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Livro dos Porquês

A sabedoria e o conhecimento. Isso é Poder! Abra sua mente, aprenda mais sobre questões básicas (e complexas) e tire suas dúvidas, de forma mais didática possível, sem ser aquelas aulas chatas de colégio. Mais »

Grandes Mentiras Religiosas

O mundo não é tão bizarro quanto fazem parecer. Mentiras e enganações para ludibriar as pessoas, lindamente desmontados, de forma a trazer à luz a desonestidade para tentar lhe fazer parar de pensar e simplesmente aceitar o que querem que você pense. Mais »

Caderno dos Professores

Para quem quer ensinar e muitas vezes se pergunta como abordar um tema. Como deixar a aula interessante, como levar conhecimento aos seus alunos por meios que pedagogos lhe odiarão, mas serão amados pelos estudantes. Mais »

 

Como me tornei atéia

Por Fabiane Lima

Todos, inclusive religiosos, hão de concordar comigo que arrebentar um boeing cheio de passageiros num prédio, torturar pessoas em nome de deus de formas tão criativas que só o diabo poderia imaginar, e ser egoista a ponto de achar que só o seu povo é especial são ações extremamente insanas, para dizer pouco. Mas por pior que sejam, pessoalmente não acho que sejam realmente as piores. Talvez venham logo depois da que considero pior na minha escala de “atos estúpidos cometidos em nome da religião”, mas nenhum desses atos infames se compara ao que a bíblia ensina em Provérbios 22:6: educar crianças em um sistema religioso, de tal modo que mesmo depois de adultas, não consigam se livrar da praga.

É comum que pessoas que não tiveram desde o berço o mal da religião enraizado em suas mentes não compreendam que, na maioria das vezes, os religiosos realmente acreditam nos absurdos que dizem acreditar. É claro que a lavagem cerebral sofrida por estas pessoas não justifica as barbaridades que elas cometem em nome de suas crenças; se bem que alguns não titubeariam em alegar “insanidade mental” caso seus atos de fé sejam levados, por exemplo, a um tribunal laico. Mas o impacto que uma crença causa em uma pessoa de boa fé é tão danoso que pode deixar seqüelas realmente profundas pro resto da vida do cidadão.

Eu sou uma dessas pessoas. Ou melhor: era.

Minha família parece aquelas de comercial de margarina: pais carinhosos e pacientes, com boa relação entre si e com os filhos, os quais vivem em harmonia e paz. Eu não sou pedagoga, psicóloga, nem nada, mas até onde minha vista alcança, o resultado de uma boa relação entre pais e filhos nem sempre é tão saudável quanto aparenta ser: raramente acontecem casos de indisciplina e rebeldia, de modo que os filhos vão sempre andar na linha, e tomar como verdade tudo o que seus pais “perfeitos” disserem. O problema é que os pais “perfeitos” são humanos, erram, e também passaram pelo mesmo processo de condicionamento que aplicam em seus filhos. Meus pais, no caso, são batistas.

Para meus pais, eu sou um presente de deus. Eu tenho quase certeza de que na verdade sou fruto de uma bimbada que eles deram em algum dia (ou noite) do quarto trimestre de 1986, mas eles juram que foi deus quem me fez. Enquanto todas as crianças ouviam contos de fadas antes de dormir (tendo pelo menos uma vaga noção de que aquilo era fantasia), eu e minhas irmãs ouvíamos histórias de mares que se abrem no meio, barcos com um tamanho ínfimo capazes de abrigar todas as espécies do planeta, e homens que andavam por sobre o mar, todas contadas como casos verídicos e indubitáveis. Eu nunca acreditei em Papai Noel quando criança, porque Papai Noel é uma lenda que tira o foco do “verdadeiro sentido do Natal”, mas acreditei desde pirralha que deus é quem era o designer do universo. O primeiro livro que eu ganhei quando aprendi a ler foi uma Bíblia, versão de João Ferreira de Almeida, aquela traduzida no século XVII, em que está escrito “cousas” em vez de “coisas”, e de onde herdamos o eufemismo “conhecer”, usado em lugar de “fuc-fuc”. Eu tenho essa bíblia até hoje, e em sua folha-de-guarda dá para ter uma noção de como era a caligrafia desta que vos escreve aos 5 anos de idade.

