Achado primeiro planeta extra-solar habitável

Um planeta parecido com a Terra, possivelmente com condições de abrigar vida, foi descoberto por astrônomos europeus. Com cinco vezes a massa da Terra e o raio 50% maior que o de nosso planeta, Gliese 851c é o menor planeta extra-solar já encontrado. “Nós estimamos que a temperatura média nessa ‘super-Terra’ seja entre zero e 40 graus Celsius, e com isso a água seria líquida”, disse Stephane Udry, do Observatório de Genebra, autor do artigo publicado na revista especializada Astronomy and Astrophysics. “Mais do que isso, seu raio deve ser apenas 1,5 vezes maior do que o da Terra e modelos sugerem que o planeta deve ser rochoso – como a nossa Terra – ou coberto de oceanos”, disse.

A descoberta do planeta foi feita com auxílio de um instrumento que mede as minúsculas mudanças que acontecem na velocidade de uma estrela quando ela sofre a força gravitacional de um planeta próximo. Os astrônomos precisam usar esse tipo de método porque as tecnologias dos telescópios atuais não são suficientes para observar objetos muito distantes e apagados, principalmente quando eles orbitam perto do brilho de uma estrela.

O planeta percorre uma órbita de 13 dias em torno da estrela Gliese 851, uma anã-vermelha situada a 20,5 anos-luz do Sistema Solar, na constelação de Libra. A distância entre os dois astros é 14 vezes menor que aquela que separa a Terra do Sol. Ainda assim o planeta está situado em uma região habitável, já que Gliese 581c tem um terço da massa do Sol e uma luminosidade 50 vezes menor.

“De todos os planetas que encontramos ao redor de outras estrelas, esse é o que parece ter os ingredientes certos para a existência de vida”, disse Alison Boyle, curadora de Astronomia do Museu da Ciência de Londres.

“O planeta fica a 20 anos-luz, então não iremos lá em breve”, disse Boyle. “Mas com novos tipos de tecnologia de propulsão isso poderá acontecer no futuro. E, obviamente, estaremos focando alguns telescópios poderosos nele para ver o que conseguimos observar”, disse.

Segundo Xavier Delgosse, da Universidade de Grenoble, o planeta poderá ser o destino de missões futuras em busca de vida alienígena. “Água líquida é crítica para a vida como conhecemos”, disse.

A superfície do planeta deve ser rochosa ou coberta por oceanos, de acordo com modelos usados pela equipe de Stéphane Udry, do Observatório de Genebra (Suíça), responsável pela descoberta. Os pesquisadores submeteram um artigo que descreve o novo astro para publicação na revista Astronomy and Astrophysics .

Gliese 851c foi identificado por um aparelho acoplado a um telescópio do Observatório do Sul da Europa situado no Chile. “O instrumento mede variações na velocidade radial da estrela provocadas pela atração gravitacional que o planeta exerce sobre ela”, explica Thierry Forveille, astrônomo do Observatório de Grenoble (França) e co-autor do estudo. “O método é o mesmo usado na descoberta da maior parte dos planetas extra-solares, mas os avanços na precisão das medições têm permitido encontrar planetas de massa menor.”

A mesma equipe havia identificado há dois anos um outro planeta na órbita da Gliese 851, com massa 15 vezes maior que a da Terra, similar à de Netuno. Novas medições acabaram mostrando que havia mais dois planetas no sistema – além do Gliese 851c, o grupo descreve no mesmo artigo um terceiro planeta, com massa oito vezes maior que a da Terra.

A equipe espera confirmar em breve que há água líquida na superfície do novo astro. “Se tivemos sorte, a orientação da órbita de Gliese 851c permitirá que comparemos a luz da estrela quando o planeta está diante e atrás dela. Com isso, poderemos isolar a luz do planeta e, assim, identificar assinaturas específicas da sua atmosfera e da água em particular”, conta Forveille.

Para o descobridor do primeiro planeta capaz de abrigar vida fora do Sistema Solar, esse foi só o começo da brincadeira. O astrônomo Michel Mayor, do Observatório de Genebra, na Suíça, afirma que muitos outros astros dessa categoria serão descobertos nos próximos anos.

