A vida secreta e barulhenta dos répteis

Passamos décadas acreditando numa fábula reconfortante: a de que répteis são bichos de poucas palavras, quase monges zen do reino animal, gastando a vida entre um banho de sol e outro sem fazer alarde. Aves cantam para tudo quanto é lado, mamíferos latem, rosnam e berram por qualquer motivo (inclusive nenhum), mas cobra, lagarto, jacaré e tartaruga sempre ficaram no papel de figurantes silenciosos, quase um cenário reptiliano estático. Pois bem, essa imagem serena está desmoronando mais rápido do que uma resolução de ano novo.

O que a Ciência vem descobrindo, com uma mistura de espanto e “por que ninguém reparou nisso antes”, é que o mundo dos répteis é uma bagunça acústica e cheia de nuances. Estalos, guinchos, berros, latidos, até um som que lembra rolha de espumante sendo estourada debaixo d’água. Crocodilianos, lagartos, tartarugas e até o obscuro tuatara estão longe de ser os monges silenciosos que a cultura pop sempre pintou (cobras ficam de fora dessa festa, já que o sibilo delas é só ar forçado, sem o mesmo tipo de “canto”). E à medida que os pesquisadores prestam mais atenção a esse repertório, começam a entender que esses sons carregam recados bem específicos: sobre acasalamento, sobre território, sobre quem é o pai que vale a pena escolher.

O dr. Henrik Brumm é biólogo comportamental e trabalha atualmente no Instituto Max Planck de Inteligência Biológica, na Alemanha. Brumm dedica boa parte da carreira a estudar como animais ajustam suas vocalizações ao ambiente ao redor, campo até pouco tempo reservado quase exclusivamente a pássaros. Foi essa bagagem ornitológica que o levou a se perguntar se répteis também seriam capazes do mesmo truque, e a resposta, como se verá, surpreendeu até ele.

A lista de vocalizações répteis é mais extensa do que qualquer um imaginava, e o assunto tem raízes fundas: um trabalho anterior do biólogo Gabriel Jorgewich-Cohen já havia mostrado que dezenas de espécies tidas como mudas na verdade vocalizam, empurrando a origem da comunicação acústica em vertebrados para mais de 400 milhões de anos atrás. Cientistas já sabem há tempos que filhotes de crocodilianos emitem sons ainda dentro do ovo, sincronizando a eclosão entre os irmãos e chamando a mãe para ajudar a escavar o ninho.

Em tartarugas o roteiro é parecido, mas sem a parte do resgate materno: os filhotes clicam e chilreiam dentro da casca para sincronizar a saída do ninho em grupo, sem que a mãe apareça para cavar nada. E aqui a coisa é mais categórica do que gradual: espécies de ninhada grande, como a tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa, que põe mais de cem ovos), vocalizam e saem sincronizadas; já espécies de ninhada pequena, como a tartaruga-do-pântano-ocidental (Pseudemydura umbrina, de três a cinco ovos), tendem ao silêncio total, a ponto de o estudo mais recente não ter detectado nenhum som nos ninhos dela.

Faz sentido: em ninhadas grandes, o risco individual de virar lanche de predador despenca, então vale a pena fazer barulho e sair em bando; em ninhadas pequenas, discrição ainda é a melhor estratégia para o réptil recém-nascido.

Entre os lagartos, cerca de 30% das famílias (13 de 43, sete delas do grupo Gekkota) já têm vocalizações documentadas, o que faz dos geckos os verdadeiros tagarelas da turma. Camaleões emitem sons curtos que lembram latidos e um chamado grave (nada de terminologia oficial aqui, é só a forma mais didática de descrever) quando interagem entre si, anolis rosnam e guincham quando estressados, e o lagarto-chorão chileno (Liolaemus chiliensis, batizado de “weeping lizard” e por vezes confundido com iguana, mas sem parentesco direto com a família Iguanidae) tem um repertório quase digno de ator dramático: emite guinchos simples sob ameaça leve, mas escala para chamados mais complexos e caóticos quando o perigo é grave, o que deixa vizinhos paralisados de medo por mais tempo. Mecanismo parecido já foi visto em suricatos e até em bebês humanos, detalhe perturbador para se pensar antes de dormir.

Foi justamente investigando o gecko-tokay (Gekko gecko) que Brumm topou com o achado mais elegante da pesquisa, embora não exatamente o que ele esperava. Ele queria testar se esses bichos fariam o clássico efeito Lombard, aquele hábito humano de falar mais alto quando um ônibus passa fazendo barulho perto da janela. Ao tocar ruído branco para os geckos em laboratório, Brumm não encontrou aumento de volume algum, ou seja, nada de efeito Lombard propriamente dito.

O que ele achou foi outra coisa: os bichos reorganizam o próprio chamado, cortando os cacarejos suaves do início e deixando mais espaço para o “geck-o” mais alto e alongado (a sílaba final, o “o”, chegou a esticar cerca de 37%), como os humanos alongam vogais para se fazer entender num ambiente barulhento. “Isso foi completamente inesperado”, resume Brumm, para quem o achado revela uma flexibilidade de comunicação digna de pássaros e mamíferos, e que ninguém esperava encontrar num bicho de sangue frio.

E se há um campeão de sofisticação sonora nessa história, é o gharial (Gavialis gangeticus), parente indiano dos crocodilos, criticamente ameaçado, com queda populacional de cerca de 98% desde os anos 1940 e hoje restrito a trechos da Índia e do Nepal. Os machos adultos enchem a cavidade nasal de água e a expelem com força através de uma protuberância bulbosa na ponta do focinho, chamada de “ghara” (“pote de barro” em hindi), produzindo um estalo seco que soa como rolha de espumante.

Machos que perdem o ghara em brigas simplesmente deixam de conseguir fazer o som, o que já indica sua importância mecânica, ainda que os pesquisadores não tenham fechado a questão: além do jato de água pelo ghara, também entra em jogo o fechamento rapidíssimo da boca debaixo d’água e uma possível cavitação, e o mecanismo fino ainda está sendo investigado. O que já se sabe é que não é ruído aleatório: cada macho tem um padrão de estalos praticamente uma impressão digital sonora (variando, no geral, entre cerca de 9 e 55 milissegundos por pop), usado para alertar sobre intrusos, marcar território patrulhando ou cortejar fêmeas.

Um macho específico registrado pelos pesquisadores usava pops de 22 milissegundos para alertas e de 35 para patrulha, mas o que de fato identifica cada indivíduo é o padrão como um todo (número de pops, intervalo entre eles, contexto), não a duração isolada de um único estalo. A hipótese, ainda não comprovada, é que esse sinal comunique também qualidades paternas, já que o gharial macho é pai dedicado que protege os filhotes na água, e a fêmea pode valorizar isso na escolha do parceiro tanto quanto (ou mais que) o tamanho do corpo.

No fim, a lição é meio óbvia quando se para para (odeio este maldito acordo ortográfico) pensar: só porque um bicho não berra como leão ou canta como sabiá não significa que ele esteja calado, significa apenas que ninguém tinha parado para escutar direito. E com répteis representando milhares de espécies, quase todas inexploradas cientificamente, é bem provável que essa sinfonia de sangue frio ainda reserve muitos hits que ninguém colocou no repertório.

A pesquisa foi publicada em 2025 no periódico Annual Review of Ecology, Evolution and Systematics.

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