Nas entrelinhas do código Da Vinci

O enorme sucesso do romance O Código Da Vinci, de Dan Brown, bem como do filme nele baseado, o caracterizam como produto típico da indústria cultural globalizada consumido vorazmente por milhões, até saturar o mercado e logo ser esquecido e substituído por um similar que inicia um novo ciclo de consumo. Em contrapartida aos produtos da indústria cultural, as obras de arte atingem um número pequeno de pessoas e persistem por muito tempo, seduzindo novas gerações. Elas dificilmente são tão lucrativas quanto os artefatos da indústria cultural, que enchem os bolsos de todos os envolvidos em sua produção.

O enredo já é de conhecimento geral: a descoberta do “verdadeiro” significado do Santo Graal. Não se trata, como diz a lenda, do cálice usado por Jesus na Santa Ceia, mas da própria Maria Madalena metáfora segundo a qual seu corpo é o recipiente onde Jesus depositara sua semente, ou seja: a mulher com quem teria tido filhos. O resultado seria a descendência que perdura até nossos dias e sobreviveu à perseguição sistemática de fanáticos manipulados pela Igreja, interessada em manter a imagem convencional do filho de Deus. Quem protege Maria Madalena e também sua linhagem são os Cavaleiros Templários, que se converteram em guardiões função que teriam mantido, através dos séculos, resguardados pelas sociedades secretas por eles fundadas.Para que toda essa descoberta se realize, os heróis da trama desvendam incontáveis enigmas, códigos e pistas ocultas.

O que mais toca os espectadores e parece ser a fonte do grande apelo popular obtido pelo autor possivelmente seja o fato de que Jesus teria se envolvido sexualmente com Maria Madalena, e com ela constituído família. Por que essa idéia suscitaria tanto interesse? Antes de mais nada, pelo aspecto religioso. O dogma afasta qualquer traço de sexualidade da figura de Jesus. Ele é filho de uma mãe virgem e não há menção a nenhuma atividade sexual de sua parte.

SENTENÇA DE MORTE

O fato de Dan Brown ter feito uma obra que se contrapõe diretamente à doutrina religiosa sem sofrer punição aponta para a extraordinária importância da Revolução Francesa, que tornou possível a separação entre Estado e religião nos países ocidentais.

Apesar de protestos de grupos religiosos em diversas partes do mundo, inclusive Vaticano, em nenhum momento o livro ou o filme foram censurados e o autor perseguido algo impensável em países muçulmanos, onde religião e Estado permanecem fundidos e a figura do Profeta é intocável. Nunca é demais lembrar a fatwa – sentença de morte por blasfêmia e apostasia (fomento ao abandono da fé islâmica) que autoridades religiosas iranianas impuseram ao escritor indiano Salman Rushdie em 1988 por seu livro Versos Satânicos.

É preciso levar em conta que a forma como Rushdie tratou a figura do Profeta foi muito mais discreta que a de Brown em relação a Jesus em O código Da Vinci. Desse prisma, o sucesso do livro é uma evidência de que vivemos em Estados laicos, nos quais a religião não impõe diretamente suas normas. A fatwa é um exemplo cabal de fanatismo religioso de nossos dias, equivalente às fogueiras da Inquisição na Idade Média e ao Index librorum prohibitorum (Índice de livros proibidos) da Igreja Católica, instituído em 1559 e ainda vigente, obviamente sem a mesma força. A fatwa tem sua contrapartida nos fundamentalistas americanos: a população do chamado Bible belt – que abrange boa parte do sul e do centro dos Estados Unidos, onde prevalecem os evangélicos pentecostais. Entretanto, é importante enfatizar uma diferença capital em relação aos muçulmanos: por mais radicais e fanáticos que os americanos sejam, sua influência política é indireta e obliterada pelo Estado laico.

O fanatismo e o fundamentalismo intransigente são exemplos extremos de como é difícil abordar e discutir religião, aliás qualquer crença, ideologia ou visão de mundo. Trata-se de idéias e convicções firmemente arraigadas na própria identidade do sujeito, adquiridas desde a mais tenra infância, associadas com figuras familiares amorosas do passado (pai, mãe etc.), que configuram a maneira de entender o mundo e nele se situar, sendo parte significativa da própria idéia que o sujeito faz de si mesmo. Assim, qualquer discussão sobre tais assuntos é sentida como ameaça à própria existência, à identidade pessoal, uma ofensa que pode desencadear reações extremas e violentas.

Além disso, outro motivo justifica a reação negativa a qualquer análise crítica do fenômeno religioso. Para a maioria das pessoas, a religião simboliza o que há de mais elevado no ser humano sua capacidade de amar, o respeito pelo outro, o interesse na comunidade, o comportamento pacífico e amistoso, o repúdio à violência e à agressividade. Quando alguém critica a religião, as pessoas automaticamente pensam que esses valores estão sendo atacados. A confusão resulta da falta de distinção entre valores éticos e religiosos o que é compreensível, já que durante muito tempo os primeiros se apoiaram nos últimos.

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