos está presente em 97% do contingente seco do sangue (isto é, sem contar a água) e cerca de 37% do sangue, contando com a água. Trata-se de uma hemoproteína, ou seja, uma proteína contendo um metal como co-fator, isto é, uma metaloproteína. Este metal pode estar inserido na estrutura da cadeia polipeptídica da referida proteína, ou não., Simples, não é?

Santa Mãe de Deus!

Sabia que vocês iriam adorar. :mrgreen:

Voltemos à hemoglobina. Vocês estão vendo o ferro no meio da estrutura molecular? Pois bem, este é o famoso ferro-heme. Eu falei sobre ele no artigo Veganismo Desmascarado, onde mostro que vegans não sabem nada de bioquímica. Ferro-heme só pode ser encontrado em proteínas animais. Pode pesquisar à vontade. Este ferro é o co-fator da hemoglobina, que é, portanto, uma metaloproteína e, por fim, uma hemoproteína.

Quando o sangue chega aos alvéolos, a hemoglobina captura o oxigênio que está chegando em sua rede. Assim, o oxigênio é transportado em meio ao grupo heme, o grupo onde o ferro está. O sangue adquire uma tonalidade mais viva e volta ao coração, o qual o bombeará para todo o corpo, alimentando células ávidas por oxigênio, de forma que possam fazer sua respiração (respiração celular), usando o oxigênio para oxidar substâncias e gerar energia. O subproduto é dióxido de carbono (CO2), o qual é capturado pela hemoglobina também e o sangue continua seu percurso até chegar ao coração. Do coração, o sangue é bombeado para os pulmões (pequena circulação), onde o dióxido de carbono capturado é "trocado" pelo oxigênio (daí o motivo de ser chamado "troca gasosa"). O CO2 é expelido para a mistura gasosa que sai do pulmão quando este é "espremido" pelo diafragma e faz todo o percurso de saída. Novo inspirar e o ciclo recomeça.

A proteína é espertinha como podemos ver, não é mesmo? Só que não há nada de esperteza ou consciência do que se deve fazer. Simplesmente é uma questão química: o gás oxigênio, devido ao formato e tamanho de sua molécula forma uma molécula complexa mais estável do que a que é formada usando-se dióxido de carbono. Simples química, nada mais; e é aí que resulta o problema com o monóxido de carbono.

O monóxido de carbono possui a fórmula molecular CO. É uma molécula linear como o oxigênio e mais ou menos do mesmo tamanho. O problema reside que ele se encaixa melhor na hemoglobina que o gás oxigênio. Isso acarreta que se você estiver num recinto fechado com altas concentrações de monóxido de carbono, ele será inalado, irá até os alvéolos e tomará o lugar do oxigênio na hemoglobina. Ele será carregado até as células do corpo que ficarão possessas da vida, já que monóxido de carbono não serve para oxidar açúcares entre outras coisas. A célula devolve o carregamento de monóxido de carbono e o sangue continua a sua jornada, voltando até os pulmões. estes continuarão sem dar gás oxigênio pro sangue e assim se prossegue, até que as células começam a morrer por anóxia, isto é, falta de oxigênio. Como resultado, o cérebro desliga, os neurônios ficam com soninho e você dormirá o sono dos justos, alocado a 7 palmos debaixo do chão.

Ei, então aquele negócio de ligar o motor do carro numa garagem fechada faz a pessoa morrer é verdade, né? Afinal, queimas incompletas geram monóxido de carbono.

Não, não é verdade. Pelo menos, não como mostram nos filmes. O volume em m³ de uma garagem iria requerer muitos litros de CO para que ele pudesse tomar totalmente o lugar do oxigênio no seu sangue. Em banheiros com aqueles aquecedores velhos e desregulados são outros 500, já que um banheiro normalmente é um espaço pequeno. De qualquer forma, o perigo do CO é que ele é inodoro e invisível. Mata por pura asfixia, vinda com sérios danos cerebrais (o que ocorrer primeiro).

Mas é interessante uma coisa: se o gás carbônico vem de um processo semelhante à queima (a saber, ambas são oxidações), então seria possível obter-se monóxido de carbono dentro de nosso próprio organismo, né? E é o que acontece. Mas, se isso realmente acontece, como não estamos mortinhos da silva? Bem, cientistas ingleses descobriram como os organismos vivos  conseguem evitar o envenenamento de monóxido de carbono gerado por processos celulares. A pesquisa foi publicada na PNAS.

A drª Svetlana Antonyuk, do Departamento de Biologia Química e Estrutural da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, e seus colaboradores estudam como ocorre o processo de assimilação do monóxido de carbono no organismo. Sabendo que as reações químicas e bioquímicas em nosso corpo fazem aparecer quantidades diminutas de monóxido de carbono, ficou-se pensando no porque de ele não passar o cerol no distinto ser vivo. A resposta está na quantidade envolvida.

No caso que eu citei acima, uma garagem é grande demais para que a concentração de CO sobreponha a de gás oxigênio. Sendo assim, mais oxigênio é "diluído" no sangue do que o CO. As hemoproteínas, de acordo com o estudo realizado, possuem um método particular de lidar com o problema do CO. Elas são protegidas contra o envenenamento mudando sua estrutura cada vez que moléculas de monóxido de carbono se aproximam. Claro que isso não resolve o problema se você estiver num banheiro com um boiler mal regulado. Neste caso, a concentração de CO será muito maior, impedindo que a hemoglobina possa alterar sua cadeia polipeptídica, de forma a impedir que o CO se mescle a ela.

A hemoglobina "sabe" quando há CO ao invés de O2 no ambiente, mediante sinais químicos emitidos, devidamente estudados pela equipe de pesquisa. A meta é utilizar estes sinais químicos para servir de alarmes em locais onbde possa ter acúmulo de monóxido de carbono, alertando as pessoas para que saiam daquele ambiente, logo que o sinal químico avisar do que está acontecendo, seja em indústrias ou em laboratórios de pesquisa, mesmo.

Um comentário em “Sangue sabe como se defender do monóxido de carbono

  1. Nunca fui muito fã da química :roll: (estudei eng. elétrica e atuo na eng. mecânica).
    Mas acho fascinante quando é bem explicado e eu consigo entender o que se passa. :razz:

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