Nas entrelinhas do código Da Vinci

DA FICÇÃO PARA A REALIDADE

Dois exemplos ilustram bem essa situação. No Brasil, vive-se um estado de perplexidade e abulia em virtude dos escândalos de corrupção que envolvem os governantes. Diante das irregularidades amplamente divulgadas, os cidadãos são afrontados por discursos políticos quase delirantes que, apesar das evidências expostas na mídia, as negam de maneira veemente. Tudo leva a crer que as decisões são tomadas conspiratoriamente, isto é, em negociações secretas nas quais grupos de interesse fazem acertos sem dar satisfações públicas, o contrário do que deveria acontecer numa democracia. O segundo exemplo vem dos Estados Unidos, o que mostra que o problema não ocorre apenas na periferia do planeta. O presidente George W. Bush foi eleito de forma fraudulenta e tem alimentado guerras com base em falácias comprovadas. Em ambos os casos, às mentiras sistematicamente sustentadas contrapõe-se a realidade mantida em segredo em função de fortes interesses que eventualmente vêm à tona por motivos alheios aos que estão no poder.

Assim, já não é tão fácil rotular de paranóico quem imagina que o poder é exercido por pequenos grupos que representam não o povo, mas os grandes conglomerados econômicos, que realizam acordos e alianças secretas, sem nenhuma transparência, muito distantes dos ideais democráticos nos quais teimosamente insistimos em acreditar. Dessa forma, ao veicular uma versão conspiratória da história, O Código Da Vinci expressa também o espírito dos tempos em que estamos imersos.

ARRASA-QUARTEIRÃO

O Código Da Vinci é inevitavelmente um produto globalizado, na medida em que está inserido na forma presente assumida pelo capitalismo, o qual tende a formar um mercado único e uniforme, em detrimento da diversidade de arranjos regionais, cuja tendência é desaparecer. No que diz respeito aos produtos da indústria cultural, a globalização pode trazer graves danos para a identidade cultural de povos e de países menos poderosos. Tais características, porém, não eliminam o interesse e a possibilidade de revelar aspectos do pathos (ler sobre Psicopatologia) da nossa contemporaneidade.

A mistura bem dosada de ingredientes diversos como a lenda do Santo Graal e as narrativas policiais ou detetivescas, temperada com pitadas de alta cultura ocidental (pinturas, tesouros arquitetônicos, história européia, por exemplo) mobilizam o grande público.

OFENSA E VINGANÇA ISLÂMICA

Diz a fatwa:

“O autor de Os versos satânicos, texto escrito, editado e publicado contra o Islã, contra o Profeta do Islã e contra o Alcorão, juntamente com todos os editores e responsáveis por sua produção que sabiam de seu teor, estão condenados à pena capital. Conclamo todos os valentes muçulmanos em qualquer lugar do mundo a executar esta sentença sem delongas, de modo que doravante ninguém ouse insultar as sagradas crenças dos muçulmanos”.

Salmon Rusdhie viveu escondido, sob a proteção do serviço secreto britânico, durante dez anos. O protesto mundial foi moderado porque interesses políticos e comerciais não permitiram discordância muito direta com autoridades iranianas. Como se estendia a todos os envolvidos na edição de Os Versos Satânicos, algumas pessoas sofreram sérias conseqüências: o tradutor japonês foi assassinado e o italiano espancado e esfaqueado; o editor norueguês, gravemente ferido a bala; e o tradutor turco foi pivô de uma grande manifestação popular que redundou no incêndio de um hotel e na morte de 27 pessoas. A fatwa foi suspensa em 1998, mas a decisão não foi aceita por grupos mais radicais, que consideraram que ela só poderia ser revogada por quem a havia proferido, no caso o aiatolá Khomeini, já morto. Portanto, a fatwa ficaria formalmente irrevogável. Em 1999 uma fundação iraniana ofereceu US$ 2,8 milhões pela vida de Rushdie, e a Guarda Revolucionária Iraniana reiterou os apelos por seu assassinato. Em 2005, o aiatolá Khamenei reafirmou a fatwa contra o escritor indiano.

Fonte: Mente e Cérebro

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