Quando a ciência ajuda a preservar a arte

Restauradores de arte, curadores de museus e cientistas de todo o mundo se reuniram no início de fevereiro em Caracas, Venezuela, para discutir algumas preocupações crescentes com a recuperação de obras de arte e peças de acervos em todo o mundo – especialmente em climas tropicais, onde são mais atingidas por mofo, fungos e insetos. No fórum sobre a Conservação do Patrimônio Cultural pesquisadores destacaram diversas aplicações de , que pode ser prejudicial para objetos delicados, até limpar uma peça com bactérias adequadamente selecionadas.

A ciência finalmente “estabeleceu uma base sólida no mundo da arte”, avalia José Luis Ramirez, co-autor de um estudo sobre a utilização da biotecnologia na preservação da arte, e diretor do Programa de Biotecnologia da United Nations University para a América Latina e Caribe (Biolac, na sigla em inglês), uma escola interdisciplinar que promove o uso da biotecnologia em diversas áreas, desde a agricultura até indústria de manufaturados.

O evento, patrocinado pelas Nações Unidas e pela Fundação para Conservação do Patrimônio Cultural – uma organização sem fins lucrativos que promove a preservação de objetos de arte – foi realizado no Instituto de Estudos Avançados de Caracas. Este ano o tema foi a conservação de acervos e coleções completas, que segundo Álvaro González, diretor da Fundação na Venezuela, estão em “estado de emergência.”

As condições atuais e até futuras de muitas coleções, mantidas em museus e galerias de países tropicais, preocupam Ramirez. Ele observa que o clima em países como a Venezuela é “bom para o número de espécies, mas ruim para o número de parasitas.” Ao contrário de um museu americano convencional, muitas instituições na América Latina não estão equipadas com ar-condicionado e outros dispositivos para controlar temperatura e umidade, por exemplo. Esses procedimentos se tornaram ainda mais raros no atual cenário financeiro, Quando a economia vai mal, a primeira vítima é a cultura, lamenta Ramirez.

Nieves Valentine Rodrigo, pesquisadora do Instituto do Patrimônio Cultural da Espanha, em Madri, verificou que determinados microrganismos podem ser utilizados para testar uma série de possíveis ameaças a uma coleção, incluindo umidade, poluição do ar, poeira e até mesmo o impacto da presença diária de visitantes.

Embora, a prevenção seja o tema do fórum este ano, alguns pesquisadores sugeriram técnicas de limpeza e restauração de obras que já foram danificados. Métodos mais tradicionais, como pesticidas químicos e limpeza convencional, podem danificar as peças e representam potenciais riscos para as pessoas e o ambiente. “É preciso encontrar formas de combater as pragas usando técnicas mais delicadas”, comenta Ramirez. Avanços na biotecnologia acenam com uma solução para os restauradores atenuarem os danos.

Giancarlo Ranalli, pesquisador italiano e participante do fórum, já utilizou bactérias para limpar a base da Pietà Rondanini, de Michelangelo, em Milão, e outro tipo de bactéria para remover cola nociva de afrescos em Pisa. Ramirez também descreve o uso de técnicas forenses de análise de DNA para identificar tocas de insetos em pedaços de madeira a partir de fragmentos de excrementos, ou de pequenas partes do corpo que permitem determinar a espécie exata e assim poder erradicá-la corretamente. Além disso, ele sugere a utilização de um processo chamado biomineralização, em que micróbios introduzidos em rachaduras de uma escultura, depositam carbonato de cálcio que aos poucos adquire a cor da peça original, enquanto preenche a fresta.

O segredo para que essas técnicas sejam bem sucedidas é o acompanhamento cuidadoso e contínuo da peça durante o tratamento com microrganismos e manutenção da limpeza após o processo, observa Ranalli, em trabalho apresentado na conferência.


Fonte: Scientific American Brasil

Um comentário em “Quando a ciência ajuda a preservar a arte

  1. Utilizar micróbios “comuns” para fechar rachaduras em peças de arte é uma coisa que eu realmente nunca imaginei, pena que não existia esse empenho de preservar a arte antigamente, não que hoje exista muito, mas com certeza teríamos muito mais obras e historia preservada.

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