Cidades, humanidade e “trapaça”

Em 2015, o Wait But Why veio com uma informação surpreendente (mas não menos acertada): toda a população do planeta caberia na cidade de Nova York. É um artigo fascinante. Ele conclui que se tirássemos todo o espaço vazio no interior atômico, todos os átomos da população do planeta caberiam num M&M, que teria massa igual a 450 milhões de toneladas.

Mas aí eu fiquei penando. Caberiam no Rio de Janeiro? Vamos fazer as contas.

Sim, eu sei que parece maluco, mas não só é possível reunir todos os 8,025 bilhões de habitantes do planeta em um espaço relativamente pequeno, como o resultado desse experimento mental nos faz repensar algumas coisas sobre espaço, população e ferramentas.

Para entender como isso é possível, precisamos começar com alguns números básicos que podem parecer contra-intuitivos. Cada ser humano, quando bem acomodado em um espaço com outras pessoas, precisa de aproximadamente 0,1 m². Isso significa que é possível acomodar 10 pessoas em cada metro quadrado sem que fiquem excessivamente apertadas. Com essa densidade, 1000 pessoas ocupariam uma área de apenas 10 metros por 10 metros – o equivalente a uma sala grande.

Quando começamos a aplicar esses números a espaços do mundo real, as comparações se tornam ainda mais interessantes. Uma simples quadra de basquete, com suas dimensões padrão de 28 metros por 15 metros, poderia acomodar 4.200 pessoas. Um campo de futebol padrão FIFA (e não uma pelada de bairro para não forçar a amizade) poderia abrigar mais de 72.975 pessoas, superando a população total da Groenlândia.

Mas é quando ampliamos a escala que o exercício fica verdadeiramente fascinante. O Parque Nacional da Tijuca, com seus, aproximadamente, 39,5 km², poderia acomodar 395 milhões de pessoas – aproximadamente toda a população dos Estados Unidos. Para acomodar nossa população mundial atual de 8,025 bilhões de pessoas em um único espaço bidimensional, precisaríamos de uma área de 802,5 quilômetros quadrados, ou um quadrado com aproximadamente 28,3 km de lado.

Considerando o Rio de Janeiro em sua totalidade, com seus 1.200 km², a cidade conseguiria acomodar toda a humanidade em um único nível, e ainda sobraria espaço – aproximadamente 397,5 km². Distribuindo a população atual pelos maiores bairros e mantendo as mesmas proporções de densidade:

Guaratiba poderia abrigar 1,38 bilhão de pessoas, Santa Cruz comportaria 1,25 bilhão, Campo Grande receberia 1,19 bilhões de habitantes, Jacarepaguá acomodaria 758 milhões, e Bangu seria capaz de abrigar 459 milhões de pessoas.

Se construíssemos um único edifício cúbico para acomodar toda a humanidade, ele teria aproximadamente 1,1 quilômetro de lado – apenas ligeiramente maior que o proposto no artigo original. Este edifício teria uma base de 1,21 km² e uma altura de 1.100 metros – cerca de 33% mais alto que o Burj Khalifa, o atual edifício mais alto do mundo.

Num exercício ainda mais extremo de pensamento, se removêssemos todo o espaço vazio entre os átomos de todos os 8,025 bilhões de humanos, chegaríamos a um resultado verdadeiramente surpreendente: toda a humanidade caberia em um volume de aproximadamente 0,533 cm³ – ainda menor que uma bala M&M. Essa massa minúscula pesaria cerca de 495 milhões de toneladas, o equivalente a 82 pirâmides de Gizé.

Este exercício mental nos oferece importantes reflexões sobre urbanização, sustentabilidade e sociedade. Ele demonstra que o verdadeiro desafio da humanidade não é uma questão de espaço físico, mas sim de distribuição de recursos, sustentabilidade e qualidade de vida. Quando consideramos a população mundial puramente em termos de ocupação espacial, somos surpreendentemente compactos.

As implicações dessa análise são profundas para o planejamento urbano, o desenvolvimento sustentável e nossa compreensão das desigualdades territoriais. Ela nos mostra que os verdadeiros desafios da humanidade não estão relacionados à falta de espaço, mas sim à forma como utilizamos e distribuímos nossos recursos.

Na próxima vez que alguém comentar que o mundo está “muito cheio”, podemos lembrar que toda a humanidade poderia, teoricamente, se reunir em uma área menor que a cidade do Rio de Janeiro para um encontro histórico – embora, certamente, seria uma festa bastante apertada!

Esta perspectiva nos ajuda com algumas reflexões:

1) Entender que nossos verdadeiros desafios não estão no espaço que ocupamos, mas em como escolhemos viver nele.

2) Eu não precisei escrever este texto nem fazer os cálculos. Simplesmente peguei o texto do Wait But Why e mandei o Claude reescrever com os dados do Rio de Janeiro.

3) Que você pode pensar que eu trapaceei, mas seria o mesmo se eu pedisse para alguém reescrever para mim, traduzindo o texto e com uma calculadora fazer as contas.

4) Você agora tem uma nova perspectiva: como usar ferramentas para facilitar o seu entendimento das coisa e ao seu redor e como entender que um ChatGPT, Claude, Copilot são apenas ferramentas como o Google e uma calculadora. Só um pouquinho mais rápido, assim como você pode pegar um Uber para ir em outro bairro ao invés de ir pedalando. O problema é topar com toda a população do planeta no caminho.

5 comentários em “Cidades, humanidade e “trapaça”

  1. Reflexões interessantes que levam a mais questionamentos. Imagine os 1200km2 do rio com um sistema de esgoto para 8 bilhões de pessoas. Já imaginou o que aconteceria na hora de dormir? Quem deita primeiro?

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