Nas entrelinhas do código Da Vinci

ROMANCE FAMILIAR

Só mais recentemente foi possível separar os valores éticos dos religiosos. Em outras palavras, tornou-se possível pensar que se deve fazer o bem e evitar o mal não para cumprir um mandamento divino, não por temor à divindade, mas por respeito ao semelhante. Tal visão agnóstica não significa uma volta à barbárie e sim a crença de que o homem, à medida que compreenda e integre seus próprios desejos e conflitos inconscientes, possa se tornar mais responsável por si e pelos outros, procurando conter seus impulsos agressivos e sexuais em prol do bem comum.

Os textos sagrados das maiores religiões guardam um enorme acervo de sabedoria recolhida ao longo dos tempos. Que ela tenha se apoiado na figura de Deus para se justificar parece ser uma contingência histórica, o que talvez no futuro – assim como tantas outras ilusões não seja mais necessário, como ansiava John Lennon na canção Imagine. Quem sabe então os homens terão compreendido que Deus e religião são significantes que abrigam não uma essência divina, mas uma realidade humana o melhor de que somos capazes.

Freud muitas vezes abordou o fenômeno da religião, reconhecendo seu imenso poder sobre a humanidade. Em linhas gerais, ele a entendia como expressão do desamparo que todos tivemos de enfrentar na primeira infância, o que gera a necessidade permanente de proteção contra os perigos e de figuras paternas que nos garantam proteção e amor. Deus seria esse pai do qual não podemos abrir mão sob o risco de cairmos em desespero ante as dificuldades da vida e a certeza da morte.

A maneira como a criança vê os pais na infância cria uma fantasia característica, que Freud chamou de romance familiar. Inicialmente a criança atribui aos pais qualidades extraordinárias, considera-os seres perfeitos e incomparáveis em sua grandiosidade. Essa visão necessariamente cede espaço a uma apreciação mais realística, porque entra em contato com as limitações dos adultos, além das inevitáveis frustrações e dificuldades. Nem por isso, entretanto, ela abre mão facilmente dessa visão idealizada da família. Durante certo período, fantasia ser filha de outros pais, de alta estirpe, que, no futuro, virão resgatá-la, levando-a para um lugar mais condizente com sua ascendência aristocrática. Essa fantasia dá expressão tanto aos conflitos de rivalidade edipiana com o pai, como também é uma maneira de manter a forma grandiosa com a qual o via anteriormente e que teve de abandonar diante dos embates com a realidade, o que a fez deparar com suas fraquezas e debilidades.

A antiga imagem idealizada do pai se refugia também nas figuras de deuses e heróis existentes na cultura, como bem mostrou Otto Rank em seu clássico O mito do nascimento do herói. Estudando narrativas produzidas por povos muito distantes no tempo e no espaço – como as dos reis babilônicos Gilgamesh e Sargon, do herói hindu Karna, do rei persa Ciro, dos heróis gregos Édipo, Hércules, Páris e Perseu, entre muitos outros , Rank constatou inúmeras semelhanças, uma vez que essas narrativas constituem variações em torno da mesma e única fantasia básica o romance familiar.

A concepção imaculada de Maria, tida como dogma de fé do cristianismo, tem similares nas narrativas de nascimento de vários heróis e de homens santos. Muitos deles, como Jesus, são filhos de mãe virgem e morrem sem registro de vida sexual nem descendência. Essa fantasia é uma modalidade do romance familiar, em que o pai não mais é substituído por um nobre ou milionário, e sim por uma entidade infinitamente superior: o próprio Deus. O mito de nascimento de mãe virgem é uma elaboração do complexo de Édipo. Diante dos ciúmes do pai e do desejo de posse da mãe, o filho não tolera se ver como produto de uma relação sexual que o exclui, pois ela deixa evidente que o pai é o objeto de amor da mãe. O filho então se imagina fruto de uma mãe virgem. Estudos como esse mostram como as narrativas, muitas vezes consideradas fruto de revelação divina, na verdade não passam de elaborações culturais de antigas fantasias infantis decorrentes dos conflitos de amor e ódio da criança em relação aos pais.

Ao abordar a sexualidade de Jesus em O código Da Vinci, Dan Brown acertou em cheio num tema que provoca profundas ressonâncias no imaginário coletivo. Sua narrativa evoca o romance familiar e todas as implicações ligadas às imagens idealizadas de pais assexuados e grandiosos, figuras que povoam o panteão de deuses e heróis, de mitos e religiões. Digamos que a reação afetiva à idéia exposta pelo autor de que Jesus teve relações sexuais e formou uma família seria equivalente àquela que a criança tem ao descobrir, entre fascinada e indignada, que os pais mantêm relações sexuais.

Finalmente, outro elemento que prende a atenção no Código Da Vinci é sua estrutura policial, de suspense, que mostra uma visão conspiratória da história. Inadvertidamente, os heróis do enredo fazem descobertas decisivas que modificam de forma radical a maneira como o mundo era apresentado até então pelas “versões oficiais” sustentadas pela cultura e pelo poder organizado. Além disso, as teorias conspiratórias da história, que sempre existiram, tomam fôlego no momento atual em razão de uma descrença generalizada nos sistemas representativos políticos vigentes.

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