“Para nós, o que é mais estimulante a respeito desse achado é que ele mostra que, de fato, os planetas terrestres [ou seja, rochosos, como a Terra] são muito comuns no Universo, mais comuns do que os gigantes gasosos”, diz Mayor.

Segundo o cientista, logo serão encontrados astros ainda menores, até chegarem a localizar virtuais gêmeos da Terra. “Estamos convictos de que temos hoje a tecnologia para detectar planetas bem menores que esse, com tamanho ainda mais próximo do terrestre.”

Mayor sabe do que está falando. Foi ele o responsável pela descoberta do primeiro planeta extra-solar – um gigante gasoso em órbita da estrela amarela 51 Pegasi. Desde 1995, quando ocorreu esse avanço pioneiro, mais de 200 planetas extra-solares foram descobertos. Mas a maioria era composta por astros gigantes, do mesmo tipo de Júpiter. Isso criou a impressão inicial de que os planetas grandalhões podiam ser mais comuns que os pequeninos, como a Terra. Mas era apenas um viés criado pela técnica.

Para descobrir planetas, Mayor e seus colegas contam com evidências indiretas – como a luz do planeta é muito fraca para ser observada diretamente, o que os cientistas fazem é observar o movimento que a estrela faz, atraída por seus planetas conforme eles avançam em suas órbitas. Naturalmente, quanto maior o planeta, maior o efeito, e mais fácil fica detectá-lo. Por essa razão, até hoje a imensa maioria dos astros catalogados é composta por gigantes gasosos.

Entretanto, os cientistas têm refinado sua técnica, e agora chegaram a um ponto em que podem descobrir planetas de massa similar à da Terra. Com o instrumento Harps, instalado num telescópio de abertura de 3,6 metros no ESO (Observatório Europeu do Sul), Mayor e seus colegas conseguiram encontrar um astro potencialmente habitável com apenas cinco vezes a massa terrestre ao redor da estrela Gliese 581. E agora prometem que a busca de um planeta do porte exatamente como o da Terra está a, no máximo, alguns poucos anos de distância.

“Estou certo de que mais e mais desses objetos serão encontrados, com massas cada vez menores.”

Além do refino da técnica, os alvos de estudo do grupo também devem ser duplicados em breve. “Acabamos de ter uma conversa com o pessoal da Universidade Harvard para instalar uma cópia do Harps num telescópio no hemisfério Norte”, relata o cientista. “Com isso, poderemos procurar por esses planetas nos dois hemisférios.”

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Mayor também aponta dois telescópios espaciais que poderão fazer a diferença nos próximos anos nessa busca por outras Terras. Um é o satélite Corot, lançado pelos europeus no final do ano passado; outro é o Kepler, que deve voar em novembro de 2008. Eles usarão uma outra técnica (que envolve a passagem do planeta à frente de sua estrela, diminuindo seu brilho total) para encontrar esses astros.

Mesmo com esses satélites, tudo que poderemos fazer é descobrir a existência desses mundos – muitos deles estarão na chamada Zona Habitável, região do sistema planetário em que não é nem muito quente, nem muito frio, e a água pode existir em estado líquido na superfície. Mas quantos deles serão efetivamente habitados, ou seja, possuidores de vida?

“Constatar isso não é impossível; é muito difícil, mas não impossível”, diz Mayor. Ele destaca que tanto a Nasa (agência espacial americana) quando a ESA (Agência Espacial Européia) têm seus projetos para fazer essas medições. Os ianques têm o projeto TPF (sigla para “Localizador de Planetas Terrestres”) e os europeus apostam suas fichas no Darwin. Ambos poderão analisar a luz vinda desses planetas – com ela, é possível procurar a “assinatura” dos gases presentes na atmosfera. Caso os cientistas encontrem oxigênio em grande quantidade, assim como vapor d’água, será uma evidência bastante concreta da presença de formas de vida.

Infelizmente, para que esses projetos espaciais sejam concluídos, será preciso esperar mais duas décadas.

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