Capacidade de adaptação do cérebro está associada à evolução motora de mãos transplantadas

Pesquisadores brasileiros e franceses acabam de dar mais um passo rumo à compreensão da grande capacidade do cérebro humano de se adaptar a modificações no organismo. A análise das mudanças ocorridas no órgão após transplantes de mãos mostrou que essa habilidade cerebral está relacionada não apenas à recuperação dos movimentos, mas também a diferenças na evolução da função motora dos lados direito e esquerdo do corpo.

Embora a capacidade cerebral de adaptação a alterações no organismo (chamada plasticidade) seja bem conhecida pela medicina, pouco se sabe sobre a reação do órgão a membros transplantados. A plasticidade cerebral após o transplante de mãos já havia sido confirmada, mas nenhum estudo havia mostrado até hoje a relação entre a reorganização do cérebro e o grau de recuperação das funções motoras dos novos membros.

A bióloga Cláudia Vargas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Centro de Neurociência Cognitiva da Universidade de Lyon (França), acompanhou a evolução motora de dois pacientes (de 20 e 42 anos) que receberam transplantes das duas mãos e mapeou as alterações na plasticidade de seus cérebros. Ambos eram homens destros, que receberam os transplantes três e quatro anos após a perda das mãos.

O estudo, publicado em abril na PNAS utilizou uma técnica que estimula pequenas áreas da região do cérebro responsável pelos movimentos (chamada córtex motor primário) por meio de ondas magnéticas. Os estímulos provocam pequenas reações nos músculos aos quais os neurônios estão ligados. Dessa forma, a equipe mapeou as áreas do cérebro correspondentes a cada músculo dos braços e mãos.

“Os movimentos das mãos são definidos por músculos intrínsecos (que ficam dentro da mão) e extrínsecos (localizados no antebraço)”, explica Vargas. Estudos anteriores revelaram que, quando uma pessoa tem as mãos amputadas, as áreas do cérebro responsáveis por seus movimentos passam a responder por parte da face e do antebraço.

O mapeamento feito por Vargas mostrou que as áreas do cérebro que passaram a controlar os movimentos da face e do antebraço quando os pacientes perderam as mãos aos poucos voltaram a responder pelos músculos dos membros transplantados. “Isso prova que os neurônios dessas regiões tiveram sua atividade transitoriamente deslocada para outras áreas, mas, após o transplante das mãos, eles voltaram às suas funções anteriores”, conclui a bióloga.

Ao acompanharem a evolução das funções motoras dos membros transplantados, os pesquisadores notaram que os pacientes apresentaram melhor movimentação e mais firmeza nos dedos da mão esquerda. Embora fossem destros antes das amputações, ambos preferiam executar operações mais complexas, como apertar um parafuso, com a mão esquerda.

Segundo Vargas, isso pode ter ocorrido por causa da provável menor capacidade de reorganização do lado cerebral responsável pela mão direita. “Em pessoas destras, a área correspondente à mão direita tem um circuito nervoso mais ancorado, o que talvez dificulte sua modificação”, supõe.

Outra possibilidade levantada pelos pesquisadores é que o fato de os pacientes terem usado próteses nos anos anteriores ao transplante pode ter estimulado reorganizações mais complexas no córtex cerebral. Como a prótese funciona extraindo movimentos dos músculos extrínsecos, ela estimularia uma reorganização das áreas do cérebro em favor desses músculos, especialmente os do lado direito, mais usados por destros. Por isso, os pacientes encontrariam dificuldades no restabelecimento de movimentos mais apurados, que dependem dos músculos localizados dentro das mãos.

A constatação dessa diferença na recuperação dos movimentos das mãos direita e esquerda deve originar discussões sobre as prioridades no acompanhamento médico dos pacientes antes e depois de transplantes. Vargas ressalta que os resultados do estudo não se restringem à atividade motora. “Nossa pesquisa mostra que o cérebro está o tempo todo se reeditando, sempre aberto a novas configurações.”


Fonte: Ciência Hoje Online

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