Lá pelos meus doze anos eu decidi que era hora de provar pra todo mundo da minha igreja que eu era tão sabida quanto diziam que eu era: tomei o banho cerimonial do batismo e me tornei, oficialmente, uma Ovelhinha do Senhor. Ao longo da minha adolescência, por ser boa filha e boa cristã e me orgulhar desse título, me privei de várias coisas (sim, isso que você pensou também), condenei amigos por seus atos ao mesmo tempo em que sentia uma pontinha de inveja, e me tornei o que se convencionou chamar de “crente esclarecida”: o tipo de crente que não vê problema algum em achar que Darwin estava correto, que interpreta barbaridades de torres que tocam o céu como parábolas (mesmo não havendo nenhum critério oficial para esse tipo de interpretação), que separa muito bem a fé religiosa da ciência sem que as duas entrem em conflito (contraditório, não?), mas que ao mesmo tempo tolera sandices como concepção sem sexo e curas miraculosas.

Já um pouco mais velha, eu passei a lecionar na igreja para uma classe de adolescentes, ou seja, pessoas marromeno cinco anos mais novas que eu. Por eu ser uma crente prafrentex-ma-non-troppo, fiz um certo sucesso: dizia que se eles quisessem podiam sim ouvir Black Metal e ler o Réri Póta, (olha só a ironia) era só ter senso crítico, que as mulheres na Antigüidade usavam jóias muito parecidas com os piercings que se usam hoje em dia, e que até podia beber sim, desde que com moderação. Outras coisas continuavam rígidas: castidade, trindade, soberania de deus, yada, yada, yada. Porque desvirtuar a palavra de deus pra ter uma vida minimamente suportável pode, só não pode cair em tentação.

Foi mais ou menos por essa época que os questionamentos (que sempre existiram) foram ficando cada vez mais intensos. Minha fé ficou parecendo um gráfico de crise financeira: sobe, sobe, sobe, sobe, atinge o ápice e… BOOM! De tanto estudar a bíblia, mesmo sem cruzar com nenhuma referência externa, sem ler autores que debocham e ridicularizam as religiões, sem nunca ter chegado às minhas mãos aquelas listas de contradições bíblicas, acabei desacreditando tudo aquilo que a vida toda achei que fosse verdade. Porque apesar de crente, eu sempre fui meio que livre-pensadora. Pra quem lê a bíblia de fato, achar que ela é um montão de bosta de camelo leva só o tempo de desanuviar o pensamento, de se livrar das justificativas insanas para os “propósitos de deus”, e mandar praquele lugar a sensação ruim de ter passado tanto tempo fazendo papel de bobo. Um vez que se consegue isso (o que demanda um bocado de tempo, como eu disse, é uma lavagem cerebral feita desde o berço), leva só o necessário pra somar dois mais dois. Assumir isso publicamente já são outros quinhentos.

Uma vez liberto de toda essa besteirada, a sensação é indescritível. Mas o sentimento de fracasso, de ter perdido tempo, oportunidades e fases da vida que nunca (NUNCA!) mais vai se ter de volta também ronda o tempo todo. Aquela ponta de arrependimento do tipo “Ah, se eu soubesse…”, que dói tanto quanto um ente querido que morre.

Foi aí que eu entendi porque alguns céticos em geral e ateus em particular, que já foram crentes, são tão radicais. Eu os achava frustrados, e no fim acabei me tornando um deles. E quer saber? Eles são. São frustrados por terem passado tanto tempo de suas vidas na ignorância da religião, por terem sido cegos pelas crendices infundadas, e por terem entregado suas vidas de boa fé a um deus inexistente e que, mesmo se existisse, seria o mais perverso dos seres. Mas pelo menos foram suficientemente inteligentes e se redimiram, e agora podem viver suas vidas numa plenitude que nenhuma salvação via messias será capaz de proporcionar.

O problema mesmo é continuar convivendo com toda a crentaiada que está em volta, que te ama, que realmente acredita que você sofrerá o castigo eterno, que não quer de jeito nenhum que você vire churrasquinho do demônio e que, justamente por isso, quer te arrastar de volta para a igreja.