
Não é todo dia que vemos o alvorecer e a chegada de um prêmio IgNobel. É sempre uma satisfação ver a História ser escrita quando pesquisas com um quê de bizarras sendo descortinadas na nossa frente. Como exemplo, podemos citar cientistas que passam dias e noites filmando aranhas em pratos de plástico para descobrir se elas dormem. É, pois, é! É o que universidades financiam, enquanto os chefes ainda marcam reunião às 8h. O pior é que o resultado mostrou que as aranhas dormem melhor do que muita gente que você conhece. Bem… dormem melhor que eu, posso garantir isso. Deve ser os boletos.
Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Bonn concluiu que esses bichos têm um sono regulado, com fases distintas, incluindo uma que lembra o sono REM, aquela etapa em que os humanos movem os olhos sob as pálpebras e, de acordo com os manuais, sonham as bobagens mais elaboradas. Agora, antes de você sair por aí anunciando que a aranha da sua sala tem um inconsciente freudiano, calma: os autores deixam claro que movimento de olho não prova sonho, e isso é a ciência cumprindo seu papel de estragar a festa com responsabilidade.
A dra. Daniela C. Rößler é pesquisadora do Instituto de Biologia Organísmica de Bonn, cujo nome em alemão deve ser curtinho, tendo apenas 54 letras. Sua carreira começou com sinais visuais e adaptações antipredador em anfíbios, até que ela decidiu que oito patas eram mais interessantes que quatro. Foi no pós-doutorado, no laboratório de Paul Shamble em Harvard, que ela flagrou aranhas-saltadoras pendurando-se pela noite em fios de seda e se perguntou, sem exagero, se aquilo não seria sono REM. Em 2022 a pesquisa de sua autoria, publicada em outra revista de peso, foi parar na lista das “22 descobertas mais incríveis do ano” da National Geographic. Hoje ela chefia um grupo dedicado a estudar o sono em bichos que ninguém jamais pensou em colocar num colchão.
Agora A protagonista: a Portia fimbriata, aranha-saltadora australiana do tamanho de uma moeda de um euro. Pequena, sim, mas com um currículo de dar inveja a qualquer vilão de série policial. Enquanto a maioria das aranhas se contenta em caçar insetos, a Portia especializou-se em caçar outras aranhas. E faz isso com requinte: imita as vibrações de um insetinho desesperado preso na teia alheia. A dona da teia, achando que o jantar chegou de graça, caminha animada até o próprio funeral. É o golpe do falso Pix, versão aracnídea. Gente capaz de planejar e enganar assim sugere cognição de respeito, e foi justamente isso que tornou a bichinha ótima para investigar a relação entre sono e cérebro.
Para a pesquisa, cada aranha foi alojada num prato plástico de 12 centímetros de diâmetro, sob diferentes condições de luz, enquanto câmeras infravermelhas registravam tudo noite adentro. Nada de glamour: é um reality show sem prêmio, sem eliminação e com um único participante imóvel. As filmagens capturaram posturas de dormir, períodos de repouso tranquilo e episódios de REM aracnídeo, com movimentos oculares e espasmos musculares.
Mas aqui mora a dificuldade. Ficar parado não é dormir, e todo mundo que já fingiu prestar atenção em reunião sabe disso. Então, a equipe usou estímulos sonoros para medir a rapidez da reação das aranhas, o que exigiu descobrir antes qual som provocava uma resposta consistente num bicho que “ouve” o mundo de um jeito bem diferente do nosso. Também aplicou privação de sono para checar o chamado “rebote”: se a aranha acordada à força compensa depois dormindo mais, como qualquer estudante em véspera de prova, então estamos diante de sono de verdade, e não de preguiça.
Um detalhe que merece respeito: os pesquisadores não mediram a atividade cerebral das aranhas, e tudo se baseou em comportamento, com montanhas de vídeo em alta resolução. É a diferença entre ler o diário de alguém e invadir a mente dele. Daí a cautela de não cravar que elas sonham.
O que fica, além do espanto, é um recado evolutivo. Quase tudo que sabemos sobre sono vem de mamíferos e aves. Achar traços parecidos em animais de sistema nervoso radicalmente diferente ajuda a entender quando e por que o sono evoluiu, e se surgiu uma vez só ou várias vezes por caminhos independentes.
A equipe agora quer comparar espécies, aranhas em laboratório contra aranhas na natureza, o que acontece no cérebro delas enquanto dormem e, de quebra, como a luz artificial noturna e as mudanças climáticas bagunçam o descanso de aranhas e outros artrópodes. Ou seja: a poluição luminosa que tira o seu sono também está tirando o delas.
Como conclusão final, se até a aranha que engana os outros para sobreviver respeita o próprio ciclo de sono, você não tem desculpa para rolar o celular até as três da manhã. Mas vai rolar mesmo, e ela, pelo menos, vai acordar descansada.
A pesquisa foi publicada no periódico PNAS